Assim Trump boicota Canossa. Artigo de Lucio Caracciolo

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07 Mai 2026

"Daqui a dois dias, será comemorado o primeiro ano de Leão XIV como papa. Sem prejulgar o futuro, podemos afirmar que o Papa Prevost já entrou para a história. Muitos nos Estados Unidos começam a duvidar que Trump possa terminar o seu mandato."

Artigo de Lucio Caracciolo,  jornalista e analista geopolítico italiano, publicado por La Repubblica, 06-05-2026. A tradução de Luisa Rabolini.

Eis o artigo. 

Donald Trump atacou seu Secretário de Estado, Marco Rubio, sem mencioná-lo nominalmente. Fez isso de forma indireta, mas evidente, criticando frontalmente Leão XIV para que seu teórico braço direito, mas efetivo crítico interno, entendesse. O presidente, de fato, considera a visita de Rubio ao pontífice estadunidense uma intolerável “Penitência de Canossa”, em contradição com seus repetidos ataques contra o Papa Prevost. Uma tentativa de se distanciar, pressentindo a catástrofe anunciada para o Partido Republicano nas eleições parlamentares de meio de mandato, em 3 de novembro próximo, que de acordo com as previsões deverão tornar Trump um “pato manco”. E, dessa forma, reduzirão as esperanças de Rubio sucedê-lo a quase zero. A menos que ele se distancie. Operação em andamento.

Por essa razão, o chefe da diplomacia estadunidense, um católico romano convicto como o vice-presidente J.D. Vance, mas muito mais astuto, garantiu um encontro com Prevost amanhã de manhã no Vaticano.

Conforme anunciado pelo embaixador dos EUA junto à Santa Sé, Brian Burch, será um encontro "franco". Um adjetivo que na diplomacia significa direto. Sem rodeios. O estilo do papa e o profissionalismo de Rubio garantem que será assim, mesmo que o público receba uma versão abrandada, como convém entre homens do mundo.

Como de costume, Trump construiu sua própria realidade irreal: o papa é culpado de conivência com as ambições nucleares do regime iraniano. A acusação contra Leão XIV de patrocinar a bomba de Teerã parece uma resposta a Rubio, que, na reunião da Casa Branca onde o plano de ataque à República Islâmica foi discutido, havia considerado a empreitada uma "besteira" — mais ou menos como Vance.

A incongruência do presidente deve ser lida em três níveis. O primeiro, pessoal: o homem perdeu completamente o prumo e a autoridade. O segundo, geopolítico: percebe-se a intolerância pelos apelos do Papa por uma paz "desarmada e desarmante, humilde e perseverante". Finalmente, e decisiva, de política interna: Trump considera a lealdade o fator decisivo na escolha de seus colaboradores. Segundo ele Rubio está se comportando de forma desleal. Que ele se apressar a se realinhar.

Quanto ao primeiro nível, é evidente para qualquer um que queira ver, que Trump está fora de controle. Seu gosto pela provocação descambou para a mais vulgar confusão, que não impressiona ninguém, mas preocupa a todos: uma pessoa nessas condições na Casa Branca, à frente de uma nação em crise de identidade e de autoestima, espalha uma aura de perigosa imprevisibilidade em torno dos Estados Unidos, até ontem um ponto de referência para todos. Amigos e inimigos dos Estados Unidos são obrigados a reconsiderar antigas certezas. Alguns entre seus adversários poderiam ter ideias estranhas, aproveitando-se de um poder quase sem lideraça: os aparatos, especialmente as Forças Armadas, não estão dispostos a seguir qualquer ordem tresloucada do presidente e, de fato, boicotam suas iniciativas excessivamente escorregadias. Eles o mantêm longe do botão nuclear. Quanto às relações entre os Estados Unidos e a Santa Sé, estão no ponto mais baixo desde que foram formalizadas em 1984. O atual papa tem duas prioridades: evitar a terceira guerra mundial e reunir o ecúmeno católico, fragmentado por cismas latentes. O alarme diz respeito, em primeiro lugar, à Igreja estadunidense, que responde por grande parte dos financiamentos para o Vaticano, praticamente extintos durante o pontificado de Francisco.

Prevost foi eleito para reativar aquela fonte, apaziguando as diatribes entre cardeais e teólogos estadunidenses. Nesse sentido, o festival de insultos ao Papa, inaugurado por Trump nos últimos meses, está ajudando Prevost na reconstrução. Neste mundo enlouquecido, o Papa mantém firme o leme. Conquistando o respeito de Estados e entidades que jamais cultivaram uma forte inclinação pela Santa Igreja Romana. Enquanto isso, a Santa Sé advertiu Rubio: melhor pôr fim à polêmica. O Papa recusa-se a se rebaixar ao nível de Trump e instruiu que ele seja mencionado o mínimo possível — de preferência, não seja mencionado— nas comunicações oficiais e nas mídias do Vaticano. Os líderes estadunidenses, incluindo os católicos de fé recente (Vance) ou de longa data (Rubio), também são aconselhados a não se aventurarem na hermenêutica bíblica. O Papa não aceita lições de teologia de ninguém. Prevost também não permitirá que Trump dite sua linha sobre a China ou a Rússia. Quanto à derrubada do regime de Cuba, a próxima frente do governo republicano, com a qual Rubio sempre contou por ser descendente de fugitivos de Fidel Castro — e sobre a qual pretende construir sua reputação como líder —, a sugestão é de prudência. Deve-se levar em consideração os efeitos que um golpe militar poderia ter sobre a população local já exausta.

Os eleitores de Prevost o consideravam o menos estadunidense dos cardeais estadunidenses. Engano. Leão XIV não é um papa estadunidense: é um estadunidense papa. Movido por uma forte paixão política.

Visível quando ele exorta seus compatriotas a pressionarem seus parlamentares para que atuem pela paz e moderem os impulsos violentos desse governo. Sua condenação da idolatria da força, sua aversão pelos autocratas, até mesmo sua defesa do que resta da Aliança Atlântica — "muito importante hoje e no futuro" — são testemunho disso.

Daqui a dois dias, será comemorado o primeiro ano de Leão XIV como papa. Sem prejulgar o futuro, podemos afirmar que o Papa Prevost já entrou para a história. Muitos nos Estados Unidos começam a duvidar que Trump possa terminar o seu mandato.

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