Cardeal Tobin: “Espero que as mulheres continuem a falar a verdade”

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11 Janeiro 2018

O Cardeal Joseph W. Tobin, C.Ss.R., foi nomeado pelo Papa Francisco para o Colégio Cardinalício em 09-10-2016 quando era arcebispo de Indianápolis. Na véspera do anúncio, ele participou de um painel juntamente com Dom Charles Thompson, da Diocese de Evansville, do evento “Women of the Church Catholic”, congresso realizado na cidade de Ferdinand, em Indianápolis. Eu fui a moderadora do debate.

A entrevista é de Kimberly F. Baker, publicada por America, revista dos jesuítas norte-americanos, 08-01-2018. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Em 06-01-2017, Tobin foi instalado como arcebispo de Newark, e Thompson foi, mais tarde, nomeado como o seu sucessor na Arquidiocese de Indianápolis. Tobin e eu nos encontramos novamente em agosto de 2017 para reavivar o nosso diálogo sobre a mulher na Igreja Católica.

Eis a entrevista.

O Papa Francisco capturou a atenção de muitas pessoas com o seu chamado a uma presença feminina mais incisiva na Igreja. O que acha que ele tem em mente?

Penso que ele fala em diferentes níveis, porque Francisco acredita em um senso de colegialidade e subsidiariedade. Ele respeita bastante as igrejas locais, mas ainda mais pelas redes das igrejas locais. Acho que o papa não pensa apenas no comando da Igreja em nível universal, mas também tem em mente os seus irmãos bispos. Ele diz que é preciso garantir que os dons das mulheres se reflitam na Igreja local a eles confiada.

Antes de ser ordenado, cada bispo precisa preencher alguns formulários em que profere a profissão de fé e declara-se em união com o magistério da Igreja, mas também reconhecendo a sua própria responsabilidade de discernir os dons que são dados à Igreja local e de coordená-los. Creio que é também neste nível que o Santo Padre está à espera de uma nova visão e um novo horizonte.

Parece que as pessoas estão ouvindo de um modo renovado o que o Papa Francisco diz. Sabe dizer por que razão isso acontece? Pois ele não é o primeiro a falar sobre os dons das mulheres.

Permita-me fazer uma analogia. Assim como os papas anteriores, Francisco carrega o título de servus servorum Dei, “o servo dos servos de Deus”. Ele vem vivendo isto de um jeito bastante visível, através da simplicidade de vida, através de seu despojo de qualquer pompa e circunstância, por sua escolha preferencial pelas pessoas que normalmente não teriam acesso ao papa.

A esperança que tenho é que ele não venha a se contentar com uma espécie de ideologia, pois, como diz em “A Alegria do Evangelho”, a realidade é muito mais importante do que as ideias. Se eu estivesse a conversar com ele em inglês americano, diria: “Às vezes, é preciso passar a bola”. É preciso associar algumas escolhas concretas com aquilo sobre o que se fala.

Quais são os exemplos de escolhas concretas, ações concretas, que ele deu para mostrar que não se trata de ideologia, mas de uma realidade?

Creio que um [exemplo] certamente é a comissão de estudos nomeada por ele para analisar a questão da mulher no diaconato. Para mim, o mais significativo não foi simplesmente que ele ter nomeado esta comissão, mas quem ele pôs nela. Daqui da América do Norte, tivemos a feliz surpresa de que Phyllis Zagano, uma mulher bastante erudita e também uma pessoa bastante bem posicionada sobre o tema, faz parte da comissão. Assim que ouvi essa notícia, disse: “Essa comissão vai ter credibilidade”.

Acho que as demais pessoas da comissão, embora não as conheça, darão uma maior credibilidade ao grupo também. O que o papa fará com essa comissão vai ser interessante. Eu acho que é um sinal de esperança.

Há uma mulher que é a atual reitora de uma das universidades pontifícias de Roma [A Irmã Mary Melone, SFA, da Pontifícia Universidade Antonianum], o que é mais um indicativo de que, na área acadêmica, as mulheres já desempenham um papel, até mesmo dentro da cultura clerical. Estas são as portas que se abrem. Me parece que estes são alguns poucos exemplos.

Quais são alguns exemplos de colaboração que o senhor teve com as mulheres?

Um estudo foi feito pelo CARA, o Centro de Pesquisas Aplicadas no Apostolado, sobre o papel da mulher na condução diocesana. Uma das pressuposições do estudo era: Quais são os cargos mais significativos ou incisivos para as mulheres em nível diocesano? Três foram nomeados: o de chanceler, o de superintendente das escolas e o de chefe de finanças.

Em Indianápolis – e aqui não devo receber crédito algum, e sim o meu querido antecessor –, dois em cada três funcionários eram mulheres. Eu costumava brincar com o chefe financeiro da época, que era homem: “Quer saber, poderíamos propor três em cada três aqui, o que acha?”. A chanceler e a superintendente das escolas certamente trouxeram para aquele nível dons e ideias sem as quais teríamos visto um empobrecimento.

Isso me convence de algo que Bento XVI costumava dizer, com certa frequência, sobre a vida religiosa. Ele dizia que uma diocese ou Igreja particular que não tem religiosos empobrece. Isso não significa que não possa funcionar, mas funciona com um ou com os dois braços amarrados atrás das costas. Claro, podemos dizer que, mesmo neste exemplo, Bento está falando a respeito das mulheres, pois elas formam 80% da vida religiosa. Eu penso que, analogamente, não consigo imaginar uma diocese que queira ministrar na plenitude da missão da Igreja sem ter a voz feminina representada em suas decisões.

Na Arquidiocese de Indianápolis, conheço particularmente Annette “Mickey” Lentz, que trabalha como chanceler. Ela está em vários lugares que, em geral, não esperaríamos ver uma leiga atuando.

Ela esteve presente e foi participativa no conselho dos padres, no colégio dos diretores e em todos os níveis do comando arquidiocesano. Ela é o rosto da arquidiocese.

O que o motiva a promover e incentivar mais mulheres nos espaços de decisão, seja em nível local, seja em nível da Igreja universal?

Acho que um dos valores mais profundamente guardados são os valores que vivenciamos quando crianças. Crescer numa família que tinha muitas mulheres – uma mãe, suas duas irmãs que viviam com a gente e as minhas oito irmãs – e vê-las todas encorajadas e confiantes em si próprias, com uma conexão muito forte e não forçada com a religiosidade delas, tem me incentivado. Na verdade, pessoas me agradecem ou me desafiam por posturas que tomei no passado. Explico que essas coisas não são algo sobre o que eu preciso pensar muito a respeito.

O que me ocorreu nos anos que se seguiram, especialmente os anos de ministério, é de estar cada vez mais ciente dos inúmeros motivos as mulheres têm para abandonarem a Igreja – todo o tipo de desrespeito, e inclusive mais do que desrespeito. Se olharmos para os Evangelhos, Jesus não critica as pessoas por oprimirem abertamente os pobres. O que o faz agir assim é ignorá-los, deixar de enxergá-los. E eu penso que isso é verdadeiro com as mulheres, que muitas vezes, em especial fora da América do Norte, constituem os verdadeiros pobres. O primeiro pecado é não os ver e seguir em frente no próprio caminho. Ou, se os ver, atravessar para o outro lado da rua.

As orientações para a formação nos seminários publicadas em dezembro de 2016 pelo Vaticano [a “Ratio Fundamentalis Institutionis Sacerdotalis”] falam do “valor formativo próprio” que tem a presença da mulher no percurso formativo dos seminaristas. [Como coordenador da Comissão para o Clero, a Vida Consagrada e as Vocações da Conferência dos Bispos Católicos dos Estados Unidos], o senhor irá coordenar o processo de implementação destas diretrizes aqui nos Estados Unidos. Quando pensa sobre a formação nos seminários, em particular sobre a formação de seminaristas para uma relação saudável e colaborativa com as mulheres, o que espera ver nos próximos dez anos?

Primeiramente, há o desafio mais amplo do clericalismo, que não só é uma mentalidade potencialmente misógina, mas uma mentalidade fechada. É uma mentalidade fechada que acredita em certos privilégios e direitos. Francisco está desafiando isso.

Penso que um elemento importante não é simplesmente expor [os seminaristas] a mulheres em relações saudáveis, mas relações que, por vezes, tornam um clérigo subordinado a uma mulher. Acho isso muito interessante em Indianápolis, pois há mulheres no CARA que supervisionam clérigos, padres e mesmo monsenhores. Creio que a capacidade de se relacionar desta maneira com uma mulher também é importante. Em minha própria formação, antes da ordenação e logo depois de ordenado, tive supervisoras, como uma catequista, e, depois, como agente comunitária, e foi uma coisa boa.

O senhor observou que, às vezes, algumas mulheres deixam a Igreja porque sentem que não são vistas ou que não há lugar aí para os dons que elas trazem. Estudos recentes mostram que, entre os membros da geração millennial, pela primeira vez nos EUA mais católicas jovens estão deixando a Igreja do que jovens católicos. O que o senhor diria a uma jovem que está pensando em sair da Igreja?

Ouço esse tipo de pronunciamento com triste frequência. Sempre pergunto: “O que você acha que está deixando?” Pelo menos em minha crença, não se trata uma organização qualquer, um clube de velhos amigos, ou algo assim. Trata-se do Corpo de Cristo, e é onde se proclama a sua Palavra e onde se celebram os sacramentos. Eu não deixaria ninguém me tirar daí. Ao dizer isso, não quero minimizar o tipo de distanciamento que essas jovens sentem.

Penso que os bispos precisam se preocupar e muito quanto a isso, pelas implicações incríveis que há. Tive um amigo muito bom, escritor na Inglaterra, que era ateu professo. Ele dizia que um dos seus grandes obstáculos foi que os seus pais eram ateus, porém sua mãe o era mais fortemente. Ele disse que, para ele, é mais duro superar, porque, de tudo o que recebeu de sua mãe, ele também teve esta influência. É este daí a quem poderemos estar procurando numa escala maior caso as jovens não sintam mais uma conexão com a Igreja enquanto sacramento de salvação. Eis algo realmente grave.

Penso que um modo como podemos responder aqui é ter as mulheres que permanecem na Igreja sendo abertas e eloquentes quanto aos motivos. Para dizer, apesar das decepções e dos sofrimentos, os motivos pelos quais estão aí.

Ao olhar para o futuro, quais as suas esperanças para as mulheres na Igreja?

Primeiramente, espero que elas acolham a Igreja como o lar delas. Lembro que, em 2010, prometi conduzir um retiro para as nossas irmãs irlandesas, na Irlanda. Havia uma enorme turbulência, e ainda há, acontecendo na Igreja local. Havia muita fúria para com a Igreja institucional. Eu dizia: Mas onde vocês ouvem a Palavra de Deus? Onde celebram a Eucaristia? Que Igreja é essa? É o lar. Isso mesmo.

A minha definição favorita de heresia é a de uma indisposição para lidar com a complexidade. É um desejo de simplificar as coisas. Espero que a complexidade do mistério da Igreja seja sempre reverenciada. E que as pessoas não percam a fé no poder de Cristo, presente em sua Igreja. Em seguida, a pessoa se acomoda por algo menor.

Espero que as mulheres continuem a falar a verdade e a falar a verdade ao poder quando preciso for. E, acima de tudo, que não percam o senso de alegria. Que não percam a alegria que temos por causa do amor incrível de Deus.

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