''A minha vida com o santo Wojtyla''. Entrevista com Joseph Ratzinger

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08 Março 2014

Publicamos aqui um trecho da entrevista de Wlodzimierz Redzioch com Bento XVI, que faz parte do livro Accanto a Giovanni Paolo II. Gli amici & i collaboratori raccontano [Ao lado de João Paulo II. Os amigos e os colaboradores contam], recém-publicado pela editora Ares.

O texto foi publicado no jornal Corriere della Sera, 07-03-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Santidade, os nomes de Karol Wojtyla e Joseph Ratzinger estão ligados de várias formas ao Concílio Vaticano II. Vocês se conheceram já durante o Concílio?

O primeiro encontro consciente entre mim e o cardeal Wojtyla ocorreu somente no conclave em que João Paulo I foi eleito. Durante o Concílio, ambos tínhamos colaborado na Constituição sobre a Igreja no mundo contemporâneo, mas em seções diferentes, de modo que não nos encontráramos. [...]

Naturalmente, eu tinha ouvido falar da sua obra de filósofo e de pastor, e há muito tempo queria conhecê-lo. Wojtyla, por sua parte, tinha lido a minha Introdução ao Cristianismo, que ele também tinha citado nos Exercícios Espirituais por ele pregados para Paulo VI e à Cúria na Quaresma de 1976. Por isso, é como se interiormente ambos esperássemos nos encontrar. Desde o início, senti uma grande veneração e uma cordial simpatia pelo metropolita de Cracóvia. No pré-conclave de 1978, ele analisou para nós, de modo impressionante, a natureza do marxismo. Mas, acima de tudo, eu logo percebi com força o fascínio humano que ele emanava e percebi, da forma como ele pregava, como ele era profundamente unido a Deus.

O que o senhor sentiu quando o Santo Padre João Paulo II o chamou para lhe confiar a liderança da Congregação para a Doutrina da Fé?

João Paulo II me chamou em 1979 para me nomear prefeito da Congregação para a Educação Católica. Haviam passado apenas dois anos desde a minha consagração episcopal em Munique [...]. Portanto, eu pedi que o papa postergasse essa nomeação [...]. Foi durante 1980 que ele me disse que queria me nomear, no fim de 1981, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé como sucessor do cardeal Seper. Como eu continuava me sentindo na obrigação para com a minha diocese de origem, para a aceitação do cargo, eu me permiti pôr uma condição, que, no entanto, eu considerava irrealizável. Eu disse que sentia o dever de continuar publicando trabalhos teológicos. Eu só poderia responder afirmativamente se isso fosse compatível com a tarefa de prefeito.

O papa, que sempre foi muito benévolo e compreensivo comigo, me disse que se informaria sobre tal questão para ter uma ideia. Posteriormente, quando eu lhe visitei, ele me explicou que publicações teológicas são compatíveis com o ofício de prefeito. O cardeal Garrone, disse, também havia publicado trabalhos teológicos quando era prefeito da Congregação para a Educação Católica. Assim, eu aceitei o cargo, bem consciente da gravidade da tarefa, mas sabendo também que a obediência ao papa agora exigia um "sim" de mim.

Quais foram os desafios doutrinais que vocês enfrentaram juntos durante o seu mandato na Congregação para a Doutrina da Fé?

O primeiro grande desafio que enfrentamos foi a Teologia da Libertação que estava se difundindo na América Latina. Tanto na Europa quanto na América do Norte era opinião comum que se tratava de um apoio aos pobres e, portanto, de uma causa que certamente devia ser aprovada. Mas era um erro. A pobreza e os pobres, sem dúvida, eram postos como tema da Teologia da Libertação, mas em uma perspectiva muito específica. [...] Não era uma questão de ajudas e de reformas, dizia-se, mas sim do grande levante do qual devia surgir um novo mundo. A fé cristã era usada como motor para esse movimento revolucionário, transformando-a, assim, em uma força de tipo político. [...]

Naturalmente, essas ideias se apresentavam com diferentes variações e nem sempre se assomavam com absoluta clareza, mas, no conjunto, essa era a direção. A tal falsificação da fé cristã, era preciso se opor também justamente por amor aos pobres e em prol do serviço que lhes deve ser prestado. Com base nas experiências feitas na sua pátria polonesa, o Papa João Paulo II nos forneceu as elucidações essenciais. Por um lado, ele vivera a escravidão operada por aquela ideologia marxista que servia de madrinha da Teologia da Libertação.

Com base na sua dolorosa experiência, ficava-lhe claro que era preciso combater esse tipo de libertação. Por outro lado, justamente a situação da sua pátria tinha lhe mostrado que a Igreja realmente deve agir pela liberdade e pela libertação não de modo político, mas despertando nos homens, através da fé, as forças da autêntica libertação. O papa nos guiou para tratar ambos os aspectos: por um lado, para desmascarar uma falsa ideia de libertação; por outro, para expor a autêntica vocação da Igreja à libertação do homem. E aquilo que tentamos dizer nas duas instruções sobre a Teologia da Libertação, que estão no início do meu trabalho na Congregação para a Doutrina da Fé. [...]

Santidade, o senhor abriu o processo para a beatificação com antecipação com relação aos tempos estabelecidos pelo Direito Canônico. Há quanto tempo e com base em que o senhor se convenceu da santidade de João Paulo II?

Que João Paulo II era um santo, nos anos da colaboração com ele, tornou-se cada vez mais e mais claro. Acima de tudo, é preciso ter presente, naturalmente, a sua intensa relação com Deus, o seu estar imerso na comunhão com o Senhor, da qual eu recém falei. Daí vinha a sua alegria, em meio às grandes dificuldades que ele tinha que suportar, e a coragem com a qual cumpriu a sua tarefa em um tempo realmente difícil. João Paulo II não pedia aplausos, nem nunca olhou em volta preocupado sobre como as suas decisões seriam aceitas. Ele agiu a partir da sua fé e das suas convicções, e estava pronto até mesmo para sofrer golpes. A coragem da verdade, a meu ver, é um critério de primeira ordem da santidade.

Só a partir da sua relação com Deus é possível entender também o seu incansável compromisso pastoral. Ele se deu com uma radicalidade que não pode ser explicada de outro modo. O seu compromisso foi incansável e não só nas grandes viagens, cujos programas estavam cheios de eventos, do início ao fim, mas também dia após dia, a partir da missa matinal até tarde da noite. Durante a sua primeira visita à Alemanha (1980), pela primeira vez, eu fiz uma experiência muito concreta desse empenho enorme. Para a sua estadia em Munique, ele decidiu que deveria tirar uma pausa mais longa ao meio-dia. Durante aquele intervalo, ele me chamou no seu quarto. Encontrei-o rezando o Breviário e lhe disse: "Santo Padre, o senhor deve descansar". E ele: "Posso fazê-lo no Céu". Só quem está profundamente preenchido com a urgência da sua missão pode agir assim. [...]

O que o senhor sente intimamente hoje quando a Igreja reconhece oficialmente a santidade do "seu" papa, João Paulo II, do qual o senhor foi o colaborador mais próximo?

A minha recordação de João Paulo II é cheia de gratidão. Eu não podia e não devia tentar imitá-lo, mas tentei levar adiante a sua herança e o seu encargo o melhor que pude. E por isso estou certo de que, ainda hoje, a sua bondade me acompanha, e a sua bênção me protege.

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