Vaticano tem falado muito sobre inteligência artificial. Um guia introdutório antes da encíclica do Papa

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19 Mai 2026

O Vaticano está se preparando para a publicação da primeira encíclica do Papa Leão XIV, um documento que deverá abordar a inteligência artificial e insistir em uma abordagem ética da tecnologia que priorize a dignidade humana, as relações sociais e a paz.

 O guia* é Nicole Winfield, publicado por Crux, 16-05-2026. 

Eis o guia.

Autoridades do Vaticano afirmaram que Leão assinou o documento na sexta-feira, exatamente 135 anos depois de seu homônimo, o Papa Leão XVI, assinar sua encíclica mais importante, Rerum Novarum, ou “Das Coisas Novas”. Esse documento tratava dos direitos dos trabalhadores, dos limites do capitalismo e das obrigações que os Estados e empregadores tinham para com os trabalhadores durante a Revolução Industrial.

A encíclica tornou-se a base do pensamento social católico moderno, e o atual papa já a citou em relação à revolução da IA, que ele acredita levantar as mesmas questões existenciais que a Revolução Industrial levantou há mais de um século. Espera-se que a nova encíclica situe a questão da IA no contexto da doutrina social da Igreja, que também aborda temas como trabalho, justiça e paz

“Acho que a Igreja Católica, de muitas maneiras, será a voz madura da sala em alguns desses debates sobre como vamos integrar a IA ao restante da nossa sociedade”, disse Meghan Sullivan, professora de filosofia da Universidade de Notre Dame e diretora de seu instituto de ética. “Com certeza, o papa será um dos defensores mais fortes da dignidade humana nessas discussões.”

Poucos dias após sua eleição em 2025, Leão disse aos cardeais que o escolheram papa que a Igreja Católica devia ao mundo oferecer o “tesouro de sua doutrina social” para enfrentar os desafios que a IA impõe à “dignidade humana, à justiça e ao trabalho”.

O papa americano, formado em matemática e conhecido por passar tempo navegando no celular, provavelmente se referirá ao tema neste fim de semana, já que o Vaticano celebra no domingo o Dia das Comunicações Sociais com uma mensagem dedicada ao custo humano da corrida pela IA. Na mensagem, divulgada no início deste ano, Leão alertou para a necessidade de preservar as relações humanas reais diante de “amigos” chatbot, o gênio humano diante de músicas e vídeos produzidos por IA, e a realidade humana diante dos deepfakes gerados por inteligência artificial.

A divulgação pública da encíclica, esperada para as próximas semanas, provavelmente se tornará um novo ponto de tensão entre Leão, nascido em Chicago, e o governo Trump, que transformou o rápido desenvolvimento da IA em uma questão estratégica vital para a economia e a segurança nacional dos Estados Unidos. Os Estados Unidos rejeitaram firmemente esforços regulatórios internacionais para conter a IA e, internamente, o governo Trump removeu barreiras burocráticas que desaceleravam seu desenvolvimento.

O documento foi assinado enquanto Donald Trump encerrava uma visita à China que incluiu negócios ligados à IA. Viajavam com Trump no Air Force One, entre outros, Elon Musk, cuja plataforma X possui o chatbot Grok, e o CEO da Nvidia, Jensen Huang, que recentemente obteve aprovação federal para vender chips de IA H200 para compradores chineses.

O Vaticano quer que sua voz e seus valores estejam presentes no debate sobre IA

Desde que o boom da IA começou com a estreia do ChatGPT, as capacidades impressionantes da tecnologia surpreenderam o mundo. Empresas de tecnologia correram para desenvolver sistemas de IA melhores, enquanto especialistas alertavam para seus riscos — desde ameaças existenciais mais distantes, como IAs descontroladas, até problemas cotidianos, como preconceitos em sistemas automatizados de contratação.

No ano passado, a Organização das Nações Unidas adotou uma nova estrutura de governança para conter a IA, depois que esforços multilaterais anteriores — incluindo cúpulas organizadas pelo Reino Unido, Coreia do Sul e França — resultaram apenas em promessas sem força obrigatória. A União Europeia também aprovou, em 2024, sua própria Lei de Inteligência Artificial, baseada em uma abordagem regulatória fundamentada em riscos.

O Vaticano procurou acrescentar sua voz ao debate, oferecendo diretrizes éticas para a aplicação da IA em setores que vão da guerra à educação e à saúde. O princípio central é que a tecnologia deve ser usada como ferramenta complementar — e não substituta — da inteligência humana.

O Vaticano também alertou para o impacto ambiental da corrida pela IA, lembrando das “vastas quantidades de energia e água” necessárias para centros de dados e poder computacional.

“Há quase um bilhão e meio de católicos no mundo, então isso por si só já é motivo para prestar atenção”, disse Thomas Harmon, professor de teologia da Universidade de St. Thomas, em Houston. “Mas, além dos números, a Igreja Católica possui uma tradição profunda e sofisticada de reflexão sobre o que significa ser humano.”

Em 2020, o Vaticano convocou empresas de tecnologia a assinarem um compromisso conhecido como Rome Call for AI Ethics, que estabeleceu princípios básicos para a regulamentação da IA, incluindo inclusão, responsabilidade, imparcialidade e privacidade. Microsoft, IBM e Cisco estiveram entre as empresas privadas que aderiram.

Nos seus últimos anos de vida, o Papa Francisco defendeu um tratado internacional para regular a IA, afirmando que os riscos de uma tecnologia sem valores humanos de compaixão, misericórdia, moralidade e perdão eram grandes demais para confiar apenas na ética de pesquisadores e desenvolvedores.

Ele também usou sua autoridade junto ao Grupo dos Sete, participando em 2024 de uma sessão especial sobre os perigos e promessas da IA. Francisco afirmou que os políticos precisam liderar os esforços para garantir que a IA permaneça centrada no ser humano, de modo que decisões sobre o uso de armas — ou mesmo de instrumentos menos letais — continuem sempre sob controle humano. Por fim, pediu a proibição do uso de armas autônomas letais, conhecidas popularmente como “robôs assassinos”.

Papa Leão é familiarizado com IA e preocupado com paz, verdade e relações humanas

Internamente, Leão advertiu padres contra o uso de IA para escrever homilias, mas também se pronunciou sobre as implicações mais amplas da IA para a paz mundial, o trabalho e o próprio significado da realidade.

Para o papa agostiniano, a capacidade da IA generativa de desinformar e enganar por meio de imagens deepfake é especialmente preocupante, já que a busca pela verdade é um elemento fundamental da espiritualidade de sua ordem religiosa.

Em um discurso de junho de 2025 para uma conferência sobre IA, Leão reconheceu as contribuições da IA generativa para a saúde e a descoberta científica. Mas questionou “suas possíveis repercussões sobre a abertura da humanidade à verdade e à beleza, e sobre nossa capacidade distintiva de compreender a realidade”.

Leão, que enfatiza constantemente o apelo pela paz, também pediu monitoramento sobre como a IA está sendo usada e desenvolvida nas guerras do Oriente Médio e da Ucrânia, onde sistemas automatizados de armas utilizam desde drones aéreos até plataformas marítimas e terrestres.

“O que está acontecendo na Ucrânia, em Gaza e nos territórios palestinos, no Líbano e no Irã ilustra a evolução desumana da relação entre guerra e novas tecnologias em uma espiral de aniquilação”, afirmou ele na semana passada na Universidade La Sapienza, a maior universidade da Europa.

* O redator de tecnologia da Associated Press Matt O’Brien colaborou a partir de Providence, Rhode Island.

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