Se o Sínodo não quer que tudo se resuma aos padres casados, então precisa mudar o foco

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14 Outubro 2019

O cardeal Sean O’Malley, de Boston, que fala espanhol e português fluentemente e tem uma longa experiência na América Latina, é um nomeado papal entre os 184 membros votantes do Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia, de 6 a 27 de outubro. Como costuma fazer, O’Malley está usando seu blog para compartilhar impressões e, na sexta-feira, publicou uma suave repreensão aos repórteres que poderia ser um sinal do que está por vir.

O comentário é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 13-10-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Apesar da impressão que está sendo dada pela mídia”, escreveu O’Malley, “o Sínodo não é uma espécie de referendo sobre o celibato sacerdotal.”

Antes do início do Sínodo, o próprio Papa Francisco insistiu que os padres casados não seriam o seu foco principal, dizendo que se trata principalmente da evangelização na Amazônia.

É uma reminiscência, de certa forma, de queixas semelhantes em torno dos dois sínodos sobre a família em 2014 e 2015, nas quais autoridades e participantes se queixaram de um foco midiático excessivo no debate sobre a Comunhão para os católicos divorciados e casados novamente fora da Igreja. Tais frustrações, como se sabe, foram o que levou Francisco a lidar com o assunto apenas em uma nota de rodapé do seu documento de 2016 após os sínodos, a Amoris laetitia.

No entanto, com toda a justiça, a ideia de ordenar homens casados para atuar em comunidades rurais isoladas na Amazônia que, atualmente, podem ver um padre não mais do que uma vez por ano, tem sido bastante proeminente.

Parece haver um apoio considerável à ordenação dos chamados viri probati, homens casados e provados, e o bispo emérito Erwin Kräutler, do Xingu, no Brasil, disse aos repórteres na quarta-feira que “dois terços” dos bispos na Sala apoiam isso. Na manhã de sábado, de acordo com um boletim de notícias vaticano, outro participante apresentou a ideia de uma espécie de ordenação “de curto prazo” para preencher lacunas específicas.

“Uma intervenção propôs que se iniciem experiências locais de ministérios temporários para homens casados, desde que reconhecidos e aprovados pelo ordinário local e pela comunidade eclesial”, relatou o boletim.

Pode-se pensar que a canonização de John Henry Newman desse domingo possa dar uma trégua a esses debates, mas, honestamente, é igualmente provável que contribua com eles, pois várias pessoas competirão durante os próximos dias sobre o que Newman poderia dizer sobre o Sínodo da Amazônia, se estivesse por aqui hoje.

(Na “Apologia”, Newman disse que a defesa do catolicismo de um sacerdócio não casado, em uma época em que essa questão se desenrolava na Igreja da Inglaterra, foi uma parte inicial da jornada que levou à sua conversão: “Sua zelosa manutenção da doutrina e da regra do celibato, que eu reconheci como apostólico, e o seu fiel acordo com a Antiguidade em tantos outros pontos que me eram caros foram tanto um argumento quanto um apelo em favor da grande Igreja de Roma”.)

No entanto, vozes como O’Malley têm, sim, um argumento ao dizerem que a discussão no Sínodo atual é muito mais ampla do que um “sim” ou um “não” aos padres casados, abordando temas tão díspares quanto a ecologia, o impacto das indústrias extrativas, os direitos e a dignidade dos povos indígenas, a importância da educação, as desigualdades do capitalismo globalizado e muito mais.

Talvez uma dificuldade em fazer com que nós, da mídia, nos concentremos nesses assuntos seja que, embora eles tenham uma importância inegável, é difícil saber o que a Igreja Católica realmente pode fazer em relação a eles. Concretamente, o papa poderia permitir os padres casados amanhã; mas ele não pode, pelo menos por si mesmo, reverter as mudanças climáticas ou resolver as desigualdades de renda.

Sob essa ótica, se os participantes do Sínodo estão realmente irritados com aquele que consideram como um foco excessivo nos padres casados, talvez seja hora de começarem a colocar outras questões específicas sobre a mesa e que estejam realmente sob o controle da Igreja.

Por exemplo, até agora houve algumas menções fugazes à ideia de um rito especial da missa para a Amazônia, que sinalizaria o respeito pelas culturas e pela religiosidade indígenas ao incorporar parte de sua linguagem e de seus costumes na liturgia. Tal adaptação seria semelhante à chamada versão “zairiana” da missa proposta pelos bispos africanos em 1969, depois do Concílio Vaticano II, e finalmente promulgada em 1988.

De fato, se há apoio, talvez os participantes poderiam começar a dar corpo a essa liturgia amazônica inculturada, incluindo exatamente que linguagem e que rituais poderiam ser incluídos. Isso poderia muito bem dar à mídia algo mais para se debruçar, especialmente à luz das minidisputas que surgiram pouco antes do Sínodo, quando o Papa Francisco participou de uma cerimônia indígena realizada nos Jardins Vaticanos.

Para dar um exemplo diferente, tem havido uma quantidade considerável de conversas sobre a promoção do papel das mulheres na Igreja da Amazônia, e uma oradora, nesse sábado de manhã, insistiu que as religiosas “não deveriam mais andar ‘atrás’, mas sim ‘ao lado’ do clero ordenado, na perspectiva de uma sinodalidade eclesial distante do clericalismo”.

Talvez esteja na hora de ser concreto sobre isso também.

Por exemplo, embora, até onde eu sei, ninguém tenha falado disso ainda, que tal reviver uma forma moderna das abadessas medievais? É sabido que algumas abadessas na Idade Média, embora nunca ordenadas, eram de fato muito mais poderosas do que muitos bispos, possuindo vastas extensões de terras, supervisionando o clero e agindo como proprietárias de terras, cobradoras de impostos, magistradas e administradoras.

Talvez algum equivalente ao forte papel das abadessas possa ser levado em consideração hoje para as religiosas da Amazônia, o que, entre outras coisas, pode ajudar a convencer as pessoas de que a Igreja quer dizer o que diz quando insiste que a ordenação não tem a ver com poder, mas sim com serviço.

É verdade que pode ser improvável que qualquer um desses passos – que poderiam ser percebidos em grande parte como questões católicas internas – receberia muito espaço na mídia em comparação com a ideia dos padres presos. Pelo menos, no entanto, se um repórter perguntasse: “Do que mais deveríamos estar falando e que realmente depende de vocês?”, haveria uma resposta.

Em outras palavras, deem-nos outra coisa para falar a respeito – e então nós falaremos.

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