Devemos ir além do impasse da “Humanae Vitae”

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26 Janeiro 2015

"O encontro que queremos que Francisco tenha é com os teólogos, párocos e casais católicos que lhe dirão a verdade. Humanae Vitae tem sido um sério impedimento à autoridade católica. O seu texto criou um abismo entre os prelados e os padres, entre a hierarquia e os fiéis", afirma o editorial de National Catholic Reporter, 23-01-2015. A publicação é de responsabilidade de leigos e leigas católicas dos EUA. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Segundo o editorial, "já passou da hora de o Papa Francisco e a hierarquia da Igreja juntarem-se aos fiéis numa caminhada humana que muito precisa deles como companheiros. Se Francisco quer que a Igreja seja uma testemunha credível, se quer ser o pastor que achamos que ele pode ser, ele precisa levar-nos para além do impasse Humanae Vitae".

Eis o editorial.

Em grande parte, a viagem do Papa Francisco à Ásia foi um evento memorável.

No Sri Lanka, um país traumatizado pela guerra – onde os católicos, temendo que políticos rivais usassem sua presença para tirar vantagem política, pediram a Francisco que não fizesse a visita –, ele se saiu muito bem, administrando pautas importantes para deixar uma forte mensagem de justiça e conciliação, abraçando a diversidade e continuando o diálogo inter-religioso. Os srilanqueses ficaram animados com sua presença e se colocaram a dar continuidade ao trabalho de reconstrução social.

Nas Filipinas, Francisco brilhou intensamente em todos os momentos. Quem não ficaria comovido pelo abraço que ele deu à menina de 12 anos chamada Glyzelle Palomar, ex-moradora de rua que lhe perguntou por que motivo Deus deixa as crianças sofrerem? A resposta dele foi o abraço, e todos os que assistiram a este momento o sentiram também.

Também comovente foi a insistência de Francisco em visitar Tacloban, cidade devastada por um tufão, mesmo enquanto uma outra tempestade tropical se abatia sobre a região. Ele se movimentou com os instintos de um pastor que queria estar com o seu povo. Uma vez aí, vestido numa capa de chuva transluzente amarela por cima de suas vestimentas religiosas, era possível ver um desespero em seu rosto enquanto explicava vagarosamente em inglês que deixaria de lado o texto preparado, falaria em espanhol e usaria um intérprete. Sentiu que precisava falar em sua língua nativa para propriamente expressar as profundezes de seu coração. A sua mensagem, também aqui, foi um abraço, um abraço aos milhares que perderam entes queridos e aos milhões que perderam suas casas. “Estou aqui com vocês”.

Francisco, o papa das periferias, incorporou a mensagem que prega. Ele era o pastor servo trabalhando no “hospital de campanha”, sua descrição favorita de igreja. Muitas vezes, Francisco fala e escreve sobre criar uma cultura do encontro. “Os muros que nos dividem só podem ser superados, se estivermos prontos a ouvir e a aprender uns dos outros”, falou.

No entanto, inserida em sua caminhada pastoral de encontro estava uma mensagem difícil que implora por explicação. Por duas vezes, Francisco elogiou a encíclica Humanae Vitae, do Papa Paulo VI, publicada em 1968, que manteve a proibição moral da Igreja para com o uso de métodos contraceptivos artificiais. Francisco chamou de “corajosa” esta publicação. Chamou Paulo VI de “profeta” e “um bom pastor”. Paulo VI  “teve a força de defender a abertura à vida”, disse Francisco.

Mas Francisco também imediatamente acrescentou duas ressalvas: existem “casos particulares” em que esta proibição pode não se aplicar e a “paternidade responsável” (termo que Paulo VI usou também), momento que poderiam exigir uma limitação dos nascimentos.

À primeira vista, o endosso do Papa Francisco para com a Humanae Vitae parece uma continuidade com as opiniões de seus predecessores. Contudo, a contundência de sua insistência de que os pastores estejam atentos aos “casos particulares” e a sua ênfase na paternidade responsável (os católicos não precisam ser como coelhos, na linguagem criativa de Francisco) sugeriram a alguns que ele quer mover a Igreja para além de uma interpretação rígida da Humanae Vitae.

Esta ideia ficou reforçada quando o pontífice convidou as pessoas casadas a explorarem a paternidade responsável “com diálogo”, dizendo: “É por isso que existem grupos de casais na Igreja, que existem especialistas nesta questão, que existem pastores”.

Mas em seguida Francisco retorna à rigidez, acrescentando: “Deus nos deu métodos para sermos responsáveis (...) Eu conheço muitos, muitos meios lícitos que podem ajudar”.

Francisco precisa reexaminar as suas declarações neste sentido. Enquanto que a questão da contracepção está amplamente estabelecida no Ocidente, onde pesquisas revelam que as práticas de controle de natalidade dificilmente diferem das práticas de outros grupos, nos países em desenvolvimento tais como as Filipinas a assistência à saúde reprodutiva é amplamente negada à população por causa da força e do lobby da hierarquia católica.

A nossa esperança é que Francisco esteja dando os primeiros passos para desatar os ensinamentos oficiais da Igreja da ideia segundo a qual “qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida”. Este ensinamento representa o mais estreito dos entendimentos sobre o amor, a intimidade e fidelidade dentro de um casamento.

Este não é o lugar para se apresentar uma refutação completa dos ensinamentos oficiais da Igreja relativos ao controle de natalidade. Como observado acima, os fiéis católicos responderam a este problema há muito tempo.

Um estudo recente e acessível sobre esta problemática é o livro intitulado “Sexual Ethics: A Theological Introduction” [A pessoa sexual. São Leopoldo: Unisinos, 2012], de Todd A. Salzman e Michael G. Lawler . Ao autores descrevem uma abordagem baseada no ensinamento papal, deste a [carta encíclica] Casti Connubii do Papa Pio XI até o documento Gaudium et Spes do Concílio Vaticano II, incluindo a versão revisada de 1983 do Código de Direito Canônico que configura um caso moral para a manutenção e abertura à vida humana, mas que não proibe o uso de métodos contraceptivos artificiais.

O encontro que queremos que Francisco tenha é com os teólogos, párocos e casais católicos que lhe dirão a verdade. Humanae Vitae tem sido um sério impedimento à autoridade católica. O seu texto criou um abismo entre os prelados e os padres, entre a hierarquia e os fiéis.

Logo após a promulgação desta encíclica, sociólogos, como o Pe. Andrew Greeley, começaram a documentar a contribuição do documento no declínio da credibilidade episcopal, na frequência à missa e nas doações, e até mesmo nas vocações, já que os padres, que em sã consciência não poderiam defender o que diz esta encíclica, abandonaram o ministério.

Paulo VI apontou corretamente os perigos que poderiam advir à vida em matrimônio e à dignidade humana e, temendo que uma mudança no ensinamento corroesse a credibilidade da Igreja, prescreveu o remédio errado. Já passou da hora de o Papa Francisco e a hierarquia da Igreja juntarem-se aos fiéis numa caminhada humana que muito precisa deles como companheiros. Se Francisco quer que a Igreja seja uma testemunha credível, se quer ser o pastor que achamos que ele pode ser, ele precisa levar-nos para além do impasse Humanae Vitae.

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