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25 Outubro 2017

“Neste artigo, analiso três paradigmas missionários contemporâneos bem com um quarto possível paradigma iniciado por meio das ações e discursos do Papa Francisco. Discuto também algumas opiniões relativas à compatibilidade possível entre estes paradigmas a fim de avaliar toda possibilidade de uma missão cristã”, escreve Arnaud Join-Lambert, professor de teologia da Universidade Católica de Lovaina, na Bélgica, em artigo publicado, originalmente, na revista Études, dos jesuítas franceses, setembro de 2017, e reproduzida por La Croix International, 23-10-2017. A tradução é de Isaque Gomes Correa.


Eis o artigo.

Em uma sociedade líquida, a proclamação do Evangelho assume várias formas. Os paradigmas recentes (pós-Vaticano II) não estão necessariamente obsoletos. O Papa Francisco parece ter a sua própria concepção de missão da Igreja.

Estes paradigmas diferentes são incompatíveis? O que seria preciso para torná-los complementares?

A metáfora da liquidez proposta por Zygmunt Bauman (1925-2017) vem aos poucos sendo adotada como um dos modos mais evocativos para explicar a desestruturação e perda institucional da legitimidade e o subsequente triunfo do indivíduo. [1]

Cada grupo, estruturado ou não, é forçado a se transformar a fim de lidar com as transformações. Na metáfora de Bauman, isto envolve um processo de mudança do estado sólido para um estado líquido. Em 2015, perguntei-me sobre o que este processo poderia significar para a Igreja Católica. [2]

As muitas e variadas reações a esta ideia de uma Igreja “líquida” abriram diversas áreas de reflexão nas dioceses, nos movimentos, nos serviços comunitários e nas comunidades na França, no Quebec e na Bélgica, tanto na Igreja Católica como na Igreja Protestante Unida da França.

Uma questão que surgiu repetidas vezes a partir desta proliferação inesperada: O que devemos fazer para continuar vivendo enquanto Igreja e proclamando o Evangelho hoje? Como podemos empreender uma ação que reflita o mandamento de Jesus a seus discípulos: “Portanto, vão e façam com que todos os povos se torem meus discípulos”? Em outras palavras, existe um tipo particular de missão adequado a uma Igreja líquida em um contexto de modernidade líquida?

A questão fundamental não é tanto como a Igreja deveria estar estruturada, mas como ela deveria implementar a sua missão. A noção do “paradigma missionário” [3], desenvolvida pelo missiologista sul-africano David Bosch (1929-1992), tem sido amplamente discutida como um modo particular de conceber a missão da Igreja e reconhecer que ela é modelada pelo contexto. Vários paradigmas podem coexistir em um único contexto, dependendo das escolhas dos líderes, de modo destacado as suas escolhas teológicas.

Neste artigo, analiso três paradigmas missionários contemporâneos bem com um quarto possível paradigma iniciado por meio das ações e discursos do Papa Francisco. Discuto também algumas opiniões relativas à compatibilidade possível entre estes paradigmas a fim de avaliar toda possibilidade de uma missão cristã.

Três novos paradigmas missionários identificados na Europa ocidental

Sob o risco de uma simplificação excessiva, proponho identificar três novos modos de proclamação do Evangelho, hoje, que receberam pelo menos algum tipo de fundamentação teórica: a nova evangelização, a proposta da fé e o cuidado pastoral gerativo.

Descartei duas “velhas” opções: primeiro, a tentativa, presente nos círculos católicos tradicionais e tradicionalistas, de manter – a todo custo – aquilo que existiu por séculos no cristianismo, um modo de agir caracterizado por uma dinâmica de restaurar as coisas ao modo como certa vez foram.

Esta atitude, combinando uma retirada com uma negação nostálgica, parece bem distante do estilo de Jesus Cristo expresso nos Evangelhos e abandona o chamado à missão por todos em direção a todos. A outra opção, mais espiritual, pode ser resumida com a noção de enfouissement (um ministério pastoral “invisível” que consiste em partilhar as condições de vida de pessoas comuns).

Esta abordagem alcançou o seu auge nos anos de 1950 e 1970 e ainda é a experiência missionária escolhida por algumas comunidades religiosas e por alguns cristãos, mas, diferentemente dos três outros paradigmas selecionados, este se mostrou difícil de ser teorizado.

“Nova Evangelização” é uma noção que de repente se tornou proeminente na Igreja Católica a partir de 1983, com as exortações do Papa João Paulo II. Ela expressa a necessidade de empreender, uma vez mais, um processo de evangelização que certa vez se supôs ter tido sucesso em alcançar o seu objetivo em países plenamente cristãos.

Além disso, o papa insistiu na importância da renovação interior como um pré-requisito para a evangelização dos não fiéis. A noção de nova evangelização é suficientemente ampla para incluir tanto uma inovação radical quanto o emprego de métodos missionários tradicionais. [4] Ela foi acolhida principalmente pelos movimentos, especialmente em comunidades novas, indicando, de modo implícito, a dificuldade que era para as paróquias comuns abandonar o seu modo seguro e, portanto, “sólido” de operar a fim de proclamar o Evangelho.

Esta dificuldade foi ecoada nas palavras do Papa Francisco em 2013: “A pastoral em chave missionária exige o abandono deste cômodo critério pastoral: ‘fez-se sempre assim’. Convido todos a serem ousados e criativos nesta tarefa de repensar os objetivos, as estruturas, o estilo e os métodos evangelizadores das respectivas comunidades”. [5]

Ir ao encontro dos outros” é essencial para a dinâmica das práticas missionárias que expressam o processo da nova evangelização. Isso significa encontrar os recursos e métodos para entrar em comunicação com aqueles que estão bem distantes da Igreja, que podem ou não ser católicos ou até mesmo fiéis.

O objetivo derradeiro é ajudá-los a entrar (ou retornar) para a Igreja, concebida como uma comunidade de salvação. [6] As dúvidas levantadas sobre este paradigma missionário normalmente pertencem à forma como a emoção se combina com a reflexão, os seus pontos altos e a incorporação duradoura numa comunidade, os seus grupos claramente identificados e a abertura às diferenças, incluindo aquelas dentro da própria Igreja.

O segundo paradigma missionário é uma abordagem desenvolvida ao longo de vários anos de consulta e reflexão sob a direção de D. Claude Dagens, que os bispos franceses adotaram sob o nome de “a proposta da fé”. A Carta aos Católicos Franceses, escrita por eles em 1996, era o resultado bem-sucedido deste processo, refletindo as inquietações pastorais dos bispos na esteira da década de 1980 e apresentando um quadro prospectivo para a proclamação do Evangelho num contexto que não mais era cristão. [7]

Os bispos franceses tomaram a frente neste trabalho pioneiro, que desde então foi seguido por quase todos os episcopados da Europa ocidental. É um convite para “redescobrir o gesto inicial da evangelização: simples e resolutamente propor o Evangelho”.

Para isso, deve-se primeiro ir diretamente ao núcleo da fé da pessoa e se engajar num esforço de discernimento. Concretamente, a diferença principal entre esta abordagem e a nova evangelização reside nas circunstâncias nas quais a fé é proclamada, a saber, na prática ordinária da Igreja, em especial nas muitas oportunidades pastorais que podem surgir quando as pessoas bem distantes da comunidade vêm com uma solicitação, independentemente da motivação que tenham.

Não significa mais “receber”, e sim “ir ao encontro”. Não existe um método específico. A ênfase é posta sobre a relação forjada naquele momento, tornando a proclamação do evangelho parte de um processo, ao invés de um evento. Os bispos também insistem na relevância social da proposta da fé. O Evangelho ajuda a melhorar a maneira como as pessoas vivem juntas em nossa sociedade diversa emergente.

O terceiro paradigma missionário é o “cuidado pastoral gerativo”. Ele combina observações práticas e testemunhos de atores no campo com pensamento teológico. [8] Uma convicção comum emana destas práticas e fomenta a reflexão: “O Evangelho está a trabalho nas consciências, hoje, como estava nas consciências do passado”.

A fé é vista como uma semente já implantada nos outros ao invés de algo a ser transmitido. A obra missionária não é mais transmissão assimétrica de alguém que tem a fé e sabe para alguém que nada sabe. O foco está na qualidade da relação que se desenvolve em um encontro no qual cada parceiro contribui com alguma coisa.

A noção de hospitalidade pode muito bem descrever o que está em jogo neste paradigma missionário. A riqueza do termo transmite o fato de que cada um de nós é o anfitrião do outro, com o Próprio Cristo se tornando o anfitrião que foi durante séculos.

A Bíblia recebida como a Palavra de Deus é o recurso fundamental deste paradigma. O cuidado pastoral gerativo acontece nos pequenos grupos que estão próximos uns dos outros social e/ou geograficamente.

Um quarto paradigma missionário iniciado pelo Papa Francisco?

Quando o Papa Bento XVI adotou a expressão “Nova Evangelização”, a qual então já havia se tornado indispensável, ele a adaptou para compensar o que às vezes era bastante vago e não considerava onde o Evangelho deveria ser proclamado.

Paradoxalmente, a sua versão do paradigma missionário iria se mostrar mais assertivo e mais dialógico do que o de João Paulo II. Buscando ligar os meios do trabalho missionário a seu fim, o papa alemão usou a imagem de uma praça (o “Pátio dos Gentios”). [9] Embora esta variante da nova evangelização localizava-se “do lado de fora” e dirigia-se “aos que estão fora”, ela também buscava trazê-los para dentro.

Este “pátio” não é outra coisa senão um lugar de transição sem nenhum propósito inerente. O movimento é fundamentalmente o mesmo que o da nova evangelização original.

O seu sucessor argentino mudou isto impondo uma dinâmica do “ir ao encontro”, que não visa essencialmente o retornar para dentro. Por si só isso já justifica a sua descrição como um quarto paradigma missionário.

As palavras proferidas pelo Cardeal Jorge Mario Bergoglio no conclave de 2013 são diretas: “A Igreja está chamada a sair de si mesma e ir às periferias, não só às geográficas, mas também às periferias existenciais: as do mistério do pecado, da dor, da injustiça, da ignorância e prescindência religiosa, do pensamento, de toda miséria.”. [10]

Desde que se elegeu, o Papa Francisco vem se engajando na implementação deste programa, que envolve uma mudança fundamental de atitude, em lugar de receitas concretas. Ele raramente usa a expressão “nova evangelização” hoje, e quando o faz é, sobretudo, para indicar continuidade com os seus antecessores (por exemplo em Evangelii Gaudium, n. 11).

Na realidade, Francisco claramente prefere empregar o vocabulário missionário, e faz referências frequentes ao Papa Paulo VI. Fala de uma conversão pastoral e missionária, que não pode permitir que as coisas permaneçam como estão. [11] O propósito da missão é, agora, “o outro” para si mesmo.

O papa nos convida a entrar no diálogo, mostrando o grande valor que o outro tem a nossos olhos e aos olhos de Deus. Chamamos este paradigma de “Igreja em saída”, expressão usada repetidas vezes pelo Papa Francisco. [12] Proponho chamar o seu objetivo de a formação de uma comunidade humana de salvação.

Notas:

[1] BAUMAN, Z. L’amour liquide. De la fragilité des liens entre les hommes, Rouergue-Chambon. 2004; La vie liquide, Le Rouergue – Chambon, 2006; Le présentliquide. Peurs sociales et obsessions sécuritaires, Seuil, 2007.

[2] JOIN-LAMBERT, A. “Vers une Église ‘liquide’”, Études, n. 4213, fev. 2015, p. 67-78.

[3] BOSCH, D. Dynamique de la mission chrétienne. Histoire et avenir des modèles missionnaires. Karthala, “Chrétiens en liberté”, 1995, nova edição 2009.

[4] Cf. o estudo iluminador de Jean Rigal. “La nouvelle évangélisation. Comprendre cette nouvelle approche. Les questions qu'elle suscite”. Nouvelle Revue théologique, n. 127, 2005, p. 436-454.

[5] Papa Francisco, Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, 2013, n. 33.

[6] Exemplos desta abordagem seriam as Experiências Alpha locais, as missões urbanas da Comunidade Emanuel para atender necessidades locais específicas e as Jornadas Mundiais da Juventude para eventos de grande escala.

[7] Les évêques de France, Proposer la toi dans la société actuelle. Lettre aux catholiques de France. Cerf. 1996.

[8] BACQ, Philippe; THEOBALD, Christoph (org.). Une nouvelle chance pour l’Évangile: vers une pastorale d’engendrement. Lumen vitæ – Novalis – L’Atelier. “Théologies pratiques”, 2004, p. 5. Cf. também dos mesmos autores: Passeurs d’Évangile. Autour d’une pastoral d’engendrement, Lumen vitæ – Novalis – L’Atelier. “Théologies pratiques”, 2006.

[9] Cf. Laurent Mazas. Études, n. 41.84, abr. 2013, p. 497-507.

[10] Bergoglio, J. M [Papa Francisco], Discurso no Conclave de 2013, reconstruído por ele baseado em suas próprias notas e publicadas, por exemplo, no sítio eletrônico Zénith.

[11] Papa Francisco. Evangelii Gaudium, n. 25.

[12] Por exemplo, em seu discurso aos participantes na assembleia plenária do Pontifício Conselho para os Leigos (17-06-2016): “Gostaria de vos propor como horizonte de referência para o vosso futuro imediato, um binómio que se poderia formular assim: ‘Igreja em saída – laicado em saída’”.

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