Um novo humanismo na era da Inteligência Artificial. Encíclica do Papa Prevost

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20 Mai 2026

"Hoje, a exclusão apresenta uma face paradoxal: A falta de terra, comida, moradia e trabalho decente coexiste com o acesso a novas tecnologias em mercados globalizados. Celulares, redes sociais e até inteligência artificial estão ao alcance de milhões de pessoas, incluindo os pobres. No entanto, as necessidades básicas permanecem não atendidas", escreve Gian Guido Vecchi, jornalista italiano, em artigo publicado por Corriere della Sera, 19-05-2026.

Eis o artigo.

A primeira encíclica de Leão XIV intitula-se Magnifica Humanitas e será apresentada em 25 de maio, mas está datada de 15: o mesmo dia em que Leão XIII, o pontífice cujo nome Prevost escolheu, publicou Rerum Novarum, a encíclica que, em 15 de maio de 1891, fundou a doutrina social da Igreja.

Uma encíclica social, portanto, mas não só isso. O texto "Sobre a Salvaguarda da Pessoa Humana na Era da Inteligência Artificial" é uma reflexão sobre a necessidade de um "novo humanismo" na
era digital, num tempo marcado por desigualdades, migrações e guerras que a revolução tecnológica corre o risco de exacerbar. Na última etapa de sua viagem à África, na Guiné Equatorial, Leão XIV falou no mês passado sobre a doutrina social como "uma ajuda para quem quer enfrentar as 'novas coisas' que estão desestabilizando o planeta e a convivência humana, buscando antes de tudo o Reino de Deus e Sua justiça".

As "novas coisas", ou rerum novarum, precisamente. Durante o tempo de Leão XIII, nascido Vincenzo Giacchino Pecci, a Igreja visava abordar os problemas sociais que surgiram durante a primeira e segunda revoluções industriais, começando pela condição da classe trabalhadora. Enquanto isso, dois clássicos do pensamento moldaram as reflexões da época: o Manifesto Comunista de Karl Marx e Friedrich Engels, em 1848, e o ensaio Sobre a Liberdade de John Stuart Mill, em 1859.

Rerum Novarum passou a definir a perspectiva da Igreja, para além do comunismo e do liberalismo.

Cento e trinta e cinco anos depois, grande parte do planeta permanece na miséria e a crescente riqueza concentrada nas mãos de poucos, particularmente daqueles que controlam as grandes empresas de tecnologia e a pesquisa em IA. "Hoje, a exclusão é a nova face da injustiça social. A lacuna entre uma 'pequena minoria' — 1% da população — e a vasta maioria aumentou drasticamente", disse Leão XIV aos movimentos populares em outubro.

A questão vai além da esfera social; diz respeito às democracias e à própria natureza da guerra, como o Papa Prevost lembrou aos alunos e professores da Universidade Sapienza de Roma na quinta-feira: "Devemos estar vigilantes em relação ao desenvolvimento e à aplicação da inteligência artificial nas esferas militar e civil, para que ela não prive as escolhas humanas da responsabilidade e agrave a tragédia dos conflitos. O que está acontecendo na Ucrânia, em Gaza e nos territórios palestinos, no Líbano e no Irã, descreve a evolução desumana da relação entre guerra e novas tecnologias em uma espiral de aniquilação."

Em 25 de maio, a encíclica será apresentada no Salão Sinodal por cardeais e especialistas, incluindo Christopher Olah, cofundador da Anthropic, a empresa americana que se opôs ao uso militar de sua tecnologia por Trump.

Pela primeira vez, o próprio Papa estará presente. Em sua essência, está a necessidade de um novo humanismo, de recolocar o ser humano e sua dignidade no centro, como fez o Papa Pecci. "Aqui reside a força evangélica de sua mensagem: o foco principal era a situação dos pobres e oprimidos daquela época", explicou Prevost aos movimentos populares: "Leão XIII denunciou a submissão da maioria ao poder de poucos."

Hoje, a exclusão apresenta uma face paradoxal: "A falta de terra, comida, moradia e trabalho decente coexiste com o acesso a novas tecnologias em mercados globalizados. Celulares, redes sociais e até inteligência artificial estão ao alcance de milhões de pessoas, incluindo os pobres. No entanto, as necessidades básicas permanecem não atendidas." Afinal, o Papa disse isto aos estudantes da Universidade Sapienza: "Somos um desejo, não um algoritmo."

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