Pode-se contornar “Summorum pontificum”? Uma derrapagem pontifical incontrolada!

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04 Agosto 2020

"Bento XVI queria sinceramente uma reconciliação, em relação à celebração da Eucaristia, pois ela tinha se tornado um lugar de divisão, em vez da comunhão, para a qual fora feita. E foi isso que levou o então Papa a legislar para toda a Igreja católica, autorizando o acesso livre à celebração no antigo rito, com o Motu Próprio Summorum Pontificum de 7 de julho de 2007", escreve Pierre Vignon, presbítero da diocese de Valence, Província de Lyon, em artigo publicado por lenversdudecor.org, 17-07-2020. A tradução é de Benno Brod.

Eis o artigo.

Ninguém pode contestar a boa-fé do cardeal Josef Ratzinger, que foi o Papa Bento XVI de 2005 a 2013, quando ele tentou a reconciliação com os integristas tanto no exterior como no interior da Igreja. Para caracterizar o integrismo, repetimos a palavra de André Frossard (1915-1995) a seu amigo João Paulo II (1920-2005): “Integrista é um homem que faz sempre a vontade de Deus, quer Deus o queira quer não.” É o que de melhor se tem dito sobre o assunto.

Bento XVI queria sinceramente uma reconciliação, em relação à celebração da Eucaristia, pois ela tinha se tornado um lugar de divisão, em vez da comunhão, para a qual fora feita. E foi isso que levou o então Papa a legislar para toda a Igreja católica, autorizando o acesso livre à celebração no antigo rito, com o Motu Próprio Summorum Pontificum[1] de 7 de julho de 2007.

Treze anos depois de sua promulgação e sete anos depois de sua renúncia como Papa, já se tornou evidente, aos olhos de todos, que os integristas aproveitaram essa liberalização, para se imporem na vida da Igreja e continuarem sua propaganda ideológica contra o Concílio Vaticano II (1962-1965)[2]. E essa situação não é mais sustentável.

Em plena França, desde 2007, são escolhidos, para serem nossos bispos, não mais padres fiéis ao espírito do Concílio, mas padres de estilo tradicionalista, que sabem celebrar a missa em latim. Uma vez feitos bispos, eles ordenam padres cujo objetivo parece antes não sujar a barra de sua batina do que se esforçar para acolher seus contemporâneos. Em certos meios da Igreja, a gente às vezes tem a impressão de se encontrar numa assembleia política do clero rigorista dos fins do reinado de Carlos X. Com dezenas de nomeações episcopais desse estilo, nosso episcopado francês está a ponto de se tornar reacionário.

Segundo minhas informações, uma das missões do novo Núncio Apostólico na França, D. Celestino Migliore, seria instaurar uma diferente política de nomeações para bispos. Fazemos votos que o consiga, mesmo que tenhamos que continuar com dúvidas legítimas, enquanto a dupla Ouellet-Aupetit estiver em suas funções.

O cardeal Ouellet é, desde 2010, o prefeito da Congregação para os Bispos, nomeado ainda pelo Papa Bento XVI, e é ele que supervisionou a nomeação dos bispos “tradi-compatíveis” com o cardeal Vingt-Trois. E D. Aupetit é um dos membros da Congregação para os Bispos, onde se tornou um especialista em retribuir favor. Enquanto a questão principal do questionário de pesquisa, sob segredo pontifical, para a escolha dos bispos for a de saber se um padre é capaz de bem celebrar a missa no antigo rito extraordinário mais do que mostrar sua fidelidade incondicional ao Concílio Vaticano II, a França continuará a aprofundar suas rugas de velha filha primogênita da Igreja.

Cheio de esperança e de confiança em Deus, o Papa Francisco continua, apesar de tudo, a reforma profunda que assumiu. Ele acaba de dar ordens à Congregação para a Doutrina da Fé para que envie um questionário sobre a situação criada pelo Motu Próprio Summorum Pontificum. O cardeal suíço Kurt Koch, responsável pelo ecumenismo, declarou recentemente que “em lugar de duas formas diversas, é preciso voltar a uma única forma, como síntese”. Como esse Cardeal está próximo do Papa Francisco, é difícil pensar que sua declaração não tenha sido autorizada.

A questão em destaque, portanto, é saber agora como contornar essa derrapagem do Motu Próprio de Bento XVI, que se tornou incontrolada, antes que ela se torne um gigantesco conflito eclesial.

O pedido e o livro de Andrea Grillo

O professor Andrea Grillo é um leigo, pai de família, teólogo italiano muito respeitado. Ele tem um blog de alto nível “Come se non”, no qual ele publicou, no dia 27 de março último, uma carta sobre o estado de exceção litúrgica, em francês diríamos, antes, estado de urgência, criado com a promulgação do Motu Próprio Summorum Pontificum.

Essa carta recebeu a assinatura de 180 teólogos e pesquisadores reconhecidos no domínio do saber e da erudição litúrgica. Como continuação disso, veio a publicação, no dia 28 de junho, de um livro em formato “epub”, a preço simbólico: Oltre Summorum Pontificum, per una riconciliazione liturgica possibile[3]. A tradução do título e do subtítulo contém todo o espírito do empreendimento: “Para além da Summorum Pontificum, em vista de uma possível reconciliação litúrgica”. Ao contrário das intenções dos que teimam a todo preço em manter o Motu Próprio, as intenções dos autores do livro não são polêmicas. Seu ideal é ajudar a superar o impasse do Motu Próprio, e ajudar a voltar para um caminho positivo para todos.

Com Andrea Grillo, cinco autores de renome oferecem uma contribuição aprofundada sobre o assunto. Seu objetivo é, antes de tudo, ajudar os bispos a responder ao questionário da Congregação para a Doutrina da Fé. Entre esses autores, saudamos a presença do professor de Lovaina, Arnaud Join-Lambert, que significa uma honra para a intelectualidade da França, onde não nos faltam grandes nomes na liturgia, mas nos informaram que estava se fazendo pressão sobre eles para não intervirem. Zeno Carra, que dirige e assina com os outros a publicação, é padre da diocese de Verona. Dois peritos de língua alemã, Martin Klöckener, professor na universidade do cantão suíço de Friburgo, e Benedikt Kranemann, professor na universidade de Erfurt. Enfim, o padre jesuíta John F. Baldovin, professor do Boston College Schooll of Theology and Ministry.

O impasse do Motu Próprio

Fazer um debate sobre um Motu Próprio parece inútil a muitos e estraga a tranquilidade de alguns. Poucos percebem os problemas. Indiferença, preguiça, desconhecimento não podem, porém, bastar, e é preciso responder a argumentos redutores e enganadores. Um deles consiste numa visão errada da legítima diversidade dos ritos na Igreja católica. Há, de fato, uma variedade na unidade para os ritos orientais. E mesmo para a Igreja latina, como tal; é só pensar no rito zairense, por exemplo, ou nas concessões feitas em favor do Caminho Neocatecumenal.

A resposta é simples. A variedade de ritos é totalmente possível na Igreja, sob a condição de que sejam aplicados os mesmos princípios teológicos. Tal variedade não é coextensiva à Igreja universal. Ela concerne às Igrejas particulares ou a porções definidas do Povo de Deus. No caso do Motu Próprio, trata-se de uma justaposição de duas formas do mesmo rito, que se sucederam historicamente e onde um tomou o lugar do outro, após os decretos do Concílio Vaticano II.

As duas formas do rito não repousam sobre as mesmas bases teológicas, e a mais antiga foi substituída pela nova, que traz a autoridade de um concílio ecumênico aprovado pelo Papa. A incompatibilidade dos dois ritos é patente: uma tinha sido feita para um mundo que não existe mais, e a outra foi preparada por décadas de trabalhos teológicos e litúrgicos, para existir num mundo novo. O Papa Pio XII tinha chamado esse movimento de “passagem do Espírito Santo na Igreja”, em 1956[4]. A Igreja não pode viver com uma liturgia que faz com que dois períodos de tempo se interpenetrem.

A forma extraordinária aprovada pela Summorum Pontificum é exatamente a forma da liturgia romana que o Concílio Vaticano II considerou como devendo receber uma absoluta renovação, definindo os princípios que dali em diante deviam ser tomados em consideração. Esses princípios são escamoteados por aquilo que foi fraudulentamente chamado de “reforma da reforma”. A razão profunda é que as duas formas repousam sobre uma eclesiologia diferente. O rito pré-Vaticano II sublinha o papel do sacerdote ordenado, com exclusão do sacerdócio batismal comum. Um repousa sobre a distinção Igreja que ensina - Igreja que é ensinada, e a outra sobre a riqueza da Igreja Povo de Deus, Corpo de Cristo e Templo do Espírito. Num caso, tudo repousa sobre o padre; no outro, o padre está a serviço do conjunto da comunidade que ora. Como já Dom Lambert Beauduin (1873-1960) insistia, a liturgia é o culto de toda a Igreja; é uma ação comum de todos os fiéis e não somente ação do padre.

É por aí que se mede o sofisma de Summorum Pontificum, que pretende que as liturgias pós-Vaticano II representem o mesmo rito sob duas formas diferentes. A intenção de reconciliação não pode justificar tudo. Dois períodos contraditórios não podem coexistir como duas manifestações do mesmo rito. Ainda mais que essa situação cria estranhas misturas, muitas vezes alarmantes.

Os documentos legítimos e oficiais do Concílio e os que foram promulgados depois dele pelos predecessores de Bento XVI ficam voluntariamente frustrados. A responsabilidade da liturgia não é mais da Congregação para o Culto Divino, nem da Congregação dos Bispos, mas fica restringida a uma simples seção da Congregação para a Doutrina da Fé (A Comissão Ecclesia Dei, coordenada por responsáveis demasiadamente insistentes, teve que ser suprimida).

Todo padre que se tornou adepto do individualismo consumista, numa liturgia que não lhe pertence, pode, por sua própria autoridade, decidir empregar a forma extraordinária sem que ninguém possa intervir. Assiste-se a um estranho ajeitamento entre as formas; por exemplo, a integração recente de santos canonizados depois de 1962 no calendário do rito de antes de 1962. O Motu Próprio Summorum Pontificum permite a um padre de mentalidade integrista impor isso à sua paróquia.

É difícil afirmar que o objetivo é a reconciliação, quando se obtém uma divisão tão manifesta na Igreja. Eu penso na ordenação de um novo bispo segundo o antigo rito. Por minha parte, ainda que eu seja calvo, apelarei ao Motu Próprio de 1972 do falecido Papa São Paulo VI (os partidários do rito antigo não gostam deste Papa), que suprimia a tonsura para recusar celebrar segundo a forma extraordinária. Não tendo recebido a tonsura, e não usando o barrete, eu não estou, em princípio, em dia com todas as exigências de uma celebração arqueológica.

Somente os que ignoram a violência dos objetivos dos integristas e tradicionalistas em relação à “sua” liturgia, podem me acusar de intolerante. Como o diz tão bem o professor Join-Lambert, uma Igreja onde a violência se expressa ao redor da Eucaristia é uma Igreja em grande perigo, que precisa reagir. Se o desejo deles se limitasse à simples celebração da missa assim chamada de São Pio V, não haveria fundamentalmente dificuldade em conceder isso a eles no quadro de pequenos grupos.

Mas as motivações desses lobbys são de fato político-religiosas. Para a maior parte, essa concessão não é senão o primeiro passo para uma volta à ordem antiga como eles a concebem. Para eles, Summorum Pontificum é um direito adquirido, e a intenção deles é continuar até conquistarem a liderança na Igreja. Esse Motu Próprio permitiu a esses ativistas se organizarem em trincheiras para refundar “cristandades em miniatura”, paralelas à Igreja oficial. Vamos ser claros! O Motu Próprio Summorum Pontificum lhes permite a criação de uma Igreja dentro da Igreja, com a pretensão de encarnar a única catolicidade.

Agora que temos o rito conciliar, sem comparação mais rico biblicamente, liturgicamente e espiritualmente do que o rito antigo, eles o acusam, falsamente, da mesma pobreza que tinha levado à sua reforma pelo Concílio. A tentativa irênica de reconciliação terminou metendo dois ritos e, portanto, duas formas de Igreja, em concorrência. O que Bento XVI não queria aconteceu. Em lugar de paz, seu Motu Próprio alimentou a divisão e a rebelião. Encontramo-nos numa rua sem saída. É preciso voltar ao Concílio Vaticano II, pois a Igreja não pode renunciar ao caminho no qual ela reconheceu que era guiada pelo Espírito Santo.

Retornar ao projeto do Concílio Vaticano II

Para evitar de entrar numa perspectiva cismática e para ir ao encontro de uma verdadeira reconciliação, seria bom superar a oposição monolítica entre vetus ordo e ordo novus. A lógica, interna aos dois, é mais profunda. Aceitar o Concílio Vaticano II como um dado básico se impõe. O objetivo espiritual essencial do Concílio é, e foi, fazer passar os fiéis de uma celebração litúrgica onde eles se encontravam como espectadores diante do único ator que era o padre, para entrar numa ação comum da Igreja na qual eles participam como sujeitos batizados.

Uma das propostas essenciais do Vaticano II é a “actuosa participatio”, a participação litúrgica “consciente, ativa e frutuosa” (Constituição sobre a Santa Liturgia SC, n. 11). Participar não é assistir. Isso muda tudo. A gente não pode assistir como “estranhos ou espectadores mudos” (SC 48). Eximir-se dessa perspectiva não é mais aceitável.

Se a liturgia foi renovada pelos Padres conciliares, foi para que, de agora em diante, ela se alimente de modo mais abundante da Sagrada Escritura. A antiga liturgia é pobre demais sob esse ponto de vista. Aliás, é curioso que o Motu Próprio Summorum Pontificum tenha retornado ao antigo lecionário para a forma extraordinária. A introdução da língua de cada país se impunha para uma autêntica celebração por todo o Povo de Deus. O enriquecimento haurido na grande tradição das preces para a reforma litúrgica é considerável. O missal promulgado pelo Papa São Paulo VI é de uma profundidade muito grande.

É preciso dizer e repetir que o Papa São João XXIII não tinha promulgado o missal de 1962 senão de modo provisório, esperando que o Concílio se pronunciasse sobre os princípios constitutivos da reforma litúrgica da Igreja. Não é por nada que a Sacrosanctum Concilium é uma Constituição! A participação de que fala diz respeito a todos (SC 30):

“Para promover uma participação ativa, trate-se de incentivar as aclamações do povo, as respostas, as salmodias, as antífonas e os cânticos, bem como as ações, os gestos e o porte do corpo. A seu tempo, seja também guardado o sagrado silêncio.”

O fundamento da reforma é o sacerdócio batismal comum dos fiéis (Lumen Gentium 10), o que o antigo rito não inclui. E o batismo, tomado como fundamento, permite a celebração do Mistério Pascal, posto no centro da fé cristã. O Mistério Pascal, a participação plena e ativa de todos os batizados, o caráter comunitário da liturgia e o acento posto sobre o conjunto das Sagradas Escrituras: eis a riqueza que a reforma da liturgia nos trouxe.

Como renunciar a essas contribuições? Como recusar esse esclarecimento teológico profundo que, por sua vez, possibilita um encontro mais profundo com Deus e com a cultura dos povos? Como recusar que cada Igreja local assuma essa responsabilidade? Considerando toda a História da Igreja, essa reforma é a mais profunda que jamais foi feita. Não podemos e não devemos voltar atrás, nem passar por cima, como se ela não existisse.

Contrariamente ao discurso conspirador dos partidários dessa forma extraordinária, os atores principais do Movimento Litúrgico, que, durante cento e cinquenta anos preparou os trabalhos do Concílio e a implementação de suas decisões, não tinham a intenção de quebrar tudo para simplesmente inventar outros ritos. Tratava-se de uma evolução bem pensada, para chegar à reforma, progresso e adaptação da Sagrada Liturgia” (SC 24).

Ninguém previa a continuação das antigas formas, ao lado do que intensamente estava sendo refletido e rezado. É mentira dizer que o Concílio Vaticano II foi o início de uma crise que se manifesta na liturgia católica. A verdade é que esse mesmo Concílio foi a reconciliação desejada pelo Papa e pelos bispos para resolver a crise que vinha desde o início do século XIX. O Cardeal Camillo Ruini usou esta palavra profética em 2007: “Esperamos que um gesto de reconciliação não se torne um princípio de divisão.”

“Ordinaria extraordinarie”

E eis a divisão: ela está aí. Então, o que fazer agora? Talvez possamos nos inspirar neste leitmotiv da tradição espiritual: “Ordinaria extraordinarie”: fazer extraordinariamente bem as coisas ordinárias! O que aplicamos à vida espiritual diária pode servir também na crise litúrgica que vivemos.

Voltar atrás é impossível. Fazer que continuem a existir, lado a lado, essas duas formas contraditórias na mesma liturgia, é igualmente impossível. Tentar uma síntese entre as duas não é desejável. Criaríamos uma nova quimera, uma daquelas gárgulas, aquelas goteiras grotescas, que ficam bem no exterior das catedrais, mas não no interior. Para sermos justos para com os tradicionalistas, é preciso conceder-lhes que os defensores da reforma litúrgica muitas vezes têm exagerado em suas maneiras de agir. Têm sido raros na Igreja, desde cinquenta anos para cá, aqueles que se contentaram de andar pelo caminho da fé: muitos entraram no valo da esquerda, para atirar sobre os que estavam no valo da direita, e vice-versa. É impossível saber quem começou. E não serviria para nada querer descobrir quem foi.

Seria bem mais indicado sempre voltar ao caminho mostrado pacientemente pelo Espírito Santo. Também sempre é possível melhorar as práticas do novus ordo; como também é possível conservar e voltar a usar práticas do vetus ordo que não estão em contraindicação com a reforma que o Concílio quis.

Por minha parte, não fui nunca contra o uso do latim nem do canto gregoriano quando se trata de obras de arte. Quem é que se pode declarar contra o Veni Creator ou a Salve Regina? Seria uma estupidez, por parte daquela ou daquele que o fizesse! O viés cerebral de que às vezes se acusa o novus ordo poderia ser totalmente corrigido por práticas do vetus ordo, levando mais em conta o corpo humano.

Vamos mais longe. Um clero mais formado no espírito da liturgia poderia promover um acompanhamento pastoral e uma formação litúrgica para o Povo de Deus. Quem poderia ser contra uma celebração que cuidasse mais da qualidade, com mais silêncio e melhor estética litúrgica? Será que estamos tão seguros de executar autenticamente a reforma litúrgica querida pelo Concílio Vaticano II? Será que não cedemos demasiadamente à facilidade, e mesmo à mediocridade? Não poderíamos consagrar mais energia e mais tempo para ajudar as paróquias a chegar à participação plena, consciente e ativa?

Os padres e os bispos (tenho vergonha de dizê-lo, mas os bispos celebram muitas vezes pior que seus padres) não poderiam se formar melhor para a arte da boa celebração? Não teríamos aí um progresso para superar o clericalismo, recusando a nos considerar proprietários da liturgia? Se o fizermos, não estranhemos se desencorajamos os fiéis aos quais mais a devemos, pois uma bela e digna liturgia é um de seus direitos! Não somos nós os primeiros que erramos, por termos levado cristãos a rejeitar o que lhes apresentamos do Concílio? Não poderíamos, nos seminários, perante jovens que às vezes se identificam com um meio social em que vivem, formá-los de tal maneira que eles não tenham a impressão de que a tradição se encontra no vetus ordo, quando o contrário é a verdade?

O objetivo do Concílio Vaticano II era contribuir para o incremento da fé. Voltar atrás seria ir contra esse desenvolvimento, esse enriquecimento e esse reforço da fé viva. A mudança de mentalidade é importante demais para voltar atrás. A verdadeira tarefa hoje é, portanto, tornar os estímulos teológicos e espirituais do Concílio compreensíveis para o presente e úteis à fé e à vida dos cristãos.

Vimos que as duas eclesiologias que estão na base da forma ordinária e da forma extraordinária não podem se fundir numa só. O futuro da Igreja e da liturgia não consiste, como vimos, num movimento para trás, mas no desenvolvimento continuado das celebrações, renovadas pelo Concílio. A caridade pastoral deveria permitir a evolução, sem favorecer um desenvolvimento identitário e comunitarista. A liturgia da Igreja só pode ser a expressão de uma comunhão e não expressão de desunião. E isso coloca a questão de saber até onde ir. Querer praticar uma caridade excessiva, acolhendo, para além do razoável, aqueles que não querem aceitar o Concílio Vaticano II, não periga ser uma traição à verdadeira missão recebida de Cristo? Os apóstolos, e seus sucessores, os bispos, teriam sido enviados por Cristo para serem gentis com todo mundo? Não seria mais inteligente, e mais verdadeiro, se a conservação da celebração no antigo rito assumisse uma contestação teológica do Concílio, com a coragem franca de assumir a não-reconciliação? Quando a Eucaristia não faz mais a Igreja, por que querer a todo custo fazer crer que ela existe quando na realidade está morta?

Concluir sobre um assunto quente

No fim desta longa recensão sobre um assunto de tão grande importância, retenhamos o que os autores propõem. Qual deveria ser finalmente a solução que não fosse nem a coexistência paralela (duas formas de liturgia) nem a reforma da reforma?

1) A reconciliação litúrgica não pode acontecer contra o Concílio ou ao lado dele. Não pode haver senão uma só forma em vigor do rito romano, a saber, a que nos vem da reforma litúrgica querida pelo Concílio Vaticano II.

2) Seria bom inspirar-se na Sacramentum Caritatis nº 40 de Bento XVI, de 22 de fevereiro de 2007: “Para uma correta ars celebrandi, é importante estar atento a todas as formas de linguagem previstas para a liturgia: palavra e canto, gestos e silêncios, movimentos do corpo, cores litúrgicas dos paramentos. Com efeito, a liturgia possui, consoante com sua natureza, uma variedade de registros de comunicação, que lhe permitem chegar a integrar todo ser humano.”

3) Restituir a gestão da liturgia aos bispos e à Congregação para o Culto Divino.

Encontramo-nos diante de uma nova recepção do Concílio Vaticano II, para que os ritos e preces garantam ao corpo eclesial uma compreensão litúrgica do mistério de Cristo e da Igreja. Deixemos a Andrea Grillo a palavra de conclusão: “Fazer de uma grave crise uma oportunidade é o sentido mais autêntico do que chamamos de tradição.”

Notas:

[1] Motu Próprio de Bento XVI, de 7 de julho de 2007, que introduzia, ao lado da forma ordinária da liturgia, determinada pelo Concílio Vaticano II, a forma extraordinária da liturgia, determinada pelo Concílio de Trento.

[2] Veja-se o ataque frontal de Mons. Carlo-Maria Viganò, ex-Núncio nos Estados Unidos, contra o Concílio Vaticano II, considerando esse Concílio como a raiz de todos os males da Igreja.

[3] Pode-se consegui-lo aqui e ver o artigo de apresentação aqui.

[4] “O Movimento Litúrgico é como um sinal da Divina Providência para o nosso tempo; ele foi uma intervenção do Espírito Santo na Igreja, para proporcionar aos homens um acesso maior às riquezas da graça, que vêm da participação ativa dos fiéis na vida litúrgica.” Pio XII, Carta ao Congresso de Assis (1956).

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