Ratzinger, o Vaticano II e aquele verão de 1962

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27 Agosto 2012

Há meio século, o futuro papa estava "sob pressão" por causa de seu papel de consultor teológico em vista do iminente Concílio.

A reportagem é de Gianni Valente, publicada no sítio Vatican Insider, 24-08-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No quieto verão de Castel Gandolfo, Bento XVI concluiu a escrita do seu último livro sobre a vida de Jesus, e dizem que ele está definindo as principais linhas da sua quarta encíclica papal.

Há 50 anos atrás, também, o Joseph Ratzinger de 35 anos – que naquele período lecionava teologia fundamental na Universidade de Bonn – estava lidando com os fascículos para estudar, os rascunhos para corrigir e os textos para preparar.

Naquele época, o que estava o submetendo a dias intensos de excesso de trabalho eram os pedidos provenientes do arcebispo de Colônia, Joseph Frings, que o escolhera como seu consultor teológico em vista do Concílio e pretendia se valer da sua ajuda já nos agitados estágios finais da fase preparatória da cúpula conciliar.

Frings era membro da Comissão Preparatória Central do Concílio, e já nessas vestes se candidatava com os seus discursos e as suas iniciativas ao papel de futuro personagem central do Vaticano II.

Graças a Frings, Ratzinger tivera acesso, ainda na primavera de 1962, aos esquemas dos documentos elaborados pelas comissões preparatórias para serem discutidos e aprovados no Concílio. Entre maio e setembro, como documentam os renomados estudos históricos de Norbert Trippen e do jesuíta Jared Wicks, Ratzinger analisou em nome de Frings boa parte do material produzido pelos órgãos envolvidos na fase preparatória, fazendo julgamentos lúcidos, claros e muitas vezes surpreendentes.

Por exemplo, em uma carta enviada em maio ao padre Hubert Luthe – o secretário de Frings, que havia sido seu colega de estudos na faculdade teológica de Munique –, Ratzinger valorizava com tons entusiasmados principalmente os esquemas produzidos pelo Secretariado para a Unidade dos Cristãos, o órgão que, sob a liderança do cardeal Augustin Bea, iria progressivamente se delineando como interlocutor dialético com relação à Comissão Teológica, presidida pelo secretário do Santo Ofício, Alfredo Ottaviani.

Entre os esquemas assinados por Bea também figuram os esboços primordiais dos futuros decretos conciliares sobre o ecumenismo e sobre a liberdade religiosa. "Se fosse possível orientar o Concílio a ponto de assumir esses textos", escreveu Ratzinger ao secretário de Frings, ainda em maio de 1962, "isso certamente valeria a pena e se alcançaria um verdadeiro progresso. Aqui, realmente se fala a linguagem que é útil ao nosso tempo, que pode ser compreendida também por todos os homens de boa vontade".

No fim de junho, ainda sob o mandato de Frings – que nesses meses tornou-se o porta-voz da crescente insatisfação de amplos setores dos Episcopados europeus pela forma como estava procedendo a fase preparatória do Concílio –, Ratzinger redige até o esboço de uma Constituição Apostólica que defina sinteticamente e com clareza didática os objetivos do Vaticano II antes do seu início: três páginas datilografadas em latim, nas quais o jovem teólogo bávaro começa a partir de uma observação realista das circunstâncias históricas em que o Concílio foi convocado ("a luz divina parece obscurecida, e Nosso Senhor parece ter adormecido em meio à tempestade e às ondas de hoje") e conclui valorizando a atualidade do modelo de anúncio mostrado por São Paulo, que, para dar testemunho de Jesus Cristo, "tornou-se tudo para todos" (1Cor 9, 22).

O discernimento crítico exercido por Ratzinger sobre os textos produzidos na fase preparatória do Concílio atingiu o seu pico em setembro de 1962. A menos de um mês da abertura do Vaticano II, Ratzinger o aplicou diretamente ao primeiro conjunto de sete esquemas elaborados de forma definitiva pelas comissões preparatórias, sob inspiração predominante dos órgãos doutrinais da Cúria Romana.

Em um texto concluído por Ratzinger em meados de setembro – e "redirecionado" com sua própria assinatura e sem maiores acréscimos pelo cardeal Frings ao secretário de Estado, Amleto Cicognani –, as avaliações positivas são reservadas apenas aos dois esquemas sobre a renovação litúrgica e sobre a unidade com as Igrejas do Oriente. Segundo o professor de Bonn, somente tais textos de trabalho "correspondem muito bem ao objetivo do Concílio estabelecido pelo Romano Pontífice".

Se a intenção é "a renovação da vida cristã e a adaptação da disciplina da Igreja às necessidades de hoje", é metodologicamente importante evitar que o Concílio atole desde o seu início "em questões complicadas levantadas pelos teólogos, que as pessoas do nosso tempo não podem aferrar e que acabam as perturbando".

Todos os outros esquemas – especialmente os elaborados pela Comissão Teológica Preparatória, presidida pelo cardeal Ottaviani – são julgados por Ratzinger como "muito escolásticos". Em particular, foi rejeitado o esquema sobre a preservação da pureza do depositum fidei ("é tão carente que, dessa forma, não pode ser proposto ao Concílio"). Com relação ao dedicado às "fontes" da divina Revelação, Ratzinger sugere mudanças substanciais de estrutura e de conteúdo. Enquanto os dedicados à ordem moral cristã, à virgindade, à família e ao casamento são liquidados por ele com argumentos de oportunidade pastoral. Estes, segundo Ratzinger, "sobrecarregam o leitor com a sua excessiva abundância de palavras".

Os textos conciliares – repete o jovem professor de Bonn – "deveriam dar respostas às questões mais urgentes e deveriam fazer isso, dentro do possível, não julgando e condenando, mas sim usando uma linguagem materna, com uma ampla apresentação das riquezas da fé cristã e das suas consolações".

Das contribuições oferecidas ao cardeal Frings já na fase preparatória do Concílio, intui-se que Joseph Ratzinger não chegou ao encontro com o Vaticano II de maneira despreparada. O jovem professor bávaro apareceu bem consciente do que estava em jogo naquele evento eclesial, mesmo antes do seu início. Na sua colaboração com Frings, Ratzinger se predispõe, já desde então, a um armamentário flexível, mas bem perfilado, de propostas e reflexões, que depois darão densidade à sua intensa participação na aventura conciliar.

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