Lutero no aeroporto. Artigo de Paolo Naso

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07 Novembro 2018

Lutero não tem nada a ver com a Síria, os contrabandistas e as migrações globais, mas acreditamos que, no dia 31 de outubro passado, ao acolher os refugiados no aeroporto de Fiumicino, as Igrejas evangélicas italianas souberam recordar e interpretar eficazmente a Reforma de 501 anos atrás.”

A opinião é do sociólogo italiano Paolo Naso, da Comissão de Estudos da Federação das Igrejas Evangélicas na Itália e professor da Universidade de Roma “La Sapienza”, em artigo publicado por Riforma, publicação das Igrejas evangélicas batista, metodista e valdense italianas, 09-11-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

No dia 31 de outubro passado, completavam-se 501 anos do início da Reforma Protestante ou, melhor, do famoso gesto de Lutero que, de acordo com uma credenciada tradição, justamente no dia 31 de outubro de 1517, teria afixado as suas 95 teses no portão da catedral alemã de Wittenberg. Após as importantes celebrações do ano passado, em 2018, a recorrência da Reforma correu o risco de passar despercebida.

É o jogo dos centenários que produzem eventos excepcionais apenas no ano de número com dois zeros. Tentamos escapar desse jogo, lembrando que, em 31 de outubro de 2018 – a 501 anos da Reforma, justamente –, as Igrejas evangélicas italianas estavam simbolicamente presentes no aeroporto de Fiumicino para acolher 82 refugiados de origem síria que chegaram à Itália graças ao projeto dos Corredores Humanitários.

Desde o seu início, mais de 1.400 pessoas chegaram legalmente, com dignidade e segurança, à Itália, graças a esse projeto-piloto concebido e desenvolvido pelos protestantes e pelos católicos da Comunidade de Santo Egídio. Mil e quatrocentas pessoas retiradas das violências, das brutalidades e das chantagens dos contrabandistas.

O que Lutero tem a ver com a Síria e os refugiados? Pouco, definitivamente pouco. Mesmo assim, algum nexo existe. Comecemos dizendo que a Reforma na Itália não teve uma vida fácil. Para se enraizar na Itália, os protestantes tiveram que sofrer perseguições e violências e, até 1848, os valdenses, um componente importante do protestantismo italiano, foram excluídos dos direitos civis fundamentais.

Em 1685, os valdenses foram até forçados a abandonar as suas terras e as suas casas para encontrar refúgio na Suíça, de onde só puderam retornar em 1689. Em suma, tornaram-se refugiados; e na Genebra de Calvino foram tratados como refugiados, segundo o nosso vocabulário de hoje.

É uma história antiga, mas que deixou sua marca; talvez seja por isso que os valdenses, e com eles todos os outros evangélicos que se enraizaram na Itália, sentem o dever da acolhida para com os que são perseguidos e escapam de guerras e violências.

Recordar e celebrar a Reforma significa fazer memória do passado, certamente, mas também fazer gestos coerentes com a própria história e com a própria vocação. E, por isso, hoje, os evangélicos italianos acolhem e acompanham migrantes e requerentes de asilo.

Muitas das celebrações do ano passado tiveram caráter ecumênico; uma vez divididos e contrapostos uns aos outros, em 2017 católicos e protestantes compartilharam a memória de um fato que marcou a ambos e que, com o tempo, mudou a ambos.

O movimento ecumênico foi um dos protagonistas do século XX, aproximando comunidades de fé que haviam se contraposto e se combatido. Hoje, católicos e protestantes gerem juntos os Corredores Humanitários, desenvolvendo um ecumenismo prático que não se limita a buscar o consenso sobre as formulações teológicas, mas que também constrói uma ação comum.

Lutero não tem nada a ver com a Síria, os contrabandistas e as migrações globais, mas acreditamos que, no dia 31 de outubro passado, ao acolher os refugiados no aeroporto de Fiumicino, as Igrejas evangélicas italianas souberam recordar e interpretar eficazmente a Reforma de 501 anos atrás.

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