“As ideias da Revolução Francesa ainda têm um longo percurso pela frente”. Entrevista com Éric Vuillard

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28 Janeiro 2020

Agricultores, artesãos, comerciantes, prostitutas, monges rebeldes ... Um povo diversificado e heterogêneo preenche as páginas dos relatos de Éric Vuillard (1968, Lyon). Assim como as conspirações das elites econômicas que catapultaram o nazismo ou a hipocrisia dos príncipes alemães que diziam querer negociar, ao mesmo tempo em que aplacavam as revoltas camponesas do século XVI. O povo contra as elites. Talvez uma realidade mais complexa quando se entra no interior da história. É o que refletem os livros de Vuillard, premiado em 2017 com o Goncourt, o maior prêmio literário francês, por ‘A ordem do dia’ [Em tradução livre] (Tusquets, 2018).

Por meio de seus breves e incisivos relatos históricos sobre o auge do nazismo – ‘A ordem do dia’ -, a Revolução Francesa – ‘14 de julio’ (Tusquets, 2016) – e a Primeira Guerra Mundial La Batalla de Occidente (Tusquets, 2012) -, este escritor francês desenvolveu uma visão perspicaz do passado e uma sugestiva geografia política. Seus relatos históricos constantemente questionam o leitor sobre problemas atuais, como a irresponsabilidade das elites ou as revoltas populares que não se enquadram nas categorias marxistas.

Pouco depois da emergência dos coletes amarelos, em inícios de 2019, publicou La guerre des pauvres (“A guerra dos pobres”), que trata das revoltas dos camponeses alemães no século XVI. No estabelecimento de um amigo livreiro no leste de Paris, atendeu ‘El Salto’ por uma hora. Uma extensa entrevista na qual refletiu sobre sua obra e as lutas sociais do presente.

A entrevista é de Enric Bonet, publicada por El Salto, 25-01-2020. A tradução é do Cepat.

Eis a entrevista.

Seu último romance intitula-se ‘La guerre des pauvres’ e narra as revoltas camponesas e protestantes na Alemanha do século XVI, lideradas por Thomas Müntzer. Por que você se interessou pela figura desse pregador revolucionário?

Nesse caso, fui inspirado por um fato que aconteceu alguns anos atrás, quando foram abertas as primeiras prisões privadas na França. Durante a inauguração de uma das primeiras prisões em Poitiers, a transferência de detidos ocorreu no meio da neblina nesta cidade, no centro do país, e naquele dia houve um tumulto dos presidiários, que quebraram as vitrines da empresa de telecomunicações ‘Bouygues’ [responsável por administrar esses centros privados] e também fizeram um grafite em latim no batistério de Poitiers. Nele aparecia escrito: “Omnia sunt comunia” (tudo é comum), uma das frases emblemáticas de Müntzer.

Em seu livro, descreve essas revoltas do século XVI na Alemanha como um “levante do homem comum”.

Sempre observo a história do presente e, no caso das chamadas revoltas camponesas do século XVI, me chamou a atenção que não apenas os camponeses se rebelaram, mas também os artesãos, comerciantes modestos comerciantes ... Era um povo diversificado. Nós as chamamos de revoltas camponesas por ser a expressão que foi utilizada por Friedrich Engels, em meados do século XIX, de acordo com o pensamento marxista da época. Mas, na realidade, o termo que melhor descreve essas revoltas protestantes é o de “levante do homem comum”. Uma expressão que tem grande validade no presente. Eram movimentos muito heterogêneos, com uma configuração social muito mais difícil de designar que fossem camponeses ou proletários.

Um povo diversificado que também é protagonista de um de seus livros anteriores, ‘14 de julio’, sobre a tomada da Bastilha.

Sim, e esses povos diversificados têm uma grande ressonância com o presente. Vimos isso nos últimos meses na França, com o movimento dos coletes amarelos, com uma composição social heterogênea. Quando os trabalhadores se mobilizavam no passado, atuavam como uma classe operária organizada a partir das instâncias representativas dos sindicatos. Contudo, em grande parte, isso se decompôs na atualidade, o que torna sugestiva a expressão ‘levante do homem comum”.

Quais são os pontos em comum entre os povos do presente e os que protagonizaram as revoltas do século XVI?

Um elemento fundamental que as revoltas do século XVI compartilham com os atuais movimentos de contestação é o fato de usar a ideologia do poder para se rebelar. Müntzer e os camponeses que o acompanhavam recorreram àquelas ferramentas ideológicas que tinham à sua disposição, isto é, o cristianismo. Utilizaram os princípios da Bíblia para invocá-los contra o uso que a Igreja fazia deles e os privilégios que conferiam aos nobres. Lembraram ao papa e aos príncipes alemães que aquilo que reivindicavam como cristianismo não correspondia ao que os evangelhos diziam.

Algo semelhante acontece no presente. Como a tradição marxista já não se encontra à disposição das massas, elas recorrem à Revolução Francesa e aos princípios liberais básicos de nossas sociedades. Por exemplo, os coletes amarelos evocavam a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão de 1789. Especificamente, seu artigo 6, que estabelecia que o povo participa diretamente na elaboração das leis.

O que a Revolução Francesa representa na França e na Europa do presente?

Os coletes amarelos recuperaram e representaram o imaginário da Revolução Francesa. Esteve presente tanto em slogans como em roupas, por exemplo, nos barretes frígios. Além disso, a força do legado da Revolução de 1789 é que foi um acontecimento mundial. Thomas Jefferson estava então em Paris e imediatamente percebeu o impacto da tomada da Bastilha. Então, cristalizou uma nova linguagem política, a da liberdade e igualdade. Uma verdade que ainda irradia no mundo atual. Foi o que vimos, por exemplo, com as Revoluções Árabes nas quais foram reivindicados estes mesmos valores de liberdade e igualdade.

Ao longo da história, aqueles revolucionários franceses que encarnavam um desejo maior de igualdade, como Maximilien de Robespierre, foram constantemente demonizados. Quando o bicentenário foi comemorado em 1989, a Revolução parecia um objeto político neutralizado e despojado de sua ideologia transformadora. Você ficou surpreso com a maneira como os coletes amarelos se reapropriaram dela?

Não, não fiquei surpreso. Sempre pensei que quando determinadas ideias são estabelecidas, dificilmente podem ser erradicadas. Quando as pessoas dizem que são livres e iguais, talvez os liberais poderão acrescentar que são livres e iguais em direitos, mas o povo ficou com a primeira parte da frase. Ou seja, que todos os seres humanos nascem livres e iguais. Essa fórmula resultou muito inovadora e dificilmente pode ser esquecida, apesar de sua generalidade, ou melhor dito, graças a sua generalidade. É sedutora, tanto por sua universalidade como por seu caráter ingênuo, ou seja, por seu otimismo em relação ao futuro. Acredito que ainda tem um longo percurso pela frente.

Enquanto em ‘14 de julio’ relata uma revolução que triunfa, em ‘La guerre des pauvres’ os camponeses rebeldes são aplacados e Müntzer decapitado. O que lhe interessou nessa revolta fracassada?

Um aspecto interessante da derrota de Müntzer é que mostra uma história terrível da negociação. Quando ocorrem problemas sociais, sempre se diz que devem ser resolvidos através da negociação, da mesma maneira que ocorre com disputas entre amigos, que tentam ser revolvidas conversando. Contudo, entre a vida privada e a sociedade existe uma diferença significativa: não defendem os mesmos interesses. As classes sociais existem. No caso de Müntzer, vemos como os condes e a aristocracia se dedicaram a negociar de forma muito hipócrita, dialogando por um lado e do outro massacrando as tropas de camponesas. O passado tem a vantagem de que as coisas são mais claras.

Em 2015, ao então ministro da Economia da Grécia, Yanis Varoufakis, nem sequer deixaram que tomasse notas durante as fatídicas negociações no Eurogrupo. Ao contrário, a história de Müntzer nos mostra que a negociação é realmente uma arma de combate. Com isso, não quero dizer que não é necessário negociar, mas, sim, estar consciente de que quando a iniciativa vem daqueles de cima, trata-se de uma armadilha.

No caso de Müntzer, você também destaca sua capacidade como escritor para descrever a pobreza, o sofrimento e a cólera social de sua época.

Müntzer foi um pregador e escritor do século XVI. É pouco comum que um intelectual apoie a causa do povo com tanta convicção quanto ele fez e que por isso pague um preço tão alto como a morte. Sempre é necessário levar a sério alguém que morre por suas ideias. Além disso, tem o mérito de ter se impregnado da realidade dos de baixo, diferente de Lutero, que teve uma vida muito mais acomodada e se apostou na reforma protestante, foi porque se tratava de sua própria teologia. Primeiro, Müntzer adotou os postulados oficiais da reforma protestante, mas seu pensamento mudou a partir de sua atividade como pregador itinerante. Então, visitou os bairros mais pobres e mergulhou na vida dos artesãos, pequenos comerciantes e camponeses. É muito pouco comum que um intelectual extraia a base central de seu pensamento de outras pessoas e ainda menos que provenha daquelas menos letradas e sábias que ele.

Outro aspecto interessante em ‘La guerre des pauvres’ é o sentimento de traição que você descreve do povo em relação aos clérigos e a aristocracia. Qual é a importância desse sentimento de ter sido traídos pelas elites nas revoltas do século XVI?

Esse sentimento de traição se viu favorecido pelo surgimento da imprensa e da literatura moderna. A união entre a imprensa e o protestantismo inventou o livro, um objeto emancipatório por excelência, e favorece a emergência do sujeito moderno. Abre uma caixa de pandora. A partir de então, Müntzer e seu bando de artesãos e pessoas humildes também são capazes de ler e se consideram teólogos no mesmo nível daqueles que estiveram no seminário.

Um sentimento de traição pelas elites que também está presente nos movimentos de contestação atuais ...

Sim, existe certa unanimidade no presente de que apenas pessoas comuns devem respeitar os princípios básicos de nossas sociedades. A maioria da população precisa cumprir as leis e princípios constitucionais, enquanto as elites políticas e econômicas os traem. Por exemplo, na França, durante anos, foi aplicado o estado de emergência [entre fins de 2015 e de 2017], o que permitia reter em domicílio uma pessoa apenas por uma decisão administrativa, sem a intervenção de um juiz. Tudo isso contradiz os princípios fundamentais do direito e de nossa democracia.

Em uma entrevista em 2018 para o site da Ctxt, você afirmou que “agora os ricos já não precisam mais do povo”. De fato, uma das principais reivindicações dos coletes amarelos foi dizer “nós existimos”. Existe uma tensão entre a invisibilidade das classes populares e sua demanda por reconhecimento?

Meu livro La batalla de Occidente sobre a Primeira Guerra Mundial está relacionado com essa tensão entre a visibilidade e a invisibilidade do povo. Em inícios do século XX, as pessoas modestas precisavam ser completamente invisíveis para que pudessem ser colocadas, durante quatro anos, nas trincheiras. Nesse relato, falo de uma batalha de um dia na qual morreram mais de 24.000 pessoas. Um número equivalente aos combates militares mais importantes da história, mas essa batalha não recebeu nenhum nome. Foi um dia como outro qualquer. Essa invisibilidade do povo experimenta uma virada copernicana a partir da Primeira Guerra Mundial.

A ideia de escrever La batalla de Occidente me veio após visitar um cemitério da Grande Guerra. Passeando com minha esposa nesse lugar, ficamos muito emocionados. Então, refleti sobre as razões pelas quais me tocou tanto essa visita e enquanto escrevia percebi que estava relacionada com as desigualdades sociais. A experiência de visitar um cemitério da Primeira Guerra Mundial é única, porque todos os túmulos são iguais. Até mesmo a caligrafia com a qual escreveram os nomes dos mortos. A igualdade humana está embutida na matéria. Sejam ricos ou pobres, com ou sem graduação militar, todos os soldados foram enterrados nas mesmas condições. Mas qual foi o preço dessa igualdade? 10 milhões de mortos.

A Primeira Guerra Mundial também teve um grande impacto na história da literatura.

Esse conflito mudou a relação que os intelectuais tinham com as massas. Após a Grande Guerra e a Revolução Russa de 1917, já não foi mais possível escrever da mesma maneira. As classes sociais das quais procedem os escritores se veem alteradas. Marcel Proust, um burguês rentista, seria o último representante do velho mundo. Após a Primeira Guerra e a experiência da morte em massa, serão os próprios camponeses e operários que combateram na linha de frente que se dedicarão a escrever sobre ela. Diretamente das trincheiras emerge a literatura de Louis-Ferdinand Céline, Jean Giono e Erich Maria Remarque. Todos eles não se dedicarão a explicar as vidas dos generais, mas o horror das trincheiras e o sofrimento das massas. Isto não se vê refletido apenas na literatura, mas também nas ciências sociais, por exemplo, com a criação da Escola dos Annales.

Um dos temas centrais que você desenvolve na obra ‘La batalla de Occidente’, e também na ‘A ordem do dia’, é a irresponsabilidade e a corrupção das elites. Também no presente as desigualdades só aumentam e a corrupção é um problema em muitos países. Não aprendemos nada do passado?

Sim, extraímos algumas lições, mas a dificuldade está em aplicá-las. No final de “La batalla de Occidente’, relato uma série de atentados que ocorreram durante a Primeira Guerra Mundial e um deles tinha como objetivo o banqueiro estadunidense John Pierpont Morgan [fundador da entidade JP Morgan]. Durante a guerra, esse magnata emprestou dinheiro aos franceses e britânicos, mas também aos seus rivais alemães para que devolvessem a dívida contraída após perder a guerra. Além disso, vendeu armas durante o conflito. Ou seja, conseguiu que o dinheiro circulasse para sempre terminar em suas mãos. Conhecer tais tipos de tramas de financiamentos é importante. Sobretudo, é necessário deixar de lado as visões líricas da Grande Guerra.

Um dos aspectos característicos do seu trabalho é a crítica do caráter teatral e lírico com o qual muitos eventos históricos são narrados. Por quê?

Isso é justamente algo que aprendemos da Primeira Guerra Mundial. Em ‘Viagem ao fim da noite’ de Céline, vemos como se resolve qualquer visão teatral da guerra e das elites que a dirige. Este romance começa com uma cena em que um bombardeio ocorre na frente e um dos chefes militares é decapitado. Com a literatura realista de Stendhal, em inícios do século XIX, já se deixou de descrever a guerra com o registro das crônicas heroicas, escritas para exaltar a glória de nobres e reis. Mas com a Grande Guerra e a experiência das trincheiras, esse teatrinho desapareceu completamente.

Também é um pouco teatral a maneira pela qual muitos políticos agora alertam sobre o crescimento da extrema direita, mas ao mesmo tempo não fazem muito para corrigir as causas que a favorecem. O que você pensa dessa ascensão da ultradireita?

Preocupa-me que as ideias repressivas não são defendidas apenas por partidos de extrema direita, mas também pelo restante da classe política. A decisão de decretar o estado de emergência na França, em novembro de 2015, que traiu os direitos fundamentais, foi tomada por um governo socialista. O fato de haver alguns partidos de extrema direita não traz nenhuma novidade, mas que o resto dos dirigentes esteja obcecado com a segurança e deixe de lado as liberdades públicas, sim, parece mais preocupante. Isso também se deve ao fato de não existir nenhuma oposição exterior. Todos os países vivem sob o mesmo modelo.

Além disso, uma diferença significativa entre o presente e os anos 1920 e 1930 é a ausência de um sentimento dramático. Como não ouvimos o barulho de botas na rua, nem existem conciliábulos fascistas, o boom da extrema direita parece muito mais light. É como se todos os dias ocorresse uma Conferência de Munique [em referência à cúpula de 1938, na qual o governo francês e o britânico aceitaram que a Alemanha nazista anexasse os Sudetos tchecos]. No entanto, o aspecto que mais me preocupa é a concentração excessiva de riqueza. Tanto os poderes financeiros como os partidos de extrema direita parecem plenamente compatíveis.

 

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