França. 19ª marcha dos coletes amarelos, com repressão

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26 Março 2019

O nome do partido presidencial “A República em Marcha” se tornou ontem "A Repressão em Marcha". Os coletes amarelos que em toda a França participaram da 19ª jornada de manifestações, puseram à frente de suas marchas um cartaz em sinal de repúdio ao grande número de policiais, com o qual, desta vez, o Executivo decidiu impedir a repetição de saques da semana passada. Para conter os 3.000 manifestantes de Paris, houve não apenas muitos policiais, mas também muitos símbolos.

A reportagem é de Eduardo Febbro, publicada por Página/12, 24-03-2019. A tradução é do Cepat.

O mais pesado é o recurso ao Exército francês. Incêndios e depredações no sábado, 16 de março, na Avenida Champs-Élysées, e a convergência entre os coletes amarelos mais radicais e os Black Blocs e a destruição das insígnias bandeiras das marcas de luxo do mundo (o restaurante Le Fouquet’s, Hugo Boss, Lacoste, Nespresso, Foot Locker, Longchamp, Zara) desencadearam um expurgo sem precedentes entre os altos comandos policiais, a proibição de se manifestar em certos bairros de Paris e de outras cidades, bem como a implementação de uma rede repressiva sem precedentes.

Ao meio-dia, mais de 5.000 "controles preventivos" foram realizados pelas forças de segurança. As capitais provinciais como Nice, Toulouse e Bordeaux proibiram os coletes de qualquer manifestação nos centros onde as boutiques de luxo estão localizadas. Em Paris, a Champs-Elysees, os arredores do Palácio Presidencial e da Assembleia Nacional foram fechados para os manifestantes pelos 6.000 membros das forças de segurança posicionados em Paris.

A imagem mais marcante, no entanto, é a presença do Exército Francês, cuja primeira missão, a operação Sentinela projetada em 2015 para proteger ataques terroristas de lugares públicos, foi estendida agora à repressão. O muito questionado ministro do Interior, Christophe Castaner, disse o slogan "impunidade zero". A democracia macronista tem sido incapaz de resolver a crise dos coletes amarelos e acabou deslocando o Exército para proteger os símbolos de ostentação e riqueza. A imagem do governo foi degradada junto com a dos coletes amarelos. O movimento paga o tributo das cenas de violência e destruição que as manifestações deixam para trás.

Nos últimos dias, uma pesquisa de opinião realizada pela Odoxa demostra a erosão dos coletes: 58% dos entrevistados consideram que a violência tem tirado um monte de crédito dos coletes amarelos, enquanto 55% querem que as manifestações acabem. Os números são igualmente adversos para o governo, pois 76% acreditam que o ministro do Interior não será capaz de manter a ordem pública, 70% sentem que Emmanuel Macron é igualmente incapaz e 67% pensam o mesmo do primeiro-ministro Édouard Philippe.

Quatro meses de crise enfraqueceram todos os atores. O movimento começou no dia 17 de novembro com duas identidades permanentes: uma ao longo da semana, com a ocupação das rotatórias: a outra, no sábado, com as manifestações nas cidades. As tentativas oficiais de neutralizar a tensão não foram concluídas. Apesar dos coletes estarem divididos e perdendo impacto e apoio (em um momento, 76% da população os apoiavam), a onda amarela continuou sua rota. O telão que escondia a França desértica desmoronou. A decoração da felicidade liberal ficou nua e, desde então, os coletes têm semeado sua própria agenda diante da impotência política do governo e do presidente.

"Emmanuel Macron, a vertigem autoritária", escreve o portal de informação Mediapart. Cerca de 350 estudantes universitários assinaram um texto neste final de semana contra "o grave perigo que a população corre com a política do governo". A direita, no entanto, está posicionada contra os coletes amarelos. Um de seus porta-vozes mais camaleônicos, o filósofo Bernard-Henry Lévy, acusa os coletes de incorporar um "niilismo mortal".

Essa "vertigem" é explicada pela obsessão de evitar que os setores mais duros do movimento façam causa comum com os Black Blocs, como aconteceu em meados de março. Ao longo das semanas, grupos políticos radicais se misturaram com os coletes amarelos. O último a chegar no cenário foi o grupo Black Bloc. Esses radicais vestidos de preto e gorros pretos são constituídos por uma mistura de antifascistas, anarquistas e os chamados autônomos.

Em um bar de Paris, um dos Black Blocs explicou ao Página/12 que a situação insurrecional criada pelos coletes amarelos provou ser um campo de ação propício e, sem que tenha havido qualquer coordenação prévia", isso se refletiu na rua de forma irremediável, pois ninguém aceita que a resposta a uma demanda social seja a repressão selvagem".

Julien é um Black Bloc do chamado "Comitê Invisível", que em 2007 publicou um famoso ensaio: La Insurrección que viene (La Fabrique Edition). Este livro, em suas primeiras linhas, constata que "qualquer que seja o ângulo a partir do qual você olha, a situação atual não tem saída". Por essa razão, ele postula que a "insurreição não é apenas necessária, mas também inescapável". Do seu modo, para eles, os coletes amarelos foram o tambor que desencadeou o nascimento daquela insurreição.

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