Críticas a Francisco têm origem em incompreensão do Vaticano II

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15 Dezembro 2016

"Uma liderança religiosa tem realmente a ver com dobrar a história segundo os próprios propósitos?", questiona Michael Sean Winters, colunista do National Catholic Reporter e pesquisador visitante do Instituto para Pesquisa em Políticas Públicas e Estudos Católicos da Universidade Católica da América, em Washington, em artigo publicado por National Catholic Reporter, 12-12-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa

Nota: Esta é a parte 1 de uma série de três artigos que discutem as teologias dos papados do Papa Francisco e do Papa Paulo VI. As partes 2 e 3 intitulam-se, respectivamente, "A grandeza de Paulo VI está na sua condução da Igreja pós-Vaticano II" e
"Papas diferentes, personalidades diferentes – e uma continuidade subjacente"

Eis o artigo.

A presente oposição ao Papa Francisco não tem precedentes. Houve, sim, desacordos na vida da Igreja antes: Como poderia não haver? E, em tempos recentes, vimos até alguns cardeais expressarem decepção ou mesmo desacordo com algumas diretivas vindas de Roma. Por exemplo, o cardeal belga Leo Joseph Suenens não hesitou em expressar sua preocupação sobre a maneira como os primeiros Sínodos dos Bispos após o Concílio Vaticano II foram conduzidos. Mas alegar que uma exortação apostólica não é magisterial? Publicar desafios detalhados ao magistério do papa? Eis aí um território inexplorado.

Creio que a oposição a Francisco tenha origem em um entendimento falho da era pós-conciliar e, mais especificamente, em não compreender onde estamos no processo de recepção do Concílio. Apenas no mês passado Francisco, em entrevista ao jornal italiano Avvenire, observou que se leva cerca de 100 anos para que a recepção de um concílio seja plena – e ele está certo. Algumas pessoas pensavam que um tal processo estivesse completo e que conheciam todos os enigmas da fé católica na era pós-conciliar. Estas pessoas não estão gostando do atual momento já que que suas suposições e algumas de suas conclusões estão sendo desafiadas.

A semana passada marcou o 51º aniversário do encerramento do Vaticano II. Nos últimos quatro anos, marcamos a abertura do Concílio, comemoramos a promulgação de textos conciliares fundamentais, realizamos congressos para explorar o significado dos documentos e o fizemos de maneira adequada, pois o Vaticano II continua sendo o evento mais determinante na vida da Igreja Católica em nossa memória viva.

Neste ano, não temos um grande aniversário a comemorar; estamos simplesmente entrando em mais um ano no processo de recepção do Concílio, aprendendo mais sobre como as doutrinas e os insights articulados nele nos desafiam, como católicos, a aprofundar a nossa fé. Quando chegamos à casa dos 30 ou 50 anos, damos uma grande festa porque estamos diante de um marco. Aos 31 ou 54 anos, estamos apenas ficando mais velhos. Assim é com a Igreja: o 51º aniversário pode não ter fogos de artifício, mas a sensação de crescimento contínuo e normalidade é bem-vinda. Marcos históricos podem distorcer ao concentrarem-se no que então aconteceu. O crescimento contínuo exige que nos concentremos também no que está ocorrendo agora. De todas os modos diferentes de avaliar o pontificado de Francisco, um dos mais importantes é que ele está visitando alguns dos assuntos inacabados do Vaticano II.

Nesta série de três partes, gostaria de examinar como a oposição a Francisco tem origem em uma incompreensão do próprio Concílio e, mais ainda, da significação dos papas que, como Francisco, supervisionaram a sua implementação.

Uma das principais narrativas que Francisco derrubou é a ideia de que São Papa João Paulo II produziu as interpretações finais e definitivas sobre todas as questões-chave que o Concílio abordou. Esta narrativa minimiza o que se passou antes e o que se seguiu ao papa polonês.

O Pe. Lou Cameli, da Arquidiocese de Chicago, que trabalha como delegado do arcebispo para a formação e missão, explicou a narrativa formulada pelos críticos de direita contra o Papa Francisco nos seguintes termos:

Eles traçaram linhas de batalha que são claras porém falsas. Os comentaristas deste campo leem a história conciliar e pós-conciliar como um movimento que vai da clareza, de uma assertividade robusta e de um discipulado exigente para convicções nebulosas, para uma acomodação acrítica com um mundo hostil e para um discipulado superficial culturalmente inspirado. Nessa narrativa, as sementes da fraqueza começaram nas posições ambíguas tomadas por Paulo VI, e ela floresceu hoje em uma versão oca do cristianismo proposto por Francisco.

Entre estes dois pontífices, João Paulo II tentou valentemente reclamar um cristianismo robusto e claro, e Bento XVI buscou uma maior precisão teológica. Mesmo os desenvolvimentos positivos promovidos por João Paulo II e Bento XVI estão ameaçados hoje por uma espécie de liderança populista suave exemplificada por Francisco, que é desprezado e descartado como um peronista eclesiástico.

E Cameli é rápido em acrescentar: “Creio que essa narrativa não está apenas incorreta, mas também é muito injusta”. Diz também achar que essa narrativa está sendo usada para desacreditar o Papa Francisco.

Certamente João Paulo II conseguiu muita coisa no tocante à implementação do Concílio. Mas a ideia de que um pontificado consiga alcançar aquilo que historiadores e teólogos querem dizer por “recepção de um concílio” é uma ideia equivocada. É um equívoco. Quando ouvimos um padre se descrever como um “padre João Paulo II”, ele geralmente está informando que não é fã do papa atual. Um professor que ensinava a seminaristas me disse que se quisesse chamar a atenção dos alunos, era melhor começar com um documento de João Paulo II do que com um texto conciliar ou mesmo um versículo das Escrituras. Sempre que alguém se refere ao falecido pontífice polonês como “João Paulo, o Grande”, meus sinos de alarme disparam. Todos os papas desde o Concílio têm desempenhado um papel em sua recepção, e muitos mais papas, bispos, teólogos e fiéis leigos continuarão a fazê-lo.

De um modo semelhante, alguns querem fazê-lo crer que João Paulo II era, essencialmente, um neoconservador americano, então queremos saber realmente o que é a Igreja Católica, devemos nos inscrever no sítio First Things e ler o National Catholic Register. Especialmente este último tem sido francamente desagradável com o Papa Francisco, em particular o seu correspondente em Roma, Edward Pentin. Eles não só acreditam que João Paulo II proferiu as últimas e definitivas palavras, mas insistem que a interpretação deles do magistério de João Paulo II é a única interpretação válida. Quando o Papa Francisco destaca algo que ignoram, como o ensinamento da Igreja sobre o papel da consciência, eles se tornam bélicos.

O National Catholic Register é de propriedade da EWTN [o maior canal de televisão católico do mundo], e seus comentaristas não titubeiam em desafiar Francisco. Regularmente eles trazem em sua programação alguns críticos do papa, no entanto contam com bispos em anúncios e recebem grandes cheques dos Cavaleiros de Colombo, dando a entender que a oposição não se limita a um meio de comunicação.

Os neoconservadores americanos sempre relutaram ou se mostraram incapazes de refletir sobre até que grau João Paulo II foi influenciado pela “teologia da revist Communio”, que procurou reintegrar o profundo discernimento dos padres da Igreja de que esta é uma comunhão de pessoas, não uma organização quase política, para dentro da teologia contemporânea. Achavam que a distinção entre graça e natureza tinha sido exagerada nos anos intermediários e que a teologia cristã havia perdido o sentimento de admiração que os primeiros cristãos possuíam. Enfatizavam a comunhão de pessoas na Igreja, mais do que a velha articulação da doutrina, e também desconfiavam de certas tendências liberalizantes da Igreja, especificamente a maneira superficial como a teologia e as ciências sociais foram consertadas juntas após o Concílio. Os neoconservadores agarraram-se a teorias do direito natural que não se coadunam facilmente com a teologia de Henri de Lubac e Hans Urs von Balthasar e outros da revista Communio.

No livro “What Happed at Vatican II”, o padre jesuíta John W. O’Malley escreveu sobre o patriarca oriental Máximos IV Saigh, uma voz importante no Vaticano II: “Ele era o mais ousadamente progressista porque era o mais radicalmente conservador. As suas intervenções continuamente invocavam tradições antigas da Igreja para desafiar o status quo, e assim abriam para os padres conciliares um novo leque às escolhas que tinham de fazer”.

O mesmo pode ser dito dos teólogos da comunhão, porém para os neoconservadores qualquer desafio ao status quo tinha de parar bem antes de chegar a qualquer resultado, e também eles não estavam de fato interessados na abertura de um leque de opções. Assim também, não conseguiram compreender o significado real da pegada teológica de João Paulo II.

Além do ensinamento sobre a consciência e a influência da teologia da comunhão, os católicos neoconservadores apresentam uma leitura tendenciosa da doutrina social católica. Argumentam que a encíclica social verdadeiramente importante da era pós-conciliar é a encíclica de João Paulo II de 1991 sobre temas sociais intitulada Centesimus Annus, e chamam a atenção para dois ou três parágrafos do documento que eles realmente gostam. Eles pouco reconhecem a primeira encíclica social de João Paulo II Laborem Exercens, de 1981, e a sua terceira encíclica sobre temas sociais, Sollicitudo Rei Socialis (1987), é negligenciada por completo.

Quando confrontado com a encíclica social do Papa Bento XVI, Caritas in Veritate, George Weigel, membro do Centro de Ética e Política Pública, sugeriu uma leitura do texto com penas vermelhas e douradas para demarcar o que era realmente escrito pelo papa, e que deveríamos acreditar, e o que havia sido apresentado pela burocracia e que poderia ser ignorado. Weigel tinha a certeza de saber quais partes eram estas e quais eram aquelas.

Mais marcante do que a falta de entusiasmo de Weigel para com Bento XVI foi o quanto ele estava disposto a menosprezar o pontificado do Beato Paulo VI a fim de fazer brilhar ainda mais o seu herói João Paulo II. Na biografia de João Paulo II que escreveu, “Testemunho de esperança: a biografia do Papa João Paulo II” (traduzido em Portugal pela ed. Bertrand), ele concordou que o Papa Paulo VI – ou Papa Montini como os italianos estão acostumados a chamar os papas pelos seus sobrenomes – havia compilado “um histórico impressionante”, mas o restante de sua avaliação do papado de Paulo VI é altamente negativo.

“A inteligência de Paulo VI o levava a ver todos os lados de uma questão simultaneamente, e a tensão entre as certezas nas quais ele foi intelectualmente formado e as ambiguidades que aprendeu com a vida e com a leitura generalizada frequentemente o levavam a um poço de incertezas”, escreve Wiegel. Poço de incertezas? Alguns de nós conhecem por vida de adulto esta tensão entre a certeza da fé e a ambiguidade da vida.

Weigel conclui seu tratamento de Montini com estas observações condenatórias:

Num outro momento histórico, ele poderia ter sido um homem que dobrasse a história segundo os seus propósitos. No tempo em que foi papa, ele se tornou uma espécie de pessoa consumida pela história (...) O pontificado de quinze anos de Giovanni Battista Montini suscitou uma pergunta até então impensada. Será que “alguém” – e alguém formado no padrão típico dos papas pós-Reforma – poderia fazer este trabalho nas circunstâncias internas e externas extraordinárias do falecido catolicismo do século XX?

Além dos limites da abordagem do “grande homem de história” que Wiegel obviamente adota, pergunta-se: Uma liderança religiosa tem realmente a ver com dobrar a história segundo os próprios propósitos? E esse “alguém” em destaque sugere que Montini não era alguém apropriado para o trabalho, mas bem sabemos quem Wiegel acha que seria!

Isso não faz sentido. Montini foi um gigante, e é nesse sentido que devo escrever a próxima coluna desta série.

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