Bispos discutem extensão do envolvimento dos leigos em resposta aos abusos sexuais

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13 Junho 2019

A discussão preliminar sobre as propostas que visam à responsabilização de bispos revelou uma certa frustração entre os bispos dos EUA em sua assembleia geral nesta semana em Baltimore, especialmente quando se trata do grau de envolvimento dos leigos que podem ser obrigados a fazer parte do processo. Os bispos expressaram sua intenção de adotar protocolos voltados à responsabilização, mas ainda estão discutindo os detalhes antes de uma votação nesta quinta-feira.

A reportagem é de Michael J. O’Loughlin, publicada por America, 11-06-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Dom Robert P. Deeley, que lidera a comissão da Conferência dos Bispos dos EUA (USCCB, na sigla em inglês) sobre assuntos canônicos e governança da Igreja, disse à assembleia no dia 11 de junho que as regras adotadas não podem exceder uma medida promulgada pelo Papa Francisco no mês passado no moto proprio Vos estis lux mundi”.

Nesse documento, o Vaticano decretou que as acusações de abuso ou má conduta sexual, assim como de má-gestão levantadas contra um bispo devem ser investigadas por um bispo metropolitano, ou por alguém que ele indicar, ou por um bispo sufragâneo mais velho quando o metropolitano for o acusado.

Ele sugere que os bispos confiam em especialistas leigos para realizar a investigação, mas não chega a exigir o envolvimento dos leigos. Vários bispos dos EUA disseram que, como resultado, não podem exigir o envolvimento dos leigos em seus próprios protocolos. Mas eles também disseram que seria muito incomum para um bispo metropolitano não se valer da experiência dos leigos.

Alguns bispos buscaram garantias de que os leigos serão envolvidos em todas as etapas das futuras investigações.

“Alguns de nós estão procurando modos de inserir um envolvimento mais robusto dos leigos no plano”, disse Dom Robert McElroy, bispo de San Diego, à plenária. Ele perguntou se a USCCB poderia adotar uma norma que diga que qualquer um que nomeado para investigar acusações de má conduta ou de má gestão por parte de um bispo “precisa ser um investigador leigo”.

Dom Deeley disse que não. “Nós dissemos que ele ‘deveria’ usar leigos”, disse o bispo, mas acrescentou: “Não podemos dizer que ele ‘deve’”.

A possibilidade de os bispos terem a opção de lidar com acusações de má conduta ou má gestão sem o envolvimento dos leigos incomodou o chefe da mais alta comissão contra os abusos sexuais na Igreja.

“Um comitê de revisão cujos membros incluam leigos deve ser encarregado da revisão das acusações contra os bispos para restaurar a confiança dos fiéis nos bispos e até mesmo nos próprios processos da Santa Sé para responsabilizar os bispos”, disse Francesco Cesareo, presidente do National Review Board, em um discurso aos bispos na manhã de terça-feira. “O National Review Board insiste que isso também deve ocorrer nos Estados Unidos, através da instituição de uma comissão ad hoc leigo, seja em nível nacional ou local.”

O cardeal Blase Cupich, arcebispo de Chicago, propôs em novembro passado um modelo de responsabilização dos bispos que é similar à medida adotada pelo Papa Francisco para a Igreja universal em maio. Na manhã de terça-feira, o cardeal ressaltou que o documento vaticano permite que um bispo metropolitano use “um escritório eclesiástico” na condução de uma investigação e disse que os conselhos de revisão podem ser um modelo útil para “institucionalizar” a inclusão dos leigos. Tal medida, disse, enviaria um sinal de que os bispos compreendem a gravidade dos desafios que enfrentam.

“Essa é uma mensagem importante a ser enviada”, disse o cardeal Cupich. Em uma entrevista à revista America no fim daquele dia, o cardeal Cupich disse que os arcebispos metropolitanos já contam com o apoio de especialistas leigos para assistência através de vários escritórios institucionais em suas dioceses e que espera que essa prática se estenda à responsabilização dos bispos caso os novos protocolos sejam adotados.

Dom Steven Biegler, bispo de Cheyenne, disse em uma entrevista à revista America que outra maneira possível de garantir que as vozes leigas façam parte do processo é exigir que o conteúdo de qualquer investigação seja encaminhado a Roma. Ele acrescentou que, para além das mudanças nas normas, uma cultura da responsabilização continua sendo uma meta permanente para os bispos.

Embora as propostas incluam um mandato para as lideranças da Igreja alertarem as autoridades civis se um crime for denunciado, alguns grupos de defensores das vítimas parecem alarmados com o fato de os bispos tentarem lidar com as acusações de má gestão com a ajuda de leigos.

“A Igreja é inerentemente incapaz de policiar a si mesma”, disse Robert Hoatson, fundador do Road to Recovery, ao Faith in Public Life, um grupo de defesa em Washington. Ele disse que a proposta de os bispos metropolitanos lidarem com as investigações de outros bispos é “ridícula”.

“Sabemos que isso não funciona”, disse ele sobre o fato de bispos “policiarem” outros bispos, apontando para o caso do ex-cardeal Theodore McCarrick, que foi retirado do sacerdócio após acusações de que ele abusou sexualmente de menores e assediou seminaristas adultos.

O cardeal de Boston, Seán O’Malley, que atua como presidente da comissão vaticana encarregada de proteger as crianças, disse que os bispos norte-americanos deveriam levar em consideração a adoção de uma linguagem que imponha rapidez no que se refere à resposta a acusações de má conduta ou de má gestão contra os bispos.

Ele observou que, uma vez que o Vaticano seja informado de uma acusação, ele tem 30 dias para responder e fornecer mais instruções ao bispo metropolitano. O cardeal O’Malley disse que esse prazo pode não funcionar nos Estados Unidos, dizendo que “esperar um mês antes de começar a investigação (...) está muito longe da prática usual”.

“Eu me pergunto se podemos pedir que a Santa Sé responda rapidamente”, acrescentou.

No começo do dia, o cardeal Daniel DiNardo, presidente da USCCB e arcebispo de Galveston-Houston, disse que os bispos devem agir com ousadia.

“Irmãos, nós nos reunimos nesta semana para promover a obra sagrada de erradicar o mal dos abusos sexuais da nossa Igreja”, disse o cardeal DiNardo. Ele disse que os bispos devem “responder ao chamado do Papa Francisco à responsabilização universal” e “acrescentar novos procedimentos claros aos nossos programas de proteção existentes”.

O cardeal DiNardo enfrentou acusações recentes de ter lidado mal com um caso envolvendo um padre que mantinha um caso com uma mulher a quem o padre estava aconselhando sobre problemas conjugais. Em novembro, o escritório do cardeal foi invadido por policiais que investigavam acusações de que um padre de Houston agrediu sexualmente dois adolescentes décadas atrás. O cardeal DiNardo negou as irregularidades em ambos os casos, mas isso não impediu que alguns católicos pedissem que ele renunciasse à presidência da conferência dos bispos dos EUA.

“É muito difícil ver como a Conferência pode continuar desse modo, com um presidente que é ainda pior do que uma carta fora do baralho”, disse à CNN o historiador da Igreja Massimo Faggioli, da Villanova University. “A credibilidade dos bispos dos EUA está em queda livre, e isso só pode ser impedido por uma mudança visível na liderança.”

Além da proposta sobre como lidar com as investigações dos bispos, espera-se que o órgão episcopal vote nesta semana a instituição de um sistema terceirizado para que as pessoas façam as denúncias de má conduta ou de má gestão contra bispos e um código de conduta para os bispos. Eles devem votar uma declaração de 10 pontos, intitulada “Afirmando nossos compromissos episcopais”, na qual os bispos esperam recuperar “a confiança do povo de Deus” e se comprometem com os padrões aplicados aos padres na “Carta para a Proteção de Crianças e Jovens”.

O documento, apresentado no dia 11 de junho pelo cardeal Joseph W. Tobin, de Newark, presidente da Comissão Episcopal sobre o Clero, a Vida Consagrada e as Vocações, foi atualizado em relação a uma versão enviada aos bispos em maio. O documento anterior, intitulado “Reconhecendo nossos compromissos episcopais”, tinha nove pontos. A versão atual tem 10.

O ponto mais novo diz: “Também estamos comprometidos (...) a incluir o conselho de homens e mulheres leigos, cujas experiências profissionais são indispensáveis”.

Outros pontos do documento proposto incluem proibições explícitas de assédio sexual contra adultos, reiterando “que não pode haver uma ‘vida dupla’, nem ‘circunstâncias especiais’, nem uma ‘vida secreta’ na prática da castidade” e uma promessa de promover procedimentos para relatar acusações de abuso ou de má conduta.

Pouco depois da sua discussão sobre o abuso sexual, os bispos ouviram uma apresentação de Dom Robert Barron, bispo auxiliar de Los Angeles, sobre o grande número de jovens católicos que estão deixando a Igreja. Os temas da discussão incluíram as distrações dos dispositivos eletrônicos, uma necessidade de falar mais abertamente sobre religião aos jovens no estilo do polêmico astro do YouTube Jordan Peterson e o impacto da “terra devastada do ateísmo”, como disse Dom Joseph Naumann, arcebispo de Kansas City.

Um item não mencionado como uma das principais razões pelas quais os jovens estão abandonando a Igreja: a crise dos abusos sexuais.

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