"Abusos contra os palestinos": a guerra de estupros entre Israel e o Hamas

Foto: chamika Rx/Unplash

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16 Mai 2026

O New York Times e diversas ONGs revelam depoimentos de prisioneiros palestinos vítimas de abusos sexuais sistemáticos nas estruturas prisionais do Estado judeu. Enquanto isso, o Knesset aprova uma lei para criar um tribunal militar especial para os crimes de 7 de outubro de 2023. E um relatório acusa o Hamas de violências sexuais "sistemáticas e generalizadas" contra os reféns. "Sabíamos de casos de outros prisioneiros palestinos que tiveram objetos enfiados em seu traseiro", disse Mustafa Sheeta, um palestino de 45 anos e força motriz da organização cultural Jenin Freedom Theatre, durante uma conversa com o Domani na Cisjordânia, seis meses após sua libertação.

A reportagem é de Davide Lerner, publicada por Domani, 13-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

"Esses rumores tornavam as interações com os carcereiros israelenses ainda mais temíveis", continuou ele, explicando como o pesadelo de ser submetido a violências sexuais acompanhou seu encarceramento. "E posso imaginar como foi difícil para a minha família ler essas notícias enquanto eu ainda estava lá." 

Abusos na prisão

Um número crescente de testemunhos demonstra como um número desconhecido de ex-detentos palestinos foram vítimas de verdadeiros abusos sexuais nas estruturas prisionais do Estado judeu. Os relatos mais recentes vêm de uma investigação do New York Times intitulada "O silêncio que acompanha as violências sexuais contra os palestinos", que cita casos de homens e mulheres atacados por guardas prisionais, soldados, colonos e agentes israelenses.

"[Os agentes penitenciários] abaixaram minha cueca", contou Sami al-Sai, jornalista palestino freelancer de 46 anos, ao New York Times. "Eles tentaram enfiar [um cassetete de borracha] no reto; foi terrivelmente doloroso. Depois, ouvi-os dizer: 'Me passa as cenouras'". Em um incidente separado, em março passado, os palestinos da vila de Qusai Abu al-Kebash relataram como colonos violentos despiram um morador e o forçaram a marchar pelo vilarejo com os genitais amarrados.

Essas denúncias fazem parte de um colapso generalizado no código de ética das forças de segurança israelenses após o massacre de 7 de outubro (durante o qual também houve relatos de casos de violências sexuais contra civis israelenses).

Uma crise sistêmica da qual as violências sexuais representam uma das consequências mais perturbadoras. Não é provocada por diretrizes explícitas vindas de cima, ou pelo menos não existe nenhuma conhecida, mas pelo clima de agressividade de viés nacionalista criado pelas declarações de líderes políticos e militares e pela falta de providências contra os responsáveis.

Entretanto, na terça-feira, um novo relatório israelense sobre o de 7 de outubro, denunciou como a violência sexual e de gênero perpetrada pelo Hamas teria sido "sistemática, generalizada e parte integrante" do ataque no sul do país, Israel, no outono de 2023, ou seja, não limitada a casos isolados. E, no início da semana, o Knesset, parlamento israelense, aprovou um projeto de lei que cria um tribunal militar ad hoc para mais de 250 combatentes das forças de elite do Hamas que participaram da ofensiva. Em certos casos — por exemplo, condenações por "genocídio" — é prevista a pena de morte.

O caso mais famoso e emblemático continua sendo o de Sde Teiman, que, datando de apenas nove meses após o início da guerra, pode ter contribuído para alimentar um clima de impunidade nos anos seguintes. Em breve resumo: um vídeo de 5 de julho de 2024 mostrava reservistas israelenses em serviço na famigerada prisão criada após 7 de outubro enquanto empurravam um detento palestino contra um muro, usando escudos antimotim para escondê-lo da vista. De acordo com a acusação, durante a agressão ao detento, um dos cinco o teria esfaqueado nas nádegas, causando uma lesão retal. A prisão dos acusados, no entanto, causou uma divisão dentro das forças de segurança entre aqueles que acreditavam que eles mereciam punição e aqueles que viam suas ações como louváveis.

Uma revolta em apoio a estes últimos, liderada por simpatizantes da extrema-direita, incluindo membros proeminentes da maioria, invadiu os portões da estrutura prisional, atraindo a atenção das mídias mundiais.

Desde então, Netanyahu e seu grupo elevaram os reservistas ao status de heróis nacionais. As mídias de direita os entrevistaram, descrevendo-os como vítimas de perseguição judicial. No final, eles não só foram absolvidos, como em abril passado também foram reintegrados ao exército. Quem acabou enfrentando punições severas foram a advogada militar Yifat Tomer-Yerushalmi, que vazou o vídeo incriminador, e Guy Peleg, o jornalista que decidiu transmiti-lo na televisão.

Naquele mesmo verão, um relatório da ONG israelense B'Tselem lançou luz sobre as condições terríveis dos detidos palestinos após 7 de outubro, citando mais casos de abuso sexual.

"Testemunhas descreveram espancamentos nos genitais e em outras partes do corpo de prisioneiros nus, e também o uso de ferramentas de metal e cassetetes para infligir dor nos genitais", afirma o relatório, intitulado "Bem-vindos ao Inferno". A lista de abusos também cita "a fotografia de prisioneiros nus; o agarramento dos genitais masculinos; e revistas corporais com o propósito de humilhação e degradação".

O relato de Sheeta

Durante seus 471 dias na prisão, Sheeta, que havia sido detido sem justa causa em 15 de dezembro de 2023, como parte de uma série de prisões punitivas no clima do pós-7 de outubro, e libertado em 30 de março de 2025, perdeu 45 quilos, emagrecendo de 110 quilos para 65 quilos. Tendo estado sob detenção administrativa como muitos outros, o ativista promotor da "resistência cultural" nunca foi informado das acusações contra ele.

Sheeta não foi vítima de abusos sexuais, mas lembra-se de como, em diversas ocasiões, para criar desconforto entre os presos, os guardas encenavam relações sexuais entre si perto das celas. "Dava para ouvir altos gemidos de prazer vindos da guarita", contou ele, sentado atrás de sua escrivaninha, já bem mais recuperado do que nas fotos do dia de sua libertação. Tocando a barba, que antes mantinha raspada, comentou: "Uma verdadeira loucura".

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