A virada do Papa Leão. Artigo de Massimo Giannini

Papa Leão XIV | Foto: Vatican Media

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19 Mai 2026

"Como laicos, sabemos bem que a Igreja não basta para salvar o mundo. Mas, no eclipse do velho continente, ainda bem que existe Leão", escreve Massimo Giannini, em artigo publicado por La Repubblica, 16-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Nas mesmas horas em que, em Pequim, os líderes dos dois impérios ressurgidos brindavam com libações em cálices festivos, em Roma, o Vigário de Cristo era recebido pelos estudantes da Universidade La Sapienza com uma grande faixa: "A guerra dos poderosos, de Trump a Bibi — A paz do Papa para os povos livres". Se era necessária uma alegoria do mundo em ruínas e em busca de uma nova ordem, ei-la aqui.

De um lado, Xi Jinping e Trump (com o fantasma de Putin rondando): trocam negócios e salamaleques entre o Salão do Povo e os jardins de Mao, tentando em vão estancar a guerra contra o Irã e exorcizar a guerra contra Taiwan. Do outro lado, o Papa Leão XIV (com o espírito de Francisco ainda pairando) troveja contra o rearmamento e as elites, encontrando afeto e entusiasmo na mesma universidade que, em 2008, montou barricadas contra a visita de Bento XVI, gritando "Ratzinger fora das universidades!". Olhando bem, essa é precisamente a verdadeira novidade dessa fase. Não tanto o fato de China e Estados Unidos estarem dialogando e, juntamente com a Rússia, voltando a repartir o planeta com base em relações de força e relativas esferas de influência: é um processo já em curso, desencadeado e acelerado pelo xerife de Washington. Mas sim o fato de que, diante do desastroso projeto neoimperialista e neocolonial desse "punhado de tiranos" — para usar suas próprias palavras —, seja justamente Robert Prevost, o Pontífice de Chicago, a se erguer cada vez mais como baluarte, não apenas espiritual e moral, mas também, em última instância, político. Não a Europa, infelizmente, cujos líderes vagueiam "sozinhos, juntos" em terra incógnita, como diz Draghi.

Mas a Igreja, felizmente, sabe exatamente para onde ir e o que dizer, diante do deísmo belicista do magnata e dos semeadores do caos e da morte. Embora tardiamente, a esperança inicial desse pontificado começa a tomar forma, ou seja, a ideia de que, neste século estadunidense, está realmente se manifestando aquilo que Andrea Riccardi chama de "gênio do Conclave". Como aconteceu em 1978 com o Papa polonês que propiciou a queda do Muro de Berlim e o fim da URSS, em 2005 com o Papa alemão que se posicionou contra o jihadismo e o relativismo, e em 2013 com o Papa argentino que carregou nos ombros a cruz dos pobres da Terra, oprimidos pelo capitalismo global: agora é a vez do Papa estadunidense — ou do estadunidense Papa, como escreve Lucio Caracciolo para enfatizar a natureza cada vez mais "política" de seu magistério — despotencializar um presidente seu compatriota que rasga a Constituição e abusa do divino, ameaça a Groenlândia e invade a Venezuela, acoberta o czar de Moscou e bombardeia Teerã, faz um pacto com o diabo com Netanyahu e transforma uma Gaza banhada em sangue na Miami do Oriente Médio, manda atirar nos manifestantes nas ruas e deporta refugiados acorrentados para El Salvador.

A cada dia que passa, Prevost se torna cada vez mais o ícone de um outro EUA: cristão e ocidental, transatlântico e multilateral, democrático e liberal. O oposto daquele forjado na onipotência e no ódio por Trump. O ateu devoto que explora a religião como instrumentum regni.

Ele afirma ter sido salvo em Butler porque "Deus desviou a bala". Reza no Salão Oval com evangélicos impondo as mãos nos ombros. Posta suas fotos sacrílegas sentado no trono de Pedro ou vestido como Cristo curando os enfermos, enquanto os bombardeiros B-2 Spirit lançam mísseis e os milicianos do ICE matam Renee Good e Alex Pretti. Permite que a diretora do Escritório da Fé, Paula White, fale dele "como Jesus, traído e falsamente acusado".

Uma blasfêmia sistemática, praticada com a cínica arrogância de um presidente convencido de que a Cúria estadunidense só se salvou da falência graças à sua reeleição. Essa imunda teocracia trumpiana é incompatível com a pastoral estadunidense de Leão. Era hora de o "cisma" acontecer: oportet ut scandala eveniant, diriam os altos prelados do Vaticano.

Mas, no entanto, a perspectiva não parecia ser essa após a fumaça branca de 8 de maio de 2025. Houve aquela saudação promissora, "a paz esteja convosco", e depois aquela fórmula feliz, "uma paz desarmada e desarmante". Mas depois disso, pouco mais. Por outro lado, por que um cardeal criado no Meio-Oeste deveria seguir os passos de Bergoglio, o papa latino "vindo do fim do mundo", isto é, de um sul global anticapitalista e pouco ocidental? Aquele que dizia "sou apenas um padre, um pastor que quer sentir o cheiro de suas ovelhas" e que queria "uma Igreja pobre, atribulada, ferida e suja porque saiu às ruas". Aquele que, de batina branca, ia a pé comprar os óculos, circulava num Fiat 500, dormia em Santa Marta, beijava os pés dos prisioneiros no inferno de Regina Coeli.

Prevost é completamente diferente: um papa curial. E assim foi durante os primeiros dez meses de seu pontificado. Mas desde janeiro, tudo mudou. A primeira fissura foi aberta pelos três cardeais Cupich, McElroy e Tobin, com um documento duríssimo contra o governo dos EUA: "O papel moral dos Estados Unidos no enfrentamento do mal do mundo, na defesa do direito à vida e à dignidade humana está sob escrutínio; a construção de uma paz justa e sustentável está sendo reduzida a categorias partidárias..." Após o ataque ao Irã, veio a ruptura definitiva. Em 5 de abril, no Domingo de Ramos, Prevost finalmente começou a dar um nome às coisas. Ele lembrou que a paz "não se constrói com as armas que semeiam destruição, dor e morte, mas com o diálogo ponderado e responsável". Ele trovejou contra quem "se considera poderoso quando domina, que quer vencer matando seus iguais, que se considera grande quando é temido".

Em 7 de abril, após o comandante-em-chefe anunciar a "destruição de toda uma civilização", Leão respondeu: "isso realmente não é aceitável", e acrescentou uma frase que enfureceu o já pouco lúcido Trump: "Convido a todos a encontrarem uma maneira de se comunicar com os congressistas, para dizer que não queremos a guerra!". Um convite renovado em 11 de abril, m ocasião do aniversário da Pacem in Terris, quando Prevost condenou quem arrasta "para discursos de morte até mesmo o santo nome de Deus, o Deus da vida". O resto é crônica do último mês: os insultos do magnata, "Leão é um fraco, nunca gostei dele, ele quer que o Irã tenha a bomba nuclear".

Depois, a visita de Rubio ao Vaticano, com o Papa presenteando-o com uma caneta de madeira de oliveira, "símbolo de paz", e o secretário EUA doando um peso de papel de cristal em forma de bola de futebol americano: se era preciso alguma prova do abismo de valores e de ideias que separa os dois EUA, aqui está. Mas dessa vez, mais do que nunca, Trump errou o alvo. A firmeza com que o Papa o liquidou ("Não tenho medo dele, continuarei a falar em alta voz do Evangelho"). A clareza com que defendeu a OTAN ("é uma aliança muito importante, hoje e para o futuro"). A solidariedade demonstrada a ele por todos os chefes de Estado (incluindo a "xamã" Meloni). Tudo aponta para um império cada vez mais fraco e um Papado cada vez mais forte. Como laicos, sabemos bem que a Igreja não basta para salvar o mundo. Mas, no eclipse do velho continente, ainda bem que existe Leão.

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