Em páginas diferentes? Francisco evita as recomendações do Sínodo. Artigo de Massimo Faggioli

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16 Fevereiro 2020

O Sínodo Amazônico e a “Querida Amazônia” representam um divisor de águas, porque revelam a complexidade da transição de uma Igreja Católica papal-episcopal para uma Igreja Católica sinodal.

A opinião é de Massimo Faggioli, historiador italiano e professor da Villanova University, nos EUA, em artigo publicado por Commonweal, 14-02-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Neste momento, a Igreja Católica parece ser uma das últimas coisas existentes entre Jair Bolsonaro e a sobrevivência da região amazônica – e, com ela, talvez do planeta. O ímpeto voraz do presidente brasileiro de desenvolver a floresta tropical seria catastrófico mesmo que o mundo já não estivesse literalmente queimando, da Califórnia à Austrália, passando pela Sibéria.

Querida Amazônia”, a exortação do Papa Francisco sobre o Sínodo sobre a Amazônia em outubro passado, equivale a uma carta de amor papal para a Amazônia. Publicada no dia 12 de fevereiro, aniversário do assassinato da Ir. Dorothy Stang em 2005, no Estado brasileiro do Pará, na Bacia Amazônica, ela expressa o sonho de Francisco para a região – social, cultural, ecológica e eclesialmente.

Em 111 parágrafos, e em uma linguagem poética cheia de referências literárias (Mario Vargas Llosa, Pablo Neruda, Vinicius de Moraes), Francisco expõe sua visão de uma profunda transformação de uma parte do mundo que enfrenta uma abundância de ameaças.

O apelo do papa a proteger a Amazônia não passou despercebido pelo próprio Bolsonaro, que, no dia 13 de fevereiro, atacou em resposta: “Bem, o papa pode ser argentino, mas Deus é brasileiro”.

A “Querida Amazônia” é um tipo único de exortação pós-sinodal. Apropriadamente, pois ela se segue a um sínodo que diferia significativamente dos anteriores: dedicado a uma região específica do mundo e amplamente preparado por grupos eclesiais e outros dessa área; fortemente apoiado por católicos leigos e teólogos que trabalharam em estreita colaboração com seus bispos antes de irem para Roma; e tocando diretamente as questões nevrálgicas dos padres casados e dos diáconos e diáconas em posições de liderança institucional.

Além disso, foi um teste importante após a publicação de uma grande reforma do Sínodo dos Bispos de Paulo VI – Episcopalis communio, de 2018 – que abordou as questões do primado papal e da preparação dos documentos finais, em um esforço para moldar uma Igreja mais sinodal.

Por fim, ele se desenrolou em um cenário de um intenso sentimento anti-Francisco e de atos de racismo dirigidos contra participantes indígenas – um dos seus perpetradores foi recentemente saudado por Rod Dreher [jornalista da revista The American Conservative e autor do livro “The Benedict Option”] como “herói”.

A “Querida Amazônia” também é única pois não se envolve diretamente com o documento final votado e aprovado pelo Sínodo, incluindo o parágrafo que pede que Francisco avalie a ordenação presbiteral de homens casados (que foi aprovada com dois terços dos votos).

Em casos anteriores, especialmente na Amoris laetitia, Francisco incluiu partes dos documentos finais em suas exortações pós-sinodais. Mas não desta vez. De fato, na “Querida Amazônia”, ele afirma explicitamente e desde o início que não fará isso. No entanto, na realidade, ele não contradiz o documento final; ele simplesmente oferece suas próprias conclusões e opta por não adotar as decisões relativas aos padres casados.

Portanto, ficamos com dois documentos diferentes, ambos frutos do processo sinodal. É a última aplicação ao magistério, nesses tempos extraordinários, do princípio católico “et et”: “ambos”, e não “ou um ou outro”.

Pense-se nisso de acordo com a reinterpretação de Francisco do primado papal para uma Igreja sinodal, mas também com o seu modo de lidar – pela primeira vez – com o seu genuíno desacordo com a maioria do Sínodo. A sua linguagem sobre o sacerdócio, no capítulo 4, às vezes transmite mais uma teologia pré-conciliar do que conciliar ou pós-conciliar sobre o ministério ordenado, com um foco naquilo que é exclusivo ao padre e em sua identidade exclusiva (nn. 87-88). As fontes mais importantes dessa seção devem tudo à era João Paulo II; a grande ênfase naquilo que os leigos podem fazer funciona para conservar o sistema clerical do modo como ele é.

Em vez de receber as propostas sinodais sobre a ordenação dos viri probati ao sacerdócio, a solução de Francisco é rezar por vocações e uma sistematização mais eficiente do clero. Há uma pequena abertura sobre a possibilidade de um rito amazônico – muito pequena, porém, comparada à proposta do documento final.

E a linguagem de Francisco sobre as mulheres é típica e lamentavelmente inadequada, enquanto o seu efusivo elogio ao “feminino” é contraproducente. O que ele diz aqui se encaixa no padrão daquilo que ele sempre disse sobre essas questões. É de se perguntar o que acontecerá com a comissão pontifícia para o estudo do diaconato feminino – se ela será reconstituída ou não, e sobre qual base.

Sua relutância em aceitar a conclusão do Sínodo reflete um medo de dividir a Igreja? Isso não o impediu antes. E vale a pena observar apenas como o conceito de inculturação vem à tona (o parágrafo 82 inclui uma interessante autocrítica sobre a falta de liturgias inculturadas na Igreja).

Também existem algumas aberturas interessantes sobre as comunidades eclesiais de base, que são uma das grandes reviravoltas do pontificado de Francisco no que se refere à vida da Igreja na América Latina. A sinodalidade tornou-se possível com a reabilitação da inculturação pelo magistério papal.

A grande questão é o que ocorrerá a seguir. Esse documento é o fim da linha para o documento final do Sínodo? Ou é apenas uma pausa no processo? Como um colega italiano me disse: “Roma locuta, causa infinita”Roma falou, a discussão é interminável.

O processo sinodal é, por definição, aberto e interminável. O Pe. Antonio Spadaro, escrevendo na La Civiltà Cattolica, enfatizou os espaços para a recepção do Sínodo abertos pela “Querida Amazônia”. Na introdução da exortação, o parágrafo 4 é importante ao convidar as Igrejas locais a tomarem a iniciativa. No parágrafo 97, ela convida à criação daquele que poderia ser um órgão “supranacional eclesial” para implementar novos ministérios e ritos. Os novos ministérios da mulher (parágrafo 103) serão criados sob os critérios “institucionais” de “estabilidade, um reconhecimento público e um envio por parte do bispo”.

Certamente, a sinodalidade não se refere apenas aos documentos papais, mas também ao impacto dos próprios eventos sinodais. E não há como amordaçar as expectativas sinodais na Igreja de hoje. Surge uma questão paralela sobre o que isso significa para os processos sinodais locais nas Igrejas ao redor do mundo, especialmente para o “Caminho Sinodal” na Alemanha e o “Concílio Plenário” na Austrália. Que tipo de mensagem uma exortação atípica como essa envia à Igreja e às lideranças leigas ativas nesses processos?

Os historiadores da Igreja do futuro podem se interessar muito em saber quem escreveu o capítulo 4 da “Querida Amazônia”. Claramente, houve mãos diferentes trabalhando aqui – e diferentes daquelas que trabalharam no Sínodo. Também seria interessante saber o que aconteceu depois do Sínodo, entre novembro e janeiro, que exigiu uma resposta papal tão rápida. Esse é o menor intervalo de tempo entre a conclusão de um sínodo e a publicação da exortação pós-sinodal.

O que podemos dizer agora é que o Sínodo Amazônico e a “Querida Amazônia” representam um divisor de águas, porque revelam a complexidade da transição de uma Igreja Católica papal-episcopal para uma Igreja Católica sinodal. Agora temos uma visão mais clara dos problemas não resolvidos entre o primado papal e a sinodalidade. E o que vemos com a “Querida Amazônia” pode sugerir uma traição ao Sínodo Amazônico, pelo menos em termos do que isso significa para as reformas institucionais da Igreja.

Francisco não aprovou o documento final, e, portanto, este não entrou no magistério (de acordo com a Episcopalis communio). Pela tradicional hierarquia das fontes, apenas a “Querida Amazônia” faz parte do magistério ordinário do papa. Entretanto, mesmo assim, essa não é a história toda, pois o próprio Francisco diz que a “Querida Amazônia” não substitui o documento final do Sínodo.

A esperança de que a “Querida Amazônia” abriria um processo semelhante ao da Amoris laetitia poderia equivaler a um pensamento ilusório – não por causa da oposição dos episcopados locais, mas, desta vez, por causa da oposição do próprio Francisco, sem falar da resistência que ele continua enfrentando em Roma e em outros lugares.

Além disso, as posições de Francisco sobre as questões dos Sínodos de 2014-2015 alinhavam-se com as das maiorias sinodais. Desta vez, elas não se alinham, e talvez isso não deveria surpreender: desde 2013, Francisco deixou claro, repetidamente, o seu pensamento sobre o celibato e os padres casados, sobre os diáconos e as diáconas, e sobre as mulheres no ministério.

A única grande reforma institucional de Francisco – o Sínodo dos Bispos e a sinodalidade – mostra agora uma fraqueza sistêmica: a sinodalidade católica ainda gira institucional e canonicamente em torno do Sínodo dos Bispos, que foi concebido em 1965 como um instrumento do primado papal para cooptar elementos da colegialidade episcopal.

Em 2020, há 55 anos da fundação do Sínodo dos Bispos por Paulo VI, as propostas dos bispos ainda dependem do “fiat” papal, mesmo quando há um grande consenso, como no Sínodo Amazônico.

Em segundo lugar, o braço institucional da sinodalidade católica ainda não sabe como receber a participação do povo de Deus, ou de que forma: como o “pueblo fiel de Dios” pode ser representado, escutado e contribuir para a tomada de decisões?

Mas não há como voltar atrás. O magistério papal reconheceu a necessidade de levar em consideração o sensus ecclesiae.

A “Querida Amazônia” não é como a Humanae vitae. No entanto, de certa forma, o espaço entre a “Querida Amazônia” e o documento final do Sínodo precisa ser preenchido. Francisco gosta de dizer que “o tempo é superior ao espaço”. O tempo também é superior em Roma do que na Igreja global, onde a sensação de muitos católicos é de que essa pode ser a última melhor chance de reforma institucional – e que essa também pode ser a última geração de católicos dispostos a acreditar que isso é possível. O momento é uma encruzilhada para o pontificado de Francisco.

 

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