Uma raposa no Vaticano: Rubio visita o Papa em missão de guerra

Foto: Wikimedia Commons | Embassy of the United States of America to Italy

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06 Mai 2026

O encontro de quinta-feira, 7 de maio, entre Leão XIV e o secretário de Estado americano, Marco Rubio, oficialmente confirmado pela Santa Sé na segunda-feira, está sendo apresentado como evidência de um degelo após a incrível enxurrada de insultos de Donald Trump contra o papa, "fraco no combate ao crime" e que fala "à esquerda radical", e a grosseira diatribe do vice-presidente J.D. Vance sobre o que o Vigário de Cristo teria ou não o direito de expressar.

A informação é de Mattia Ferraresi, publicada por Domani, 05-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Essa interpretação está formalmente correta, mas, na prática, as coisas são muito mais complicadas. Rubio é um político institucional de longa data e um católico de origem cubana inserido em uma comunidade com fortes laços com a Igreja de Roma. No Vaticano, desfruta de certo respeito e é considerado mais previsível e, portanto, mais confiável, do que o outro católico em posição de poder, o convertido pós-liberal Vance. Certamente, dentro do governo, Rubio é a pessoa mais bem preparada, por sua história e experiência diplomática, para restabelecer a etiqueta institucional que os rompantes do presidente violaram flagrantemente e restaurar um clima de diálogo e colaboração. Mas as posições políticas que Rubio representa estão muito distantes das palavras que Leão vem proferindo há meses em tom cada vez mais alto.

As guerras de Marco Rubio

Rubio é uma raposa internacionalista favorável a uma intervenção estadunidense forte e incisiva nos assuntos mundiais. Dentro do governo, esteve entre os mais ativos na sugestão de declarar guerra ao Irã e defendeu publicamente e com convicção um conflito que, segundo ele, era necessário porque o regime de Teerã representava uma "ameaça iminente" aos Estados Unidos. O homem que se encontrará com o Papa na quinta-feira é um interlocutor amigável e diplomaticamente impecável, mas extremamente distante das posições do pontífice sobre o conflito.

Além de secretário de Estado, Rubio também é Conselheiro de Segurança Nacional e desempenha uma série de outras responsabilidades em diversos assuntos, incluindo o caso da Venezuela, onde a operação militar dos EUA que instalou um regime chavista sem Maduro e sob o controle de Washington recebeu críticas, tanto nos bastidores quanto a portas fechadas, do Vaticano. O Washington Post revelou em janeiro, antes do ataque a Caracas, que o secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, tentou pressionar os EUA para evitar o ataque, buscando persuadir Maduro a aceitar o salvo-conduto oferecido pela Rússia.

O próximo campo de divergência entre os dois lados será Cuba, terra natal de Rubio e alvo de gerações de políticos republicanos (e não só) que veem o regime como o verdadeiro pecado não redimido da Guerra Fria, um obstinado remanescente do comunismo que o império estadunidense foi incapaz de conquistar ou converter. Nenhuma das aventuras prometidas por Trump entusiasma e engaja Rubio como a de Cuba e, certamente, no Vaticano, as modalidades preferidas de gerir esse assunto não coincidem com aquelas do secretário de Estado estadunidense. Portanto, não é apenas o ramo de oliveira que conta, mas a mão que o segura.

Vance humilhado

O segundo aspecto traumático do caso é totalmente interno ao governo. No bizarro processo de seleção de seu sucessor, digno de um reality show, Trump fez de tudo para humilhar Vance e valorizar Rubio. Há meses o vice-presidente é obrigado a justificar publicamente posições tomadas pelo governo às quais todos sabiam que ele se opunha, e é sistematicamente escolhido para as tarefas mais constrangedoras, como a dar aulas de teologia ao Papa.

Rubio, por outro lado, é quase sempre poupado e precisa defender externamente posições que também defende no debate interno.

Ao enviar Rubio ao Vaticano, Trump também priva Vance do papel de mediador com Roma, que ele há muito almejava desempenhar e que agora vê sendo tirado por seu futuro adversário nas eleições. A escolha do interlocutor papal também é significativa em sua essência. Se estivesse diante de Vance, Leão teria falado com o único membro do gabinete de guerra que, como o próprio presidente admitiu, de alguma forma se colocou contra a guerra no Irã, perdendo claramente o debate interno.

Trump entendeu perfeitamente a mensagem: apesar de todos os testes de fidelidade a que o submeteu, Vance não pode ser considerado um intérprete confiável da mensagem de Trump em uma conversa tão delicada. Ele correria o risco até mesmo de concordar com o papa, e, por ser convertido, está sempre exposto à antiga dúvida sobre a lealdade dos católicos estadunidenses.

Rubio é outro tipo de católico republicano, herdeiro da tradição de conciliação entre a Igreja e o projeto estadunidense que encontrou sua realização republicana na época Reagan-Bush: quando os objetivos dos Estados Unidos e da Igreja estão em harmonia, ótimo; quando não estão, má sorte.

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