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17 Agosto 2020

O concílio convocado por João XXIII mudou profundamente a vida da Igreja... Mas, se os debates foram acalorados, as reformas iniciadas estavam em gestação há várias décadas.

A reportagem é de François Huguenin, publicada por La Vie, 13-08-2020. A tradução é de André Langer.

Quinta-feira, 11 de outubro de 1962, 8h30. Uma bela luz outonal inunda a Praça São Pedro, onde uma grande multidão se reuniu para assistir a uma procissão de cerca de 2.500 padres conciliares que se estende por 3 km. Usando mitras e vestindo trajes suntuosos, os bispos estão atrás dos cardeais com batina roxa. A tiara do papa é usada como relíquia, e João XXIII (papa de 1958 a 1963) vem sendo carregado como triunfo na sedia gestatoria, algo entre trono móvel e liteira.

Chegado ao altar, o pontífice desce e se ajoelha no entoar do Veni Creator. A liturgia, fixada em meados do século XVI por São Pio V (1566-1572), mas sobretudo muito antes, revela o seu esplendor. O discurso de João XXIII é proferido em latim, nem sempre bem acompanhado pela assembleia dos padres. Poucos, sem dúvida, conseguem antecipar a tremenda turbulência que animará a Igreja durante os próximos três anos. Alguns acreditam que chegou o momento da reforma, outros esperam o status quo. No dia seguinte à abertura do concílio, o L'Osservatore Romano também considera que o seu principal objetivo é “defender e promover a doutrina”, enquanto o Le Monde faz referências ao acordo entre o papa e os “métodos de pesquisa do pensamento moderno”.

Um ar novo

No entanto, o Vaticano II não surgiu do nada. O fim do pontificado de Pio XI (1922-1939) e o de Pio XII (1939-1958) foram a ocasião para os dois papas, diante da nova realidade dos totalitarismos, abrirem as portas ao reconhecimento da legitimidade da liberdade em questões religiosas. O movimento litúrgico, e em particular as contribuições de Louis Bouyer e de Romano Guardini, insistindo na participação dos fiéis na liturgia e seu prolongamento na vida diária, foi endossado pela encíclica Mediator Dei (1947).

Mais amplamente, o pensamento de John Henry Newman (1801-1890) sobre o desenvolvimento do dogma, o apogeu dos estudos bíblicos, com o Padre Marie-Joseph Lagrange (1855-1938), o diálogo com a ciência, com Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955), a redescoberta ativa dos Padres da Igreja, através da coleção “Sources Chrétiennes” lançada em 1942 pelos jesuítas Jean Daniélou e Henri de Lubac, e a renovação dos estudos teológicos, com Hans Urs von Balthasar ( 1905-1988), Louis Bouyer e Karl Rahner (1904-1984) trouxeram um ar novo ao catolicismo.

Mas o Vaticano II poderia ter matado esse ímpeto pela raiz se João XXIII não tivesse dado aos padres conciliares os meios para trabalhar, discutir e, às vezes, se confrontar. Em 25 de janeiro de 1959, ao anunciar a convocação do concílio, ele havia pronunciado a palavra “aggiornamento”, ainda que se referisse apenas à reforma do direito canônico. Que João XXIII teve desde o início a preocupação de respeitar fielmente a doutrina imutável da Igreja e de apresentá-la de uma forma que atenda às demandas de nosso tempo fica muito claro em seu discurso. O Vaticano II será, portanto, como escreveu o jesuíta Gustave Martelet em N’Oublions pas Vatican II (Não esqueçamos o Vaticano II, Cerf Éditions, 1995), um concílio de “fidelidade aberta e abridora”.

O otimismo da modernidade

A novidade do Vaticano II reside em dois pontos principais que podem ser encontrados em todos os textos do concílio. É, para retomar outra expressão de Martelet, “um concílio que é antes de tudo a favor e não principalmente contra”. “A Igreja já condenou de chega”, disse João XXIII. É também um concílio que avalia o otimismo da modernidade. Confia em que os homens encontrem em si mesmos os recursos necessários para progredir na sua humanidade e caminhar ao encontro da descoberta da verdade. Esses dois pontos são inseparáveis. Em seu discurso inaugural, João XXIII especifica que a Igreja quer ser para todos os homens “uma mãe muito amorosa” e que ela quer reunir na unidade toda a humanidade. Esta meta é incrivelmente ambiciosa, motivo pelo qual o Papa quer um “novo Pentecostes” para a Igreja, uma renovação pelo sopro do Espírito.

O campo conservador, liderado pelo cardeal Alfredo Ottaviani, secretário do Santo Ofício, e cujo lema Semper idem é eloquente, e pelo austero cardeal Giuseppe Siri, arcebispo de Gênova, viu com preocupação um campo renovador se formando em torno do cardeal Agostinho Bea. À frente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos e ex-confessor de Pio XII, Bea não é um modelo de progressista. Mas este homem de profunda interioridade e de grande escuta será decisivo para que os textos mais disputados e contestados pelos conservadores fossem adotados: a declaração sobre a liberdade religiosa, Dignitatis Humanæ, a declaração sobre as relações da Igreja com as religiões não-cristãs, Nostra Ætate, e a constituição sobre a revelação divina, Dei Verbum, não teriam sido adotadas sem ele.

Rigidez litúrgica

No outro campo, aliás em maioria, prelados como o cardeal Joseph Frings, arcebispo de Colônia, ou o cardeal Léon-Joseph Suenens, arcebispo de Malines-Bruxelas, tiveram um papel de liderança no concílio. O primeiro foi assessorado por um jovem teólogo, Joseph Ratzinger, cujos trabalhos sobre a Revelação em São Boaventura, mostrando que se trata menos de conteúdo do que de encontro entre Deus e os homens, inspiraram a Dei Verbum. Uma série de teólogos que representam a nova teologia influencia o concílio, mesmo quando não se encontravam anteriormente com odor de santidade: Henri de Lubac, nomeado consultor da Comissão Teológica Internacional, que inspira a Lumen Gentium, Karl Rahner, que trabalha com Ratzinger em um esquema da Dei Verbum, e o dominicano Yves Congar, especialista onipresente em todas as etapas do concílio.

Todos eles contribuíram para quebrar uma série de barreiras: uma concepção muito estreita da Revelação, uma assimilação teológico-política entre o fato de que só Jesus e a Igreja salvam e a recusa da liberdade religiosa e certa rigidez litúrgica. Em muitos pontos em paralelo, as linhas se moverão: o reforço do papel dos leigos na Igreja, a ênfase na colegialidade em torno do papa, a promoção do diálogo inter-religioso, a afirmação da dignidade absoluta do homem e a escuta das evoluções na sociedade.

Mas de forma alguma a tradição da Igreja é modificada; nada da essência da doutrina é relativizado. O que permitirá a Bento XVI, em conversa com Peter Seewald, reivindicar a visão progressista do jovem Ratzinger: tratava-se de fazer evoluir a Igreja e até de mudá-la um pouco, sem de modo algum tocar no depósito da fé. O que é lembrado em seu discurso de 22 de dezembro de 2005, quando propõe uma “hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade” em face de uma “hermenêutica da descontinuidade”. Isso não satisfaz nem aqueles que não deixaram de recusar o concílio a partir de então, nem aqueles que gostariam de reinventá-lo. No entanto: foi sobre estas bases que a Igreja Católica pôde avançar de forma serena, desde aquele momento em que a sua história se acelerou e se cristalizou.

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