A luta de Jacob. Artigo de Romano Guardini

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18 Julho 2020

Publicamos trechos de textos contidos no livro La lotta di Giacobbe, paradigma della creazione artistica. Un’esperienza comunitaria di formazione integrale su Chiesa, estetica e arte contemporanea ispirata a Romano Guardini (em tradução livre, A luta de Jacó, paradigma da criação artística. Uma experiência comunitária de formação integral sobre a igreja, a estética e a arte contemporânea inspirada em Romano Guardini, com curadoria de Yvonne Dohna Schlobitten e Albert Gerhards, Assis, Cittadella Editrice, 2020, p. 510, euro 29,50).

A página bíblica de Jacó lutando com o anjo, narrada no livro de Gênesis (32, 23-33), gerou ao longo dos séculos miríades de reverberações. Este volume reúne as ressonâncias teóricas, artísticas e pedagógicas de uma experiência de formação integral que desabrochou desse ícone bíblico, envolvendo um grupo de professores, artistas, estudantes e diversas instituições (Pontifícia Universidade Gregoriana, Kunst-Station Sankt Peter Köln, Museus Vaticanos, Museu de Arte Contemporânea de Aachen).

De fato, a luta de Jacó pode ser entendida como um paradigma da criação artística, daquele processo complexo que envolve tanto a reflexão (bíblica, histórica, filosófica, estética, teológica, pedagógica, espiritual) quanto a práxis (pictórica, escultural, pedagógica). O volume reúne mais de trinta contribuições de diferentes âmbitos disciplinares, junto com ilustrações dos projetos dos artistas envolvidos.

Os trechos foram retirados do posfácio do cardeal Romano Guardini, publicado por L'Osservatore Romano, 15-07-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o texto.

O livro do Gênesis conta no trigésimo segundo capítulo: “Naquela noite Jacó levantou-se, tomou suas duas mulheres, suas duas servas e seus onze filhos para atravessar o lugar de passagem do Jaboque. Depois de havê-los feito atravessar o ribeiro, fez passar também tudo o que possuía. E Jacó ficou sozinho. Então veio um homem que se pôs a lutar com ele até o amanhecer. Quando o homem viu que não poderia dominá-lo, tocou na articulação da coxa de Jacó, de forma que lhe deslocou a coxa, enquanto lutavam.

Então o homem disse: "Deixe-me ir, pois o dia já desponta". Mas Jacó lhe respondeu: "Não te deixarei ir, a não ser que me abençoes". O homem lhe perguntou: "Qual é o seu nome? " "Jacó", respondeu ele. Então disse o homem: "Seu nome não será mais Jacó, mas sim Israel, porque você lutou com Deus e com homens e venceu". Prosseguiu Jacó: "Peço-te que digas o teu nome". Mas ele respondeu: "Por que pergunta o meu nome? " E o abençoou ali. Jacó chamou àquele lugar Peniel, pois disse: "Vi a Deus face a face e, todavia, minha vida foi poupada. E o sol nasceu...". (Gênesis, 32, 23-33)

O evento é misterioso. Afunda na memória e permanece impresso nela. Talvez não seja entendido, ou se sinta que está denso da realidade mais sagrada. Ainda refletimos sobre ele e, quando o trazemos à tona, sempre encontramos algo a mais.

Jacó retorna à sua terra natal depois de passar muito tempo no exterior. Lá, ele recebe notícias da chegada de seu irmão Esaú, enganado pela bênção paterna e por seu direito à primogenitura. Jacó tem medo, manda sua família embora ... e permanece ali sozinho à noite. Ele sente que algo vai se aproximando. Então - as Escrituras contam, como contam as antigas sagas, sem passagens intermediárias, com sequências colocadas em contraponto - "um homem lutou com ele até o amanhecer".

"Homem" é aquele ser que frequentemente retorna no Gênesis: o "anjo do Senhor". Dessa forma, alguém entra misteriosamente: às vezes parece ser uma criatura, às vezes parece o próprio Deus e alguns pensam que seja o Filho. Ele encontra Jacó e luta com ele, que de qualquer forma resiste. A luta é maravilhosa: o homem não consegue derrotá-lo, mas basta que ele toque seu quadril e é deslocado. Uma obscura penetração de predomínio e de fraqueza ao mesmo tempo. Jacó sai-se vencedor. A recompensa pela luta é, no entanto, um novo nome e a bênção disso pelo homem. E depois "o sol nasce".

Isso aconteceu com Jacó. Ele era uma daquelas grandes figuras, os homens eram cheios de força terrena e, de qualquer forma, tratavam com Deus. Poderosos na terra, na realidade mais densa e ao mesmo tempo cercados pelo mistério de Deus. Ele era um eleito; a ele é revelado algo que vale para todos nós.

Deus é o Todo-Poderoso; mas não é, como se estivesse limitando seu poder para que pudesse ser superado por nós? Como se Deus quisesse se entregar a nós, abençoar-nos com a plenitude de si mesmo - mas nós deveríamos primeiro superá-lo? Deus se aproxima de nós, mas, como aqueles que lutam, podem combater, como fortes. Tendo que lutar; pois seu acolhimento ocorre em total liberdade, elevando sua interioridade, superando-a e trazendo-a para dentro. Como lutador e vencedor Deus quer o homem, a sua criatura. Ama a sua força, que ele mesmo lhe deu para que ele lute com Deus e com os homens e tenha vitória. Então ele lhe concede se tornar "um" diante de seu criador, alguém nomeado por Deus e que como tal possua Deus.

Deus poderia ter criado os homens como seres que vivem e crescem para que a plenitude de Deus chegue sobre eles como a chuva sobre as flores. Seria um ser grande e puro. As crianças que são levadas antes de atingirem a plena consciência são esses seres. Mas o homem é prescrito para ser livre. Deve acolher Deus como uma "bênção" e na forma do "nome" através da luta. Deus se opõe a nós em tudo. Em todas as coisas que acontecem conosco; em todos os eventos que acontecem; em todos os homens que chegam. Tudo é poderoso e nisso existe Deus. A sua força vem em nossa direção; mas tem a forma de amor, pois vem para ser superada.

Todos os eventos são poderosos e neles chega Deus. Mas ele não se ergue diante de nós como um muro contra o qual se abate toda a força; não atinge como uma violência que predomina e destrói. Pelo contrário, vem na figura do amor, que deseja ser vencido, para que se possa conceder. Pode se conceder somente se for vencido, assim dá a própria força e a chama de volta ... Quão misterioso é que uma criatura deva ser "forte" diante de Deus, que deve haver uma força que reconheça que Deus se levantou contra ela, o Todo-Poderoso! E agora Ele vem para provar essa força, se ela se revele digna de amor e poderosa. A prova do amor é tudo o que acontece. Deus se aproxima de tudo e pede que a força se levante e lute com ele: com o peso da obra, apresentando-a como pura; com a amargura da dor suportando-a bravamente: com a inadequação de homens confiantes vencendo-os com amor; com a resistência dos submissos, dos indiferentes, dos maus, mantendo-se fiéis ... Se a força se revela válida, Deus abençoa, e o novo nome se liberta de seus lábios ...

Também acontece que nós pedimos o nome "de homem”, mas isso não nos diz nada. O que acontece é enigmático como "o anjo do Senhor": pertence ao mundo, é terreno, mas está dentro de Deus. Mas não pode ser claramente distinguido. Continua sendo um mistério.

"No mistério e na alegoria", tudo acontece conosco enquanto ainda estamos em caminho. Então veremos "face a face". Mas fé significa perseverar no mistério da existência. Quantas vezes se deve realmente acreditar no Deus da multiplicidade, da desordem, do abandono do senso de existência; é sempre uma experiência nova, mesmo quando a razão está errada e nos deixa loucos e o coração se cansa. Mas “nos é concedido vencer na luta; passar na prova do amor, para que Deus possa se entregar a nós. E, no entanto, não podemos esperar outra coisa senão que o homem" toque nosso quadril e nos paralise ... Mas isso também acontecerá se "o sol nascer sobre nós ...".

Queremos nos apropriar profundamente da imagem do solitário na noite escura, com a qual "Deus e o homem" lutam e não o podem vencer ... ele é atingido e, no entanto, não sucumbe ... é abençoado e recebe o novo nome, enquanto o sol nasce sobre ele!

Por mais que não possamos entender, isso não deve nos desviar. Vamos tomá-lo não como um capturado, mas como um poderoso. Não como uma frase entendida, mas como um broto que dá frutos. Ao longo de nossas vidas, pensaremos e entenderemos peça por peça. Mover-se-á e libertará a verdade.

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