História católica: conservador x progressista

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12 Janeiro 2016

Grande parte do que é rotulado como anticatolicismo pelos conservadores é, na verdade, um anticlericalismo. As elites progressistas não odeiam os católicos; odeiam os bispos.

 

"Espero ser perdoado por adentrar neste diálogo intraconservadores. Ainda que ninguém hoje irá me rotular como conservador, cresci numa igreja conservadora na década de 1950, entrei em um noviciado jesuíta conservador em 1962 antes do Concílio Vaticano II e tive anos bastante difíceis para fazer a transição à Igreja pós-conciliar. Em suma, sou simpático com o que alguns conservadores estão vivenciando hoje porque passei por uma experiência parecida no final dos anos 1960", escreve Thomas Reese, jesuíta e jornalista, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 07-01-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Eis o artigo.

Ross Douthat é um conservador inteligente e articulado que se converteu ao catolicismo em sua adolescência e agora escreve para o The New York Times. Ele enfurece muitos dos meus amigos progressistas, mas eu em geral eu acho os seus escritos interessantes e instigantes mesmo quando eu discordo deles.

Este mês, a First Things publicou um texto seu intitulado “A Crisis of Conservative Catholicism” [1], que é um discurso também instigante dirigido aos católicos conservadores na era do Papa Francisco. Aí Douthat ele tenta ajudar estes fiéis a lidar com as mudanças que estão acontecendo na Igreja.

Espero ser perdoado por adentrar neste diálogo intraconservadores. Ainda que ninguém hoje irá me rotular como conservador, cresci numa igreja conservadora na década de 1950, entrei em um noviciado jesuíta conservador em 1962 antes do Concílio Vaticano II e tive anos bastante difíceis para fazer a transição à Igreja pós-conciliar.

Em suma, sou simpático com o que alguns conservadores estão vivenciando hoje porque passei por uma experiência parecida no final dos anos 1960.

Para uma outra opinião, confira o texto “Ross Douthat’s Erasmus Lecture” [2], escrito por Michael Sean Winters, o qual eu somente li depois de ter escrito esta coluna.

Douthat começa o seu texto relacionando a narrativa conservadora aceita explicando os últimos 50 anos do catolicismo, iniciando-se com o Vaticano II. Os objetivos do Concílio eram “reorientar o catolicismo para longe de sua mentalidade de fortaleza do século XIX, inaugurar um diálogo renovado com o mundo moderno, olhar mais profundamente para dentro do passado católico no intuito de se preparar para o futuro e introduzir uma era de evangelização e renovação”.

Mas a “renovação esperada foi sequestrada, em muitos casos, por aqueles para os quais renovação significa uma acomodação ao espírito da década de 1960 e uma transformação da Igreja junto às linhas protestantes progressistas”.

A Igreja pós-conciliar dividiu-se em dois campos. “Um seguiu os documentos reais do Concílio e instou a Igreja a manter a continuidade com o ensino católico e a tradição, e o outro foi leal a um ‘espírito do Concílio’ que simplesmente aconteceu de coincidir com tendências culturais que vieram em sua esteira”.

Douthat escreve que, no período imediatamente após o Concílio, o segundo grupo controlou os seminários, as ordens religiosas, as universidades católicas e as burocracias diocesanas. “Os resultados foram, na melhor das hipóteses, decepcionantes e, na pior, desastrosas: a queda na frequência às missas, o desaparecimento das vocações, uma erosão rápida da identidade católica para onde quer que se olhasse”.

Felizmente, segundo a sua narrativa, um novo papa foi eleito advindo do primeiro grupo “que rejeitava a hermenêutica da ruptura, levando em frente as intenções verdadeiras do Concílio ao mesmo tempo proclamando as verdades antigas do catolicismo mais uma vez”. Este papa e o seu sucessor “inspiraram exatamente o tipo de renovação que os Padres Conciliares haviam esperado: uma geração de bispos, sacerdotes e leigos preparados para testemunhar a plenitude do catolicismo, o esplendor de sua verdade”.

O catolicismo progressista estava morto e o futuro pertencia aos conservadores.

Douthat reconhece que esta sua narrativa está em crise. A crise de abusos sexuais e o seu acobertamento “lançou uma sombra sobre os últimos anos de João Paulo II, fez surgir perguntas significativas sobre o seu comando na Igreja e desacreditou os líderes católicos (de Bernard Law em Boston ao pesadelo que foi Marcial Maciel) que, certa vez, pareceram ser os pilares de um reavivamento conservador”.

A rota dos conservadores nas guerras culturais, o declínio continuado de fiéis e o aumento dos “sem religião” mostram que o programa conservador não teve sucesso. Ele poderia ter também acrescentado o crescente afastamento das mulheres da hierarquia.

Finalmente, segundo Douthat, Bento XVI provocou um fracasso administrativo que não pôde finalizar a obra de restauração de João Paulo II nem controlar um “Vaticano essencialmente não governável, cego às realidades midiáticas contemporâneas, à corrupção e aos vazamentos de informação”.

Antes de irmos às recomendações do autor, deixe-me responder ao seu resumo da narrativa conservadora e dizer o que deu de errado.

Primeiro, penso ser necessário remontar até o século XIX, quando a hierarquia católica, após a experiência catastrófica da Revolução Francesa, se alinhou com o establishment político conservador no combate a todas as coisas modernas (imprensa livre, liberdade de expressão, democracia, sindicatos, etc.). A igreja perdeu intelectuais europeus e as classes trabalhadoras (especialmente a masculina) muito antes do Vaticano II. A resposta da Europa à aliança da Igreja com o conservadorismo foi o anticlericalismo.

A experiência americana foi diferente porque, enquanto na Europa a Igreja lutava contra a expansão da liberdade, aqui a Igreja estava do lado da liberdade e aceitava a separação da Igreja e do Estado. Consequentemente, até a crise dos abusos sexuais e as guerras culturais, não havia um movimento anticlerical significativo nos Estados Unidos. Os bispos americanos eram vistos como defensores dos sindicatos e das famílias das classes trabalhadoras das quais eles vinham. Os bispos enfrentaram um anticatolicismo, mas não um anticlericalismo.

Hoje, por outro lado, o anticlericalismo está vivo e bem nos EUA entre os progressistas políticos (por causa da agenda política episcopal) e entre as mulheres (por causa da postura dos prelados com respeito às questões femininas dentro e fora da Igreja). Grande parte do que é rotulado como anticatolicismo pelos conservadores é, na verdade, um anticlericalismo. As elites progressistas não odeiam os católicos; odeiam os bispos.

Segundo, a narrativa de Douthat passa por cima dos eventos do Vaticano II como se não houvesse conflito ou desacordos nele. Na narrativa progressista, uma Cúria Romana conservadora tentou impingir as suas propostas aos Padres Conciliares que se revoltaram e voltaram-se aos teólogos em busca de ajuda na elaboração de alternativas.

Os bispos não chegaram a Roma como reformadores. Em lugar disso, os primeiros anos do Concílio mostraram-se um programa de educação continuada onde os bispos tiveram uma formação sobre os desdobramentos contemporâneos em teologia. Somente depois de atualizarem as suas teologias é que eles estavam prontos para trabalhar na elaboração dos documentos.

A Cúria e os seus aliados conservadores lutaram com unhas e dentes contra estas reformas, as quais eles certamente viam como revolucionárias e uma ruptura com o passado. Colocar a liturgia no idioma vernáculo, dar o cálice aos leigos, promover o ecumenismo, reconhecer a liberdade de consciência e religião – tudo isso fora visto como inovações protestantes, e estavam certos. Após centenas de anos de oposição, a Igreja finalmente aceitava algumas das reformas que resultaram da Reforma e do Iluminismo.

Paulo VI, temendo um cisma por parte da direita, forçou a maioria progressista a aceitar inúmeros compromissos no intuito de fazer com que os conservadores aprovassem os documentos finais. Isso levou a documentos com uma linguagem ambígua e, por vezes, contraditória.

Os progressistas aceitaram os compromissos porque viam o Concílio como o começo de um processo de reforma, e não como uma conclusão. Os compromissos e textos ambíguos eram apenas modos de postergar até que debates posteriores que eles imaginaram poderiam ter continuidade na Igreja.

O combate entre conservadores e progressistas continuou depois do Concílio, mas é falso retratá-lo simplesmente como sendo os conservadores que estariam promovendo os documentos enquanto que os progressistas promoveriam o “espírito” do Concílio. Na verdade, a discussão foi também sobre a interpretação dos documentos, que às vezes eram propositalmente ambíguos.

A narrativa de Douthat também ignora o documento Humanae Vitae e o seu impacto na Igreja. Nos EUA, este documento marcou o fim do domínio clerical sobre os fiéis que rejeitavam a conclusão segundo a qual todos os métodos contraceptivos artificiais são imorais. Quando o ensino papal contradizia as suas próprias experiências pessoais, os leigos rejeitavam o ensino. Gerações anteriores podem ter se sentido obrigadas a deixar a Igreja diante de um tal desacordo, mas aqui isso não aconteceu.

Humanae Vitae teve igualmente um impacto profundo em Karol Wojtyła, que havia estado na minoria que compôs a comissão papal para o controle de natalidade que recomendara uma mudança ao ensino da Igreja. Ele ficou escandalizado com os bispos dissidentes e teólogos que questionavam a encíclica. A sua experiência na Igreja polonesa lhe ensinara a importância da unidade para uma Igreja sitiada primeiramente pelo nazismo e, depois, pelo comunismo.

Como papa, fez da lealdade a um ensino papal (especialmente em Humanae Vitae) o teste decisivo para as nomeações episcopais. A lealdade superava as qualidades teológicas, pastorais ou administrativas. O seu longo reinado, somado ao curto reinado de seu sucessor, assegurou que o episcopado se refizesse em sua imagem.

João Paulo II trouxe Joseph Ratzinger para trabalhar contra os teólogos dissidentes, removendo ou silenciando sacerdotes e religiosos que questionavam o ensino papal. Ele também apresentou uma interpretação autoritária e conservadora de trechos ambíguos dos documentos conciliares. Tópicos que haviam sido postergados no Concílio foram fechados ao debate.

A lealdade se tornou um critério fundamental para os professores, seminaristas e assessores teológicos. Visto que a ampla maioria dos teólogos discordavam da Humanae Vitae, acabou que este documento significou um afastamento desta parcela significativa da Igreja. A fim de evitar o conflito e manter os seus empregos, a maioria dos teólogos sacerdotes simplesmente pararam de discutir tópicos polêmicos. Até mesmo os teólogos leigos, que não estavam sujeitos aos votos de obediência, evitaram entrar em temas polêmicos, pelo menos até alcançarem o posto/título de professor.

Seja de propósito, seja por acidente, o papado de João Paulo rompeu a aliança entre os bispos e teólogos que havia se mostrado tão bem-sucedido na luta contra a Cúria Romana no Concílio. Na verdade, os bispos nomeados por João Paulo II ou atacaram os teólogos ou os evitaram. Conforme escrevi alhures [3], este é o equivalente eclesial de uma empresa onde a gestão não se comunica com o setor de pesquisa e desenvolvimento.

Em resumo, o processo de renovação iniciado pelo Concílio foi parado e, às vezes, andou para trás, segundo a narrativa progressista. Por exemplo, se um clero casado tivesse sido aprovado e Humanae Vitae não existisse, teríamos uma Igreja muito diferente hoje. A Igreja se deparou com alguns problemas depois do Concílio porque a agenda reformista foi abandonada, e não por causa das reformas que foram implementadas.

Finalmente, nos EUA, os líderes republicanos viram uma oportunidade única para trazer os católicos brancos junto de seu partido. Quiseram transformar a Igreja Católica e as igrejas evangélicas num Partido Republicado em oração. Nessa campanha, prometeram auxílio a escolas católicas e um fim ao aborto, mas jamais fizeram dessas coisas prioridades uma vez que estivessem no poder.

Muitos católicos conservadores americanos minimizaram o ensino social católico porque ele ia contra as suas opiniões políticas e econômicas, ou porque eles percebiam que ele lhes tiraria a atenção das guerras culturais. Ignoraram ou contornaram o que João Paulo II e Bento XVI haviam dito sobre guerra e paz e sobre justiça econômica.

Concordo com Douthat que a narrativa conservadora se enfraqueceu com a crise dos abusos sexuais e com o êxodo continuado de fiéis (especialmente os jovens) sob João Paulo e Bento. Também concordo que a narrativa progressista se enfraqueceu com o aumento no número de evangélicos e pelo declínio das igrejas históricas. Enquanto a metade dos que abandonam a Igreja se tornam ou contrários a ela ou “sem religião”, cerca de um terço se torna evangélico. Poucos, em comparação, se juntam a igrejas históricas.

Nem a narrativa conservadora nem a progressista possui uma boa explicação para o êxodo católico. A minha crença pessoal é a de que ele tem pouco a ver com teologia e mais a ver com um desejo por serviços religiosos carregados de emoção e um sentido de comunidade, coisas ausentes na maioria das paróquias católicas. 

As narrativas são importantes para explicarmos o mundo a nós mesmos e aos outros. Estas narrativas conservadoras e progressistas concorrentes ajudam a definir a Igreja de hoje. Será que podemos ter um diálogo sobre elas sem xingamentos e sem atirar pedras? Espero que sim. 

Na semana que vem, a minha coluna também vai ser sobre o texto de Douthat.

Notas:

[1] Texto disponível aqui.

[2] Texto disponível aqui.

[3] Conferir este artigo intitulado “Cinco motivos por que o sínodo está fadado a fracassar”.

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