Sínodo, criar um Organismo episcopal permanente para proteger os direitos desrespeitados dos indígenas

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16 Outubro 2019

Os neocolonialismos, inclusive aqueles inter-cristãos, com seus modelos econômicos predatórios, depois as migrações internas e externas, a educação dos leigos e a formação de padres, os direitos das populações indígenas repetidamente desrespeitados, o drama do tráfico de seres humanos que atinge especialmente mulheres e crianças. No Sínodo sobre a Amazônia, não se discute apenas de viri probati: os 180 pais reunidos no Vaticano até 27 de outubro questionam as emergências dessa parte do mundo que se assemelha a "uma mulher estuprada da qual acolher o grito".

A reportagem é de Salvatore Cernuzio, publicada por La Stampa, 15-10-2019. A tradução é de Luisa Rabolini.

Entre as sugestões que emergiram durante a décima primeira Congregação Geral, está a da criação "urgente" de um Organismo episcopal permanente que, coordenada pela Repam (Rede Eclesial Pan-Amazônica) e integrado ao CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), possa promover a sinodalidade na Amazônia.

Concretamente, seria um organismo que ajude a elaborar uma pastoral comum mais eficaz para a defesa dos direitos dos povos indígenas, para a formação integral dos agentes pastorais e a criação de seminários amazônicos, de modo a também enfrentar problemas comuns, como a exploração do território, delinquência, tráfico de drogas, tráfico de pessoas e prostituição.

Precisamente neste último ponto, os participantes do Sínodo concentraram-se em suas reflexões, lançando um apelo para que se possa implementar uma obra de prevenção com a ajuda de Conferências Episcopais e Congregações Religiosas. "A atenção aos menores e às mulheres também é reiterada para incentivar a luta contra o tráfico de pessoas: as vítimas desse drama são as mais desumanizadas do mundo", consta de um resumo do trabalho do Vatican News. Por esse motivo, no auditório, foi apresentada a solicitação que, por meio do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, as grandes empresas respeitem as normas internacionais sobre tráfico e sejam instituídas Comissões pastorais especiais para lidar com o tráfico de pessoas.

Para ilustrar em detalhes aos Padres essa realidade com traços muitas vezes brutais interveio a brasileira Marcia Maria de Oliveira, doutora em Sociedades e Culturas da Amazônia, especialista em História da Igreja na Amazônia, que também falou no briefing diário na Sala de Imprensa do Vaticano. Em particular, a doutora falou da questão da migração, com suas implicações mais repreensíveis de contrabando de migrantes e do tráfico de mulheres para exploração sexual, como um ponto crucial sobre o qual a Igreja hoje deveria refletir e agir.

A ação de congregações e institutos missionários já faz muito nessa área, acompanhando a onda de migrantes vindos principalmente do Haiti e Venezuela e dispersos entre Brasil, Equador, Colômbia e Peru. "Existe um desejo de acompanhar, existe também um compromisso", explicou no briefing o escalabriniano argentino Sidney Dornelas, diretor do Centro de Estudos Migratórios Latino-americanos.

A Igreja também está na linha de frente naquelas áreas onde há risco de colapso, como o estado brasileiro de Roraima, onde, apenas na cidade de Boa Vista, há cerca de 150 mil migrantes presentes. "O Estado não pode ajudar milhares de venezuelanos que estão atravessando a fronteira. É a Igreja que assume a responsabilidade por isso, inclusive porque o governo federal tem sua própria política", afirmou Dornelas.

Não é apenas o acolhimento que é o único desafio: é acompanhado por migrações internas, urbanização, assentamento de pessoas provenientes de outros contextos que geralmente não são amazônicos. "É uma questão emergencial", afirma os religioso, "muitos passam por outros países, por exemplo, depois de atravessar o Brasil e a Amazônia, seguem em direção à Argentina, mas também existem aqueles que permanecem. Em Manaus, em Brasília ... Como podemos acompanhá-los pastoralmente?" A Igreja da Pan-Amazônia, portanto, estuda uma maneira de agir no nível da "cooperação missionária", ou seja, "uma colaboração entre as Igrejas para trabalhar em rede, através dos institutos missionários, a fim de encontrar maneiras de acompanhar os migrantes".

Com a mesma preocupação, o Sínodo também olha para as populações internas da região amazônica e depois para os indígenas que, devido aos problemas decorrentes da colonização e de um desenvolvimento econômico que frequentemente mata, são vítimas de desapropriações e despejos de suas terras, migrações forçadas, violações de seus direitos - humanos e ambientais - fundamentais, começando com o de serem consultados e informados antes de cada ação em seus respectivos territórios. Nesse sentido, os Padres sugeriram a criação de um Observatório permanente de direitos humanos e de proteção da Amazônia, porque "o grito da terra e dos povos amazônicos deve ser ouvido, dando voz especialmente aos jovens, porque é uma questão de justiça intergeracional".

Do ponto de vista eclesial, a Igreja estuda como expressar mais efetivamente sua proximidade com os nativos. Um ponto doloroso é a falta de sacerdotes e a consequente escassez de celebrações religiosas: "Todos os dias falamos sobre esse tema", explicou D. Eugenio Coter, padre italiano fidei donum por 28 anos no Brasil, há seis vigário apostólico de Pando e bispo titular de Tibiuca na Bolívia.

Em uma recente entrevista, o prelado lembrava como em Puerto Maldonado, no Peru, durante a viagem papal em janeiro de 2018, uma mulher confidenciou a ele e ao papa que havia três anos que sua comunidade não celebrava a Eucaristia, mas apenas a liturgia da Palavra. “Há um sentimento comum do Sínodo que propõe ao Papa a questão de como responder concretamente à Eucaristia que falta. A questão é muito debatida nos círculos linguísticos mais que na plenária, de qualquer forma o tema volta à mesa todos os dias", afirmou o bispo. A proposta, por enquanto, permanece a de "ministerialidade", ou seja, conceder a faculdade a representantes da comunidade para poder distribuir os sacramentos. "Já existem aqueles que cuidam do acolhimento, outros da música, quem é catequista ... Ter alguém com a faculdade de poder consagrar é uma ideia sobre a qual está se refletindo".

"Estamos aqui para indicar um caminho, a Igreja já enfrentou esses problemas no passado", disse D. Coter, confiante. "A Igreja na Amazônia deve ser capaz de oferecer uma ministerialidade mais ampla, e com os poucos sacerdotes hoje não podemos fazer isso. Soluções possíveis, no entanto, podem ser encontradas".

Enquanto isso, um passo que poderia ser dado a curto prazo é de dar à liturgia um "rosto indígena". O bispo de Moyobamba, uma região andina no Peru, falou sobre isso: Dom Rafael Alfonso Escudero López-Brea, imediatamente esclareceu: "Não se trata de introduzir coisas diferentes do que a Igreja diz. Jesus nos deixou um núcleo essencial, ao longo dos séculos foram adicionados os ritos chamados complementares". Nestes poderiam sem introduzidos símbolos e ornamentos indígenas, o que "não significa introduzir ritos que não tenham um impacto essencial na liturgia. Na África, já existem celebrações nas quais foram introduzidos elementos típicos da cultura local: "Portanto, nem mesmo seria uma novidade na história da Igreja", disse López-Brea.

Em essência, trata-se de uma questão de fazer "adaptações", como apontou ainda Coter: "Na cultura de alguns grupos indígenas, por exemplo, o incenso não indica o sinal da presença de Deus, mas é a ‘ascensão ao céu’ e, portanto, é inserido no momento da oração dos fiéis. Quem reza faz o incenso queimar ...”. De qualquer forma, explicou o prelado, serão criadas "comissões que trabalharão no método de dar um rosto amazônico à liturgia". Em outras palavras, que possam monitorar a coexistência de símbolos da cultura local, "mas sempre observando o que a Palavra de Deus diz".

Falando em comissões, no início da décima primeira congregação geral, o papa Francisco anunciou as nomeações dos membros da Comissão convocada a redigir o documento final que se somam aos membros escolhidos. "Quatro e não três, tendo acrescentado o pró-secretário da Secretaria do Sínodo, monsenhor Mario Grech", explicou o prefeito do Dicastério da Comunicação, Paolo Ruffini. São o salesiano padre Rossano Sala, o cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, os arcebispos Edmundo Ponciano Valenzuela, Arcebispo de Assunção, no Paraguai, e Marcelo Sánchez Sorondo, chanceler das Pontifícias Academias das Ciências e das Ciências Sociais.

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