Qual é a tarefa dos cristãos na sociedade de hoje? A ''opção Bento'' e a heresia donatista. Artigo de Andreas Gonçalves Lind

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20 Fevereiro 2018

Recentemente, nos Estados Unidos, foi publicado um livro intitulado The Benedict Option, que provocou um grande debate.

Para o jesuíta português Andreas Gonçalves Lind, porém, “se é verdade que os cristãos contemporâneos podem aprender com a regra beneditina e adaptá-la aos tempos atuais, também é verdade que exaltar a realidade da perseguição poderia implicar um risco: o de perceber seu próprio “pequeno grupo” como a Igreja verdadeira e melhor do que as outras. Em última análise, esse é o risco da arrogância, ligado a um pecado eclesial contra a unidade e a comunhão.”

Lind é colaborador da Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Namur, na Bélgica. O artigo foi publicado por La Civiltà Cattolica, caderno 4.022, 20-01-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Recentemente, nos Estados Unidos, foi publicado um livro intitulado The Benedict Option, que provocou um grande debate [1]. O nome se refere a São Bento de Núrsia (480 circa - 547). A revista The New Yorker o definiu como “o livro religioso mais discutido e mais importante da década” [2]. O volume, substancialmente, tenta propor uma maneira pela qual os fiéis cristãos e suas comunidades possam não apenas salvaguardar seus princípios e suas tradições religiosas, mas também prosperar em uma sociedade muito secularizada. Portanto, vale a pena se debruçar sobre esse livro para avaliar seus conteúdos.

O autor do volume é Ray Oliver “Rod” Dreher, escritor estadunidense de 50 anos, jornalista da revista The American Conservative e colaborador de revistas e jornais como National Review e The Wall Street Journal. Dreher, com a “opção Bento”, parece sugerir que os cristãos, dentro de comunidades “locais” e “pequenas”, deveriam se preparar para viver em uma sociedade pós-cristã, operando como uma “pólis paralela”, capaz de “exercer as virtudes” como uma força “contracultural” dentro de um mundo que claramente rejeita o cristianismo.

O autor tem o mérito de tratar o problema da vida cristã diante do desafio da secularização crescente. Também é louvável a sua intenção de imaginar no mundo atual uma vida cristã não individualista, mas comunitária. Igualmente louvável é seu desejo de dar um testemunho cristão. A “opção” de Dreher é uma espécie de readaptação da regra e do carisma de São Bento aos nossos tempos.

Inspirando-se em “Depois da virtude” (1981) de Alasdair MacIntyre, Dreher fundamenta a “opção Bento” em uma narrativa que interpreta a história do passado e o nosso tempo presente. São postos em paralelo os “séculos obscuros” posteriores à queda do Império Romano e a nossa suposta era pós-cristã. Segundo Dreher, ao fundar sua ordem monástica, São Bento “respondia” ao “colapso da civilização romana”. Essa resposta consistia na recriação de pequenas comunidades de homens virtuosos, nas quais a civilização seria conservada para prosperar em épocas posteriores [3].

Nesse sentido, o autor defende, com uma certa finesse estilística, que os cristãos no Ocidente deveriam “se separar” da “ordem oficial”, mas sem se afastar completamente da sociedade. Não se trata de construir uma “comunidade fechada”. Em vez disso, Dreher insiste na construção de “práticas comuns” e de “instituições” que sejam capazes de “derrubar” o “isolamento” vivido pelas comunidades de fiéis cristãos hoje [4].

Mesmo que a “opção Bento” possa ser aceitável dentro da sociedade estadunidense contemporânea, ela certamente parece se basear em uma narrativa do carisma beneditino muito simplificada e discutível. Segundo Dreher, “a opção política Bento parte do fato de reconhecer que a sociedade ocidental é pós-cristã[5]. E ele fundamenta essa opção no nosso tempo não apenas interpretando as sociedades ocidentais contemporâneas como o início de uma “obscura era pós-cristã”, mas também afirmando que a regra de São Bento é uma resposta ao paganismo [6].

O risco do “pequeno grupo”

No entanto, deve-se dizer também que o pai do monaquismo ocidental, apesar dos elementos originais da sua regra, inseriu-se em uma tradição pré-existente. O monaquismo cenobita apareceu e floresceu não principalmente como uma “resposta” à queda do Império Romano na obscura idade bárbara, mas durante a época imperial cristã, logo após o fim da perseguição da Igreja primitiva.

De fato, como Pacômio e Basílio antes dele, São Bento, em geral, não agia de modo reativo, em resposta aos pagãos incultos que estavam destruindo o Império [7], mas em continuidade com a chamada “tradição do martírio branco”. Os monges cenobitas buscavam um modo de oferecer suas vidas a Deus, em um contexto histórico posterior e diferente em comparação com o da primitiva Igreja dos mártires.

Os defensores da “opção Bento”, como já descrito, tendem a entrever uma analogia entre os séculos obscuros posteriores à época romana e a nossa sociedade. É difícil ficar indiferente ao tom “apocalíptico” com o qual Dreher expõe sua tese. Os “séculos obscuros” do nosso tempo, a inevitabilidade de nos tornarmos “mais pobres” e “mais marginalizados”, a necessidade de aprender com os opositores da tirania comunista na Tchecoslováquia, o emprego de termos como “políticas antipolíticas” ou “pólis paralela”, a previsão de perder “carreiras” por causa de sutis “perseguições”, a ênfase nos danos da tecnologia, da internet e da prática sexual libertina... todas essas afirmações são feitas dentro da narrativa de uma Igreja perseguida, em analogia ao que aconteceu com os primeiros mártires.

Se é verdade que os cristãos contemporâneos podem aprender com a regra beneditina e adaptá-la aos tempos atuais, também é verdade que exaltar a realidade da perseguição poderia implicar um risco: o de perceber seu próprio “pequeno grupo” como a Igreja verdadeira e melhor do que as outras. Em última análise, esse é o risco da arrogância, ligado a um pecado eclesial contra a unidade e a comunhão.

A tentação donatista e a reação de Agostinho

Era exatamente essa a tentação da heresia donatista. O “donatismo” foi um movimento religioso que surgiu na África, no ano 311, a partir das ideias do bispo de Numídia, Donato di Case Nere. Ele nasceu precisamente em uma época de perseguições. Donato fazia uma dura crítica contra aqueles bispos que não haviam resistido às perseguições de Diocleciano e que entregaram os Livros sagrados aos magistrados romanos. Segundo os seguidores de Donato, os sacramentos administrados por esses bispos não seriam válidos. Essa posição pressupunha, portanto, que os sacramentos não tivessem eficácia em si mesmos, mas que sua validade dependia da dignidade de quem os administrava.

Como notou o teólogo Yves Congar, os donatistas exaltavam o ato do martírio, tendiam à rigidez e à pureza moral, e manifestavam uma forte hostilidade em relação às autoridades e às instituições seculares [8]. Para os donatistas, a perseguição da Igreja foi um critério importante para corroborar sua pertença à verdadeira Igreja de Cristo. De fato, eles estavam orgulhosos de serem perseguidos e se sentiam ligados à Igreja dos mártires. É preciso acrescentar que esse sentimento era totalmente justificado pela violenta oposição que as autoridades imperiais haviam desencadeado contra eles [9].

Santo Agostinho se opôs à sua teologia sacramental, citando Cipriano – o grande mártir elogiado pelos cismáticos –, a fim demonstrar que o martírio e, em geral, a perseguição são frutíferos somente quando exigidos pela graça e vividos em união com a Igreja. De acordo com o bispo de Hipona, unidade, caridade e humildade estão intrinsecamente ligadas entre si. Portanto, quem é cismático cai em um pecado eclesial, rompendo a unidade (e, consequentemente, a caridade e a humildade) [10]. Para Agostinho, o grande pecado dos cismáticos seria o do orgulho ou da arrogância: crer que se é justo em contraposição a todos os outros, destruindo, desse modo, a comunhão.

Por um lado, Agostinho propõe uma teologia mais articulada e coesa do que a dos donatistas, mostrando-lhes que as únicas perseguições poderiam não atestar sua fidelidade à Igreja de Cristo: para buscar a unidade, são indispensáveis a caridade e a humildade. Por outro lado, ele parecia encontrar um modo coerente de louvar o martírio da Igreja primitiva, conseguindo, ao mesmo tempo, adaptar as práticas e as tradições da Igreja à nova época histórica.

No fim dessa controvérsia, a Igreja optou por reintegrar, depois de algumas penitências, os traditores, em vez de expulsá-los [11].

Quando a rigidez existe às custas da unidade e da paz

Sem cair na heresia, obviamente, em Dreher captam-se os ecos da voz de Donato: “Se as Igrejas de hoje querem sobreviver à nova idade obscura, devem parar de ‘ser normais’. Precisaremos nos comprometer mais profundamente com a nossa fé e precisaremos fazer isso de modo que pareçamos estranhos aos olhos contemporâneos. Se redescobrimos o passado, se recuperarmos o culto litúrgico e o ascetismo, se centrarmos a nossa vida na comunidade eclesial e se reforçarmos a disciplina da Igreja, conseguiremos, com a graça de Deus, retornar àquele povo especial que sempre deveríamos ter sido. Essa concentração na formação cristã dará como fruto não só cristãos mais fortes, mas também uma nova evangelização, porque o sal recuperará seu sabor” [12].

Na sua vontade de se identificar com a Igreja primitiva dos mártires perseguidos, os donatistas não aceitavam um modo diferente de viver e praticar a fé. Também no novo contexto histórico, em que a perseguição havia terminado, eles sentiam que o fato de serem perseguidos confirmava o fato de eles serem os cristãos verdadeiros e bons. Ao fazer isso, esses cristãos cismáticos constituíram um pequeno partido de “pessoas puras”. Contrapondo integer e profanus como a principal diferença entre quem pertencia e quem não pertencia à Igreja, os donatistas tendiam a admitir apenas membros irrepreensíveis.

A firme resposta de Agostinho

À sua rigidez e à ênfase no ascetismo, Agostinho deu algumas respostas que pode ser muito útil reler hoje. O bispo de Hipona faz duas distinções, que os donatistas não eram capazes de fazer. Em primeiro lugar, ele distingue entre a Igreja histórica presente e a futura Igreja escatológica. A Igreja pura, constituída apenas de homens irrepreensíveis, se torna realidade no fim dos tempos na ecclesia qualis futura est. Agora, na época presente, Deus é paciente e permite que diversos tipos de homens e mulheres participem da ecclesia talis nunc est. A Igreja presente é pro mixta societas, ou seja, uma sociedade mista com pessoas boas e más. Uma Igreja é formada por fiéis melhores e piores (ou não tão virtuosos) [13].

Enquanto a “opção Bento” de Dreher quer construir comunidades em que a disciplina seja “reforçada”, a fim de assegurar um cristianismo que se presume mais verdadeiro e mais sadio, os escritos de Agostinho dirigidos aos donatistas sublinham outros aspectos, tais como, por exemplo, a paciência para com os pecadores, também em consideração ao valor da manutenção da comunhão.

Agostinho nota a arrogância daqueles que querem separar os bons dos maus, o “justo” do “injusto”" antes do tempo oportuno. Nesse contexto, ele pede “humildade”, “paciência” e “tolerância”. A humildade parece ser uma virtude cristã fundamental, sem a qual, dentro do corpo místico de Cristo, não são possíveis a unidade e a comunhão. O bispo de Hipona se baseia, em grande medida, na autoridade de Cipriano e mostra como esse mártir tentou acolher opiniões diferentes a fim de manter a unidade da Igreja [14].

A “opção Bento” não implica automaticamente a arrogância que Agostinho percebia na atitude dos donatistas. No entanto, o apelo a um “reforço da disciplina na Igreja” ecoa a rigidez moral donatista. Além disso, a vontade de construir pequenas comunidades de “cristãos fortes” poderia apagar a importância de virtudes cristãs como a humildade, a paciência e a tolerância – que se destacam nos escritos de Agostinho –, comprometendo a comunhão entre os fiéis e a formação de relações de paz no mundo.

A ênfase na “pureza” e a hostilidade para com as instituições seculares

Uma característica adicional da atitude donatista que muito tocou o teólogo dominicano Yves Congar diz respeito à hostilidade em relação às instituições seculares. Os donatistas tendiam a se recusar a colaborar com as autoridades do Império, que, para eles, representavam poderes pagãos. Na sua perspectiva teológica, a pureza de uma prática cristã implicava a recusa de participar, colaborar ou se empenhar com os pagãos em suas instituições não cristãs.

Nesse sentido, os donatistas eram efetivamente uma “pólis paralela”. Ao contrário, os católicos como Agostinho permaneceram ligados a algumas instituições imperiais e se sentiram obrigados a considerar os donatistas como cristãos cismáticos.

Essa ênfase na pureza, como precaução contra qualquer contaminação de qualquer elemento externo ao ambiente cristão, está conectada com a interpretação que os donatistas davam ao conceito teológico de “catolicidade”. Segundo eles, “católico” indicava perfeição e plenitude sacramental. Nesse sentido, os donatistas acreditavam que o verdadeiro catolicismo estava limitado à sua Igreja local e pequena, no norte da África.

Seguindo a teologia de Optato, Agostinho propunha outra interpretação de “catolicidade”, evidenciando a universalidade como unidade de toda a Igreja como corpo místico de Cristo [15]. Ele insistia no fato de que as Igrejas locais espalhadas por todo o mundo deveriam estar em comunhão, a fim de realizar as profecias bíblicas quanto à eficácia do anúncio da Ressurreição de Cristo [16].

No fim das contas, a argumentação de Agostinho buscava demonstrar que os donatistas, mesmo que fossem mais virtuosos do que todos os outros fiéis cristãos, nunca poderiam ter a exclusividade da verdadeira Igreja. Ele queria deixar claro que se isolar de outros cristãos e da sociedade em geral não era um sinal positivo.

Embora Dreher não deseje o isolamento das comunidades cristãs, sua “opção Bento” exige “separação” dos poderes políticos e instituições seculares, a ponto de desenvolver a vida tanto quanto possível dentro de instituições cristãs, em que os empresários cristãos contratem principalmente trabalhadores pertencentes às próprias Igrejas [17]. Além disso, a ênfase posta nos aspectos negativos da tecnologia e da internet pode ser entendida como um alerta para não ser contaminado pela cultura pagã. Portanto, essa opção poderia “fechar” as comunidades cristãs.

Nesse sentido, para Dreher, o princípio da defesa da liberdade religiosa serve para estabelecer a possibilidade de existir e de agir para instituições conformes à “opção Bento”. Dreher não se mostra interessado em estabelecer um verdadeiro diálogo com aqueles que têm uma base cultural e religiosa diferente, e seguem estilos de vida diferentes. É difícil até mesmo imaginar uma possibilidade de colaboração com pessoas de opções diferentes.

Consequentemente, sobre a “opção Bento”, pesa um olhar pessimista sobre a sociedade contemporânea. Embora seja essencial a afirmação da liberdade religiosa, se se quer que os cristãos possam praticar sua fé, Dreher não parece interessado em mostrar a importância do diálogo verdadeiro, que brota daquela dignidade humana da qual derivam todas as liberdades. Por mais que a internet possa ser “a tecnologia mais radical, destrutiva e revolucionária” que um cristão deve evitar e limitar, especialmente no que se refere às crianças [18], a opção de Dreher não propõe um modo de viver dentro desse novo “lugar” e de evangelizá-lo.

Olhando para a controvérsia donatista, é claro que a opção de Agostinho, em particular, e a Igreja Católica, em geral, não são pensadas para estabelecer distinções entre ser um bom cidadão e ser um bom cristão. Naturalmente, como cristãos, devemos ser prudentes em colaborar com as pessoas e com as instituições seculares. Podemos nos referir à metáfora de Dreher: os cristãos não devem “queimar incenso para César[19]. No entanto, encontrar modos que “não comprometas” as nossas “consciências” cristãs, no contexto da “opção Bento”, corre o risco de impedir o desenvolvimento de relações saudáveis com todas as pessoas de boa vontade e o compromisso social junto a elas. Uma justa atenção às devoções da religiosidade popular e uma propensão a um diálogo aberto fora da Igreja parecem justificar, pelo menos, opções diferentes da de Dreher.

E as injustiças sociais?

A “opção Bento” também corre o risco de “estabelecer” (ou “restabelecer”) comunidades e práticas cristãs fortes às custas de uma assistência social organizada. Obviamente, as práticas e as instituições cristãs não devem ser reduzidas a atividades sociais de estilo “ONG”. No entanto, isso não significa que as práticas e as instituições cristãs possam ficar indiferentes aos pobres e aos mais marginalizados da sociedade ocidental e, de fato, em todo o mundo.

Segundo Yves Congar, os donatistas não se preocupavam muito com as injustiças sociais [20]. O livro de Dreher parece encontrar o modo de salvaguardar, animar e ativar práticas cristãs, mas não é fácil entrever como tais práticas podem levar em consideração a “opção preferencial pelos pobres”.

No contexto da crescente globalização, os fiéis cristãos poderiam optar pela ampliação das suas relações com outras comunidades, até mesmo fora das suas Igrejas, a fim de aumentar as sinergias para a construção da paz e da justiça. Esse também poderia ser um modo de viver, praticar e testemunhar as virtudes cristãs e a verdadeira fé.

A importância da humildade e da misericórdia

Dreher afirma que “a opção Bento, em última análise, deve ser uma questão de amor” [21]. Ninguém que se reconheça na tradição cristã poderia discordar dessa afirmação. No entanto, a “opção Bento” não é imune aos riscos recorrentes que são inerentes à rigidez moral e às forças contraculturais. O principal risco de tais atitudes diz respeito à falta de comunhão, de unidade e de paz dentro da Igreja e com a sociedade em que vivemos.

Para o Papa Francisco, a misericórdia é “a mensagem de Jesus”, “é a mensagem mais forte do Senhor” [22]. Se Agostinho desaprovou a rigidez que os donatistas adotavam às custas da unidade da Igreja, hoje também o Papa Francisco se esforça para introduzir práticas mais misericordiosas para com as feridas e as dificuldades que os homens e as mulheres contemporâneos experimentam. Essa atitude espiritual não pode ser reduzida a uma estratégia política: ela tem um fundamento bíblico e teológico.

Respondendo a Pedro que lhe pergunta quantas vezes o discípulo deve perdoar, Jesus diz: “Eu não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18, 22). Depois de dizer isso, Jesus conta a parábola do “servo impiedoso”, que, apesar de ter recebido o perdão do seu patrão, é incapaz de perdoar o próximo. No fim, ele é condenado pelo seu patrão (Mt 18, 23-35).

Para o papa, “a parábola contém um ensinamento profundo para cada um de nós. Jesus declara que a misericórdia não é apenas o agir do Pai, mas torna-se o critério para individuar quem são os seus verdadeiros filhos” [23]. Talvez, no compromisso para restabelecer “pequenas” comunidades em que os membros sejam cristãos “fortes” e atuem como uma espécie de “sociedade paralela”, os fiéis poderiam se desviar de tal critério. Diante de Deus e do mundo inteiro, os cristãos devem ser credíveis ao testemunhar a natureza misericordiosa de Deus, tornando possível sua experiência dentro de instituições cristãs.

Não há dúvida alguma de que o secularismo é um grande desafio para as comunidades cristãs. O Papa Francisco está respondendo à secularização do mundo atual com uma atitude humilde, com um diálogo seguido de gestos de bondade e de maior compreensão para com todos: uma “opção” verdadeiramente evangélica para os cristãos de hoje.

Notas:

1. R. Dreher, The Benedict Option. A Strategy for Christians in a Post-Christian Nation. Nova York: Sentinel, 2017.

2. J. Rothman, «Rod Dreher’s monastic vision». The New Yorker (www.newyorker.com/magazine/2017/05/01/rod-drehers-monastic-vision), 1° mai. 2017.

3. Cf. R. Dreher, The Benedict Option..., cit., 2-4; 16-18.

4. Cf. ibid., 88-96.

5. Ibid., 12 s.

6. Pode-se dizer que o apelo de Alasdair MacIntyre a “outro São Bento, sem dúvida muito diferente”, é formulado no contexto do contraste entre duas tradições morais: a liberal e a aristotélica. Enquanto tenta mostrar a inteligibilidade e a possibilidade da segunda, ele propõe o exemplo de São Bento. Nesse sentido, a perspectiva de MacIntyre pressupõe que existam homens e comunidades não cristãos virtuosos. Além disso, ele está ciente dos perigos inerentes ao paralelismo entre a nossa época e a queda do Império Romano. De fato, ele reconhece também que o paralelismo entre a sombria idade pagã posterior à queda do Império Romano e a nossa sociedade ocidental contemporânea tende a ser redutivo demais: “É sempre arriscado traçar paralelos precisos demais entre um período histórico e outro, e entre os mais enganosos desses paralelismos estão aqueles que foram traçados entre a nossa época na Europa e na América do Norte e a época em que o Império Romano declinava rumo aos séculos obscuros” (A. MacIntyre, Dopo la virtù. Saggio di teoria morale. Roma: Armando, 2007, 314).

7. Cf. M. Dunn, The Emergence of Monasticism. From the Desert Fathers to the Early Middle Ages. Oxford: Blackwell, 2003.

8. Cf. Y. Congar, «Introduction générale aux traités anti-donatistes de Saint Augustin». In: Œuvres de Saint Augustin. Traités anti-donatistes. Vol. I. Paris: Desclée de Brouwer, 1963, 29 s.

9. Cf. ibid., 17; 45.

10. Cf. Agostinho, s., Sul battesimo contro i Donatisti, l. II, 4-6.

11. Isso confirma a visão que o Papa Francisco tem da história da Igreja: “Duas lógicas percorrem toda a história da Igreja: marginalizar e reintegrar. (...) O caminho da Igreja, desde o Concílio de Jerusalém em diante, é sempre o de Jesus: o caminho da misericórdia e da integração” (Amoris laetitia [AL], n. 296). Sobre a controvérsia com os donatistas, cf. também J. L. Narvaja, «Sant’Agostino a proposito della tradizione e dello sviluppo del dogma», in Civ. Catt. 2017 I 390-400.

12. R. Dreher, The Benedict Option..., cit., 101 s.

13. Cf. Y. Congar, «Introduction générale aux traités anti-donatistes de Saint Augustin», cit., 62-64; 95 s.

14. Cf. Agostinho, s., Sul battesimo contro i Donatisti, l. IV, 12-13; l. VI, 2; 7; 35.

15. Cf. Y. Congar, «Introduction générale aux traités anti-donatistes de Saint Augustin», cit., 77 s.

16. Cf. Agostinho, s., Sul battesimo contro i Donatisti, l. I, 4.

17. Cf. R. Dreher, The Benedict Option…, cit., 176-194.

18. Cf. ibid., 218-236.

19. Ibid., 179 s.

20. Cf. Y. Congar, «Introduction générale aux traités anti-donatistes de Saint Augustin», cit., 35.

21. R. Dreher, The Benedict Option…, cit., 237.

22. Francisco, Il nome di Dio è misericordia. Milão: Piemme, 2016.

23. Id., Misericordiae Vultus. Bula de proclamação do Jubileu da Misericórdia, 11 abr. 2015, n. 9.

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