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16 Janeiro 2015

"Essa reflexão não tem o objetivo de analisar as causas de um jihadismo que não faz justiça ao Profeta, mas do relacionamento dentre a Europa e o Islã. A sua memória coletiva é de guerra, de Carlo Martello (732) ao cerco de Viena (1783), passando pelas cruzadas e pela Reconquista", escreve Arnaud Leparmentier, jornalista, em artigo publicado pelo jornal Le Monde, 15-01-2015. A tradução é de Ivan Pedro Lazzarotto.

Eis o artigo.

Estava-se no período sucessivo aos atentados de 11 de setembro. A Europa tentava dotar-se de uma Constituição. O deputado europeu Alain Lamassoure nos havia surpreendido propondo que a Convenção presidida por Valéry Giscard d’Estaing, iniciasse os trabalhos para uma “declaração de paz ao mundo”. Ideia curiosa para uma Europa fundamentada na paz, na liberdade e nos valores humanos, que havia recentemente adotado a sua carta de direitos fundamentais. O democrata cristão Lamassoura tinha razão: a Europa não era, aos olhos do mundo, somente uma Vênus apaixonada pela paz. Era também responsável pela escravidão, pela colonização, por duas guerras mundiais e pelo Shoah.

Neste domingo, 11 de janeiro de 2015, Paris era a capital mundial da liberdade contra a barbárie. A Marselhesa cantada terça-feira na Assembleia Nacional (Parlamento Francês): destruidora. Os nossos valores de tolerância e de laicidade tem vocação universal, mas não impedem uma pequena introspecção.

Seleção Religiosa

Antes de tudo deixemos de lado o islã. Os europeus cansaram muito para aceitar a alteridade religiosa. Ainda na metade do século XX, o mapa geográfico das religiões era extraordinariamente homogêneo, com católicos ao sul, protestantes ao norte, ortodoxos ao leste. Duas grandes exceções: a mistura na Alemanha e nos Balcãs. A coexistência entre católicos e protestantes em terra alemã a partir da Reforma Luterana pode iniciar timidamente somente com o início da seleção religiosa colocada em prática com a paz de Augsburgo (1555), o Cuius régio, eius religio (os súditos seguiam a religião e o seu governante). E ocasionou a Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que fez com que a Alemanha perdesse metade da sua população, porque finalmente pararam as mortes em nome da religião.

Coexistência inter-cristã não significa de fato uma mistura: somente o influxo de refugiados que fugiam de Stálin definitivamente levou católicos e protestantes a viver juntos a partir de 1945. Situação diferente na França, tendo Luíz XIV decidido revogar o Édito de Nantes, em 1685. Privou a liberdade de culto os protestantes que emigravam. A França ficou essencialmente católica. Ainda em 1830, a Bélgica foi fundada pela união entre católicos e liberais, que se separou dos Países Baixos, de língua flamenga e essencialmente protestante.

Os judeus foram sempre perseguidos. Expulsos da Espanha em 1492 ou jogados às margens do império russo. Em outro local, sua lenta secularização não permitiu sua aceitação. Somente depois do “affaire Dreyfus” na França, depois do Shoah em toda a Europa, foram finalmente considerados. Então, a Europa ocidental vivem em paz religiosa no seu interior somente depois dos horrores da segunda guerra mundial. Pelo contrário, mesmo mais tarde: não devemos nos esquecer as sucessivas guerras ao esmagamento da Iugoslávia. Hoje, a alteridade religiosa está encarnada pelos muçulmanos.

Essa reflexão não tem o objetivo de analisar as causas de um jihadismo que não faz justiça ao Profeta, mas do relacionamento dentre a Europa e o Islã. A sua memória coletiva é de guerra, de Carlo Martello (732) ao cerco de Viena (1783), passando pelas cruzadas e pela Reconquista. Não se trata somente de um “choque de civilizações”. As nossas civilização estão misturando-se há meio século. Percebemos tardiamente, dado que os muçulmanos haviam sido considerados como imigrantes provenientes de colônias da França, ou trabalhadores temporários (Gastarbeiter) turcos na Alemanha.

Sua estabilização durante um longo período, a sua ascensão à nacionalidade e o seu desejo de praticar sua religião perturbam profundamente a sociedade. A partir de 1905 o modelo francês de laicidade organiza a separação entre a esfera pública e a esfera religiosa. Mas é fato, acima de tudo para o cidadão francês e o fiel católico, que seguidamente são a mesma pessoa. Este modelo não funciona totalmente bem com a irrupção do Islã.

A Europa do século XXI se encontra novamente dentro de uma corrente islamofóbica multiforme, em um contexto de dificuldades sociais. A reação mais tragicamente delirante foi a de Anders Breivik, lobo solitário de extrema direita que assassinou, em 2011, setenta e sete noruegueses em nome da defesa do cristianismo.

Assimilação

Os Países Baixos são o país mais fortemente perturbado pela islamofobia, fenômeno ampliado pelo assassinado de dois dos seus porta-vozes, o líder populista Pim Fortuyn em 2002 e o cineasta Theo Van Gogh em 2004. E agora o movimento chega a Alemanha, com a Pegida, união dos “patriotas europeus contra a islamização do ocidente”. Desfilam em Dresden no leste da Alemanha, todas as segundas-feiras e cada vez mais numerosos. O sociólogo alemão Andreas Zick vê neste movimento “a velha ideia de uma comunidade de valores homogêneos, na qual o islã não tem o direito de desempenhar seu papel. Ou somente um papel secundário, no caso em que os muçulmanos se mostram adaptados”.

Reencontramos aqui o conceito de assimilação, que pretende que o novo recém chegado deixe suas raízes na esfera privada e se insira na comunidade que o acolhe. Sim aos novos imigrantes, em condições que não perturbem a ordem estabelecida. Assim, por ter dado o nome de “festa das luzes” ao tradicional desfile de São Martinho, de forma a permitir a participação de crianças não cristãs, um padre da Renânia recebeu ameaças de morte e 3000 cartas de protesto. Mas os franceses devem aceitar a ideia de que o islã se transforme na segunda religião da França, afirmava recentemente um ministro socialista. E também os europeus. Façamos um primeiro gesto: seis grandes festas religiosas católicas são festivas. Somemos as duas grandes festas, uma judaica e uma muçulmana, o Yom Kippur e o Aïd-el-Kebir, no 09 de maio, dia da declaração Schuman que deu início a Europa, na mudança de uma semana de RTT (1). Não é uma renúncia. Seria uma maneira de demonstrar que a laicidade, o secularismo, não é feita somente para os cristãos e os ateus. Significaria reforça-la.

Notas:

1- Ndr.: RTT: “Réduction du Temps de Travail”, redução do tempo de trabalho, introduzida com a adoção na França de 35 horas de trabalho por semana, organizada como um sistema para aumentar as folgas)

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