Cinco razões pelas quais o papa Francisco abraça a liturgia do Vaticano II

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30 Agosto 2017

Não é novidade que a liturgia foi um campo contestado na vida católica nas últimas décadas. A oposição à reforma litúrgica começou mesmo antes da conclusão do Concílio Vaticano II e aumentou a partir de 1964, quando reformas como o uso da língua materna e a prática de o sacerdote ficar em frente às pessoas enquanto celebra a Eucaristia começaram a ser implementadas.

O artigo é de John F. Baldovin, S.J., professor de liturgia e sacramentos na Faculdade de Teologia e Ministério no Boston College, autor de Reforming the Liturgy: A Response to the Critics (Liturgical Press, 2008), publicado por America, 28-08-2017. A tradução é de Luisa Flores Somavilla.

Em sua forma mais extrema, essa rejeição encontrou suas bases no movimento tradicionalista fundado pelo arcebispo Marcel Lefebvre, que acabou se separando em cisma da Igreja Católica após ter ordenado bispos por conta própria. Parte desse movimento permaneceu dentro da Igreja e foi grandemente encorajada pelo motu proprio do Papa Bento XVI, "Summorum Pontificum", há dez anos, que permitiu a celebração da tradicional missa tridentina, agora chamada de "Forma Extraordinária".

Porém, a oposição não se limitou a esse extremo. Outro grupo caracterizado como "Reforma da Reforma" defendia modificações das reformas pós-Vaticano II, como o retorno a uma Oração Eucarística (Oração I, o Cânon Romano) recitada em latim e em voz baixa com o sacerdote e as pessoas voltados para a mesma direção (ad orientem). O defensor mais notável do movimento foi o cardeal Joseph Ratzinger, mas houve apoiadores nos últimos quatro prefeitos da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos: os cardeais Jorge Arturo Medina Estévez, Francis Arinze, Antonio Cañizares e (atualmente) Robert Sarah. Esses movimentos de oposição também encontraram apoio entre alguns católicos mais jovens que estavam em busca de uma experiência mais transcendental da liturgia em comparação ao que costumavam vivenciar.

O papa Francisco apoiou o movimento litúrgico de forma definitiva e inequívoca

Enquanto isso, várias tentativas de avançar com a reforma, como as propostas de tradução do Saltério e do Missal Romano, em meados dos anos 90, pelo Comitê Internacional de Inglês na Liturgia, foram impedidas ou prontamente rejeitadas pelo Vaticano. Além disso, o Vaticano também publicou um novo documento sobre tradução ("Liturgiam Authenticam", 2001), revertendo a instrução de 1969 sobre tradução em uma direção muito tradicional.

Esse movimento restauracionista da liturgia está sendo revertido pelo papa Francisco. Um ano atrás, o Vaticano emitiu uma contra-argumentação da posição a favor da "Reforma da Reforma", apresentada pelo Cardeal Sarah. No ano passado, Francisco criou uma comissão para revisar o documento "Liturgiam Authenticam". (O resultado do trabalho ainda não foi publicado.) O papa também substituiu vários consultores mais tradicionais da Congregação para o Culto Divino por pessoas muito mais simpatizantes das reformas inspiradas pelo Vaticano II.

E agora, num discurso extraordinariamente franco aos participantes da Semana Nacional Litúrgica Italiana, o Papa Francisco apoiou o movimento litúrgico de forma definitiva e inequívoca, declarando: "Podemos afirmar com certeza e com autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível". O uso da expressão forte "autoridade magisterial" não pode ser interpretado como casual. O parágrafo que termina com essa forte afirmação começa com o seguinte:

Hoje, ainda há trabalho a ser feito nesta direção [a reforma iniciada pelo Papa Paulo VI], particularmente redescobrindo os motivos das decisões tomadas com a reforma litúrgica, superando leituras infundadas e superficiais, a recepção parcial e práticas que a desconfiguram. Não se trata de repensar a reforma reavaliando as escolhas, mas de conhecer melhor os motivos subjacentes, também através da documentação histórica; além de internalizar os princípios inspiradores e observar a disciplina que o regula" [ênfase minha].

Certamente, o Papa Francisco não é fã de experimentação irresponsável ou da adaptação descuidada da liturgia (como demonstra fortemente pelo estilo sóbrio e simples de celebração e de escolha de vestimentas), e não há nada realmente novo em sua fala.

Mas sua importância encontra-se nos vários aspectos da reforma litúrgica que Francisco enfatiza. Vamos nomear cinco.

Em primeiro lugar, ele afirma claramente a importância da participação ativa na liturgia, uma participação que rejeita a contribuição dos participantes como "estranhos e espectadores mudos" ("Sacrosanctum Concilium", nº 48).

Em segundo, defende o equilíbrio cuidadoso do concílio entre o respeito à tradição saudável e o progresso legítimo (nº 23).

Em terceiro lugar, reitera a necessidade de educação litúrgica paciente e duradoura tanto para os pastores como para as pessoas.

Em quarto lugar, e esta é uma ênfase teológica particularmente significativa, fala da liturgia como a presença viva de Cristo, uma presença que se manifesta de formas múltiplas: os elementos eucarísticos, o próprio sacerdote, a palavra proclamada e a reunião em assembleia (nº 7). A ênfase de Francisco nas múltiplas formas em que Cristo está presente na liturgia é particularmente importante porque leva-o a dizer que o altar é "o centro para o qual a nossa atenção converge... o olhar das pessoas, do sacerdote e dos fiéis em oração dirige-se ao altar, convocado pelo encontro em seu entorno [ênfase minha]". Duvido que o papa tenha falado de forma vaga ao mencionar o "entorno" do altar. Em outras palavras, penso que foi um comentário, embora oblíquo, sobre os que querem que o sacerdote fique virado para o "leste".

Finalmente, e certamente alinhada à quarta ênfase, há a insistência de Francisco de que a liturgia é uma ação ("para as pessoas, mas também das pessoas" [ênfase no original]). Ele se refere às próprias homilias para levar para a casa das pessoas a ideia de que a liturgia não se refere tanto à doutrina de forma abstrata, mas a colocar em prática a vida cristã. A Eucaristia, especificamente, não é tanto um ato de piedade individual quanto é a formação do povo de Deus.

Dizem que Francisco é o primeiro verdadeiro papa do Vaticano II, pois foi ordenado após a conclusão do concílio. E está demonstrando isso por sua forte afirmação do caminho a seguir de acordo com a reforma litúrgica que compreendeu um elemento tão significativo no resultado do concílio.

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