Por mais de um século, os capuchinhos na Amazônia. Os quatro jovens frades responsáveis pela empreitada

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18 Outubro 2019

Para os padres reunidos no Vaticano na terça-feira 15 de outubro, para o Sínodo Especial sobre a Amazônia, foi exibido um vídeo ilustrando o trabalho realizado pelo barco-hospital Papa Francisco a serviço das populações ribeirinhas do estado brasileiro do Pará, ao longo de um trecho de 1000 quilômetros do rio Amazonas. Mas nem todo mundo conhece um precedente ilustre dessa iniciativa, que se deve aos frades capuchinhos, que na década de 1970 equiparam um barco-hospital, o Maria Cristina, que levava à bordo o médico missionário Padre Pio Conti da Pieve Torina. O religioso percorria ininterruptamente para cima e para baixo o rio para distribuir remédios aos doentes, incluindo os portadores de hanseníase.

De fato, entre os primeiros missionários engajados na Amazônia brasileira, estavam justamente os capuchinhos que chegaram da Úmbria em 1909, ou seja, cento e dez anos atrás. Eles chegaram quando as pessoas estavam saindo: o boom do ciclo de borracha havia terminado e os nordestinos estavam retornando ao seu árido sertão, mais pobre do que quando haviam saído.

O engenheiro Malvezzi, de Vicenza, encontrando-se um dia com o missionário que residia em Benjamin Constant, disse: "Padre, esses povos progredirão quando a miséria puder sem empacotada e mandada para a Europa". Ele estava certo porque a Amazônia era um imenso prado verde suspenso e "sempre verde" porque povoada por pessoas imersas na uma pobreza endêmica.

O relato é de Egidio Picucci, publicado por L'Osservatore Romano, 17 e 18-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Os primeiros capuchinhos que chegaram ali foram quatro, como pontos cardeais que deveriam estabelecer referências certas para as pessoas desapontadas e desorientadas pelo colapso do comércio de borracha. Eles eram muito jovens e é preciso lembrá-los: padre Domenico Anderlini de Gualdo Tadino, padre Ermenegildo Ponti de Foligno, padre Agatangelo Mirti de Spoleto e frei Martino Galetta de Ceglie Messapico. O território que lhes foi confiado possuía as fronteiras do horizonte: 140.000 quilômetros quadrados (17 vezes a Úmbria de onde vieram) e cerca de 20.000 habitantes, dispersos nos canto mais recônditos, e mais pobres que os índios que nasceram ali e se refugiaram perto da nascentes do rio.

A área já havia sido evangelizada e as pessoas, pelo menos oficialmente, eram todas cristãs; mas da antiga evangelização restavam apenas dois sinos em São Paulo de Olivença e cinco sinos em Tonantins. Era pouco, quase nada, mas eram sempre vozes que podiam retomar um discurso apenas interrompido. Algo similar havia acontecido em meados do século XVIII no Tibete, quando os capuchinhos que haviam aberto uma casa na capital e batizaram várias centenas de pessoas foram expulsos. Caçados pelos Lamas que viram seu prestígio diminuir, eles deixaram no reduto do budismo (e ainda existe) um sino, o Te Deum laudamus, o único que até hoje difundiu seu badalar nas alturas do Himalaia. A história tem um defeito: às vezes se repete.

Mapa de São Paulo de Olivença. (Reprodução: Google Maps)

Os capuchinhos trabalhavam - e trabalham - ao longo do Solimões (como é chamado o rio Amazonas na entrada do Brasil), um curso de água ao qual a palavra rio é muito próxima: portanto, os nativos o chamam mais simplesmente Rio Mar.

Mapa do Rio Solimões. (Reprodução: Google Maps)

Alguns meses para a aclimatação, então a primeira e óbvia decisão: abrir escolas, dado que sem educação não há progresso em nenhum campo. Fazendeiros e madeireiros sabiam disso e por isso criaram obstáculos à iniciativa, vendo no missionário um homem que teria impedido a exploração dos pobres. Começou o governo central ao qual o superior escreveu pedindo ajuda para a residência mais insalubre: Remate de Males (um vilarejo perto da atual Atalaia do Norte, sentinela do norte). Ele não teve resposta. Uma segunda carta foi respondida dizendo que não havia fundos disponíveis e, enquanto isso, eram concedidos 4.000 contos (14 milhões de liras em 1920) para a catequese laica e positivista entre os indígenas.

No dia seguinte à chegada a São Paulo de Olivença, o município votou uma lei que proibia a venda de terras aos estrangeiros; sempre em Remate de Males aos missionários foi oposto um sacerdote suspenso a divinis, acompanhado para batizar aqui e ali pelos rios; em Amatura, a canoa chamada pelo recreio, quando soube que um missionário deveria ser transportado, desapareceu na noite. Os seringueiros não fizeram oposição aberta, mas tiveram muita dificuldade em entender que certos costumes não poderiam ser mantidos após o batismo que todos reivindicavam. O padre Evangelista escreveu: "Se alguém desse ouvido às graves dificuldades que se encontram a cada passo, nunca faria nada". E novamente: "Há um ano e meio, tartarugas, peixes de rio, feijões, farinha de mandioca e água têm sido nosso alimento cotidiano". Havia motivos para se desencorajar, se o desânimo fosse filho da preguiça.

Os missionários, além da oração, recorreram à astúcia: quiseram parecer maiores do que eram e começaram a construção de um colégio que (na opinião deles) "incutisse respeito". Não foi fácil, porque não há pedras no Alto Solimões; um tijolo estava há dez dias de navegação rápida e, levado ao local, custava quatro liras (1921); o carpinteiro tinha que vir de Manaus (1.300 quilômetros). No entanto, era necessário ter sucesso. E mesmo quando o infortúnio entrou em campo (uma mina explodida fora de tempo quebrou o braço de um trabalhador e cegou outro, assustando todo o grupo que abandonou o emprego), o próprio prefeito apostólico embrenhou-se na floresta para encontrar a madeira necessária para a construção que foi aos poucos concluída.

Mapa de Alto Solimões. (Divulgação)

Enquanto alguns lecionavam nos colégios abertos em São Paulo de Olivença, em Amaturà (onde chegaram pedidos de matrícula até de Manaus) e até na ilha de Urutuba, outros, como o padre Diego da Ferentillo, encontraram tempo para ensinar o cultivo racional do café e da cana de açúcar; outros, como o padre Ludovico da Leonessa, indicavam a área mais adequada para a construção da maior cidade da então prelazia, Benjamin Constant; e outros (non nomina ut adsint numina) administravam duas estações meteorológicas, tratavam dos doentes nos pequenos dispensários da missão, introduziam as abelhas italianas e um deles foi nomeado presidente dos apicultores da Amazônia.

Benjamin Constant. (Reprodução: Google Maps)

Faziam demais para não serem notados, e a Universidade do Rio de Janeiro conferiu o diploma honorário em filosofia ao prefeito apostólico com esta motivação: "Por ser benemérito da educação civil e religiosa da juventude brasileira". O secretário municipal de Remate de Males escreveu ao prefeito apostólico: "Permita-me comunicar que Pe. Ludovico desempenha uma atividade fantástica e que, de seu admirável dinamismo, surgem realidades surpreendentes e promissoras".

E tudo isso, apesar das dificuldades ambientais; nem tanto o que estamos acostumados a imaginar, como o clima, constantemente úmido, marcado pela presença de miríades de insetos minúsculos, às vezes até invisíveis, que picam sem piedade, enfraquecendo até as fibras mais fortes. Dos quatro missionários que chegaram em 1909, o primeiro a ceder foi o padre Agatangelo, que morreu de febre amarela aos 27 anos. Nos primeiros 76 anos da missão, houve sete mortes e quatro foram repatriados por doenças graves. O padre Evangelista Galea, de Cefalonia, recebido em audiência pelo papa Pio XI em 18 de novembro de 1925, disse ao Papa: "O clima em que vivemos incapacita dois missionários por ano". O único remédio era refugiar-se periodicamente nos hospitais de Manaus, definida pelo padre Giuseppe da Leonessa como "valetudinário dos missionários". Mas ninguém cedeu, fiel ao que se costuma dizer, ou seja, que os capuchinhos vão aonde outros não querem ir. Os missionários que foram no Congo no século XVII não diziam "vamos em missão", mas "vamos para morrer em missão".

Do ensino e da promoção humana, passou-se uma intensa evangelização, graças à chegada de novos e jovens missionários que aproveitaram principalmente o trabalho realizado com os índios, chegando até a descobrir uma nova tribo, os Caribus, com o padre Venceslao da Spoleto: um evento do qual a imprensa mundial falou. As preferências, no entanto, foram - e são - para os índios Tikuna (a maior tribo de todo o Brasil), entre os quais o padre Fedele Schiaroli, de Alviano, havia trabalhado, que se ligou tanto a eles e ponto de ser incluído em uma das "nações" em que a tribo é dividida. Outros aproveitaram e desenvolveram a tentativa de entrar na selva para salvar com a vacinação tribos cujos nomes eram desconhecidos, embora a tragédia fosse conhecida. Chegaram a equipar o barco-hospital Maria Cristina: uma iniciativa providencial que hoje o Papa Francisco assumiu doando uma embarcação semelhante ao bispo de Óbidos, Bernardo Bahlmann, para o mesmo objetivo.

Mapa de Óbidos. (Reprodução: Google Maps)

Não é fácil trabalhar com os índios, principalmente com os jovens. Os missionários quebraram a cabeça e, no final, decidiram envolvê-los em algo novo, já que o novo agrada aos jovens. E o que seria? Pensou-se em várias novidades, mas foram escolhidas duas: organizar um festival e colocar a catequese em suas mãos.

Há dez anos em Belém dos Solimões, capital espiritual da tribo, organiza-se um festival da cultura e das atividades dos índios, incluindo os de etnias vizinhas: pesca, caça, música, artesanato, tiro com arco e tiro com zarabatana, remo, atletismo, coletânea de provérbios, lendas e assim por diante. Durante uma semana, Belém é uma pequena-grande academia ao ar livre; as estradas se tornam pistas para corridas e desfiles; as cabanas pequenos o hotéis para as degustação; a maloca (cabana comunitária), um caleidoscópio de luzes e cores. A preparação, que dura mais de um ano, está nas mãos de jovens que passam de cabana em cabana para entrevistar os idosos e redescobrir, assim, usos, rituais e atividades que desapareceram, mas ressuscitadas pelo relato que os aproxima e embeleza. Desde que o festival começou, diminuíram os suicídios entre os jovens, uma praga generalizada junto com o alcoolismo na Amazônia. E isso não é pouco!

Ao festival somou-se a catequese semanal nos vilarejos vizinhos, realizada no idioma local. Parte-se em uma canoa cantando e respingados pelos salpicos da água que voam de um barco para outro; chega-se ao vilarejo reunido à sombra de uma mangueira e se discute como uma parábola evangélica possa ser aplicada à vida da tribo. "É muito bom - escreveu um catequista - viver juntos momentos de cantos, orações e danças ao sol e acompanhados pelo canto dos pássaros".

As mais ativas, como sempre e em toda parte, são as mulheres jovens, com as quais os missionários estão tentando iniciar uma forma de vida consagrada "estilo tikuna". As perspectivas são boas; duas já vivem em comunidades sem sinais particulares: vestem-se, vivem, pescam como as amigos do vilarejo, mas por dentro têm algo que arde e ilumina. Seria um milagre se amanhã chegassem à consagração religiosa, dado que até agora não houve nenhuma vocação na tribo. O único sucesso, se assim pode ser chamado, é a ordenação de um diácono. "Pensando no passado - disse um missionário – pode-se falar de milagre. Que esperamos, dado o acolhimento das aspirantes da tribo, orgulhosa de que algumas de suas mulheres trabalhem como os missionárias na casa de Tupana (Deus)”.

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