20 Mai 2026
Eric Schmidt, ex-CEO do Google, e outros dois palestrantes foram vaiados por estudantes em três cerimônias de formatura.
A informação é de Jordi Pérez Colomé, publicada por El País, 19-05-2026
“O surgimento da IA é a próxima revolução industrial”, disse Gloria Caulfield, executiva do ramo imobiliário, a recém-formados em artes, humanidades e comunicação da Universidade da Flórida Central. A resposta? Uma chuva de vaias. Caulfield se virou para os organizadores: “O que está acontecendo?”, perguntou. Ela olhou de volta para os jovens na plateia: “Toquei num ponto sensível, posso terminar?” E continuou: “Há alguns anos, a IA não era um fator em nossas vidas”, acrescentou. Então, eles aplaudiram, e Caulfield sorriu aliviada. O vídeo de sua perplexidade viralizou.
As vaias à inteligência artificial na Flórida não foram o único incidente desse tipo em universidades americanas neste fim de semana. Eric Schmidt, ex-CEO do Google, presidia a cerimônia de formatura da Universidade do Arizona para milhares de estudantes. Schmidt proferiu frases que os jovens já ouviram milhares de vezes: “A questão não é se a IA moldará o mundo. Ela moldará. A questão é se vocês ajudarão a moldar a IA”, disse ele. E continuou: “A IA afetará tudo, qualquer caminho que vocês escolherem”. E foi vaiado.
Os motivos para as vaias serão variados: desde o medo de um futuro incerto até o cansaço com a retórica evangelizadora em torno da IA. Recentemente, na Universidade da Flórida Central, houve uma controvérsia sobre uma disciplina chamada "A Arte da IA" para estudantes de arte. Um aluno argumentou que paga a mensalidade para aprender habilidades, não para usar uma IA generativa que o impediria de usar essas habilidades.
Essa tendência se reflete em pesquisas recentes. Ao longo do último ano, de acordo com uma pesquisa da Gallup publicada em abril nos EUA, o sentimento da Geração Z (nascidos entre o fim da década de 1990 e o início da década de 2010) em relação à IA tornou-se mais negativo. A porcentagem de jovens entusiasmados com a IA caiu 14 pontos percentuais, para 22%, enquanto a dos que se mostram descontentes com ela subiu 9 pontos percentuais, para 31%. A ansiedade em relação à IA permanece estável em 42%.
Em uma pesquisa global do Pew Research Center sobre IA, a geração mais consistentemente preocupada com a IA é a de pessoas com mais de 50 anos. Os menos preocupados são os mais jovens, entre 18 e 34 anos. Esse padrão se mantém, com uma diferença percentual significativa de mais de 24 pontos entre jovens e idosos em países como Grécia, Brasil, Argentina, Itália e Japão. Mesmo na Espanha, os jovens estão 21 pontos percentuais menos preocupados do que os idosos. Os Estados Unidos, no entanto, são o país onde essa diferença é menor: os jovens estão quase tão preocupados quanto os idosos com a presença da IA no cotidiano.
Em outro discurso de formatura, o executivo da indústria musical Scott Borchetta também teve que se defender de algumas vaias durante sua fala na Middle Tennessee State University: “Esta indústria vai mudar. Mudou mais nos últimos 10 anos do que nos 50 anteriores. O streaming reescreveu a economia. As redes reescreveram a forma como descobrimos música. A inteligência artificial está reescrevendo a produção enquanto estamos aqui sentados”, e algumas vaias irromperam. Borchetta improvisou: “Eu sei, aceitem. Como eu disse, é uma ferramenta. Ou vocês me ouvem agora ou vão pagar por isso depois. Façam alguma coisa. As coisas que vocês aprenderam aqui no primeiro ano podem já estar obsoletas.”
No caso do milionário Schmidt, as vaias já eram esperadas. Em 2025, uma ex-amante o acusou de estupro, e ele também aparece nos arquivos de Epstein. Organizações universitárias distribuíram panfletos incentivando as vaias. Para piorar a situação, em sua rival histórica, a Universidade Estadual do Arizona, o padrinho de formatura foi o ator Harrison Ford, que receberia um doutorado honorário por seu ativismo ambiental.
Um porta-voz da universidade disse a um veículo de notícias local que o convite se devia ao “reconhecimento de sua extraordinária liderança e contribuições globais”, visto que ele “continua a impulsionar a pesquisa e a descoberta por meio de importantes iniciativas filantrópicas e científicas, incluindo colaborações que apoiam projetos-chave na Universidade do Arizona”.
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