O poder das mulheres na Igreja. Judite, Clara e as outras

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27 Fevereiro 2017

A questão do papel das mulheres na Igreja católica afeta diretamente o nó do poder pastoral e das estruturas do catolicismo. Isso é confirmado de maneira inequívoca no livro Il potere delle donne nella Chiesa. Giuditta, Chiara e le altre (Corocci editore, p. 248, Euros 18), a recente publicação de Adriana Valerio, historiadora do cristianismo e autora de importantes contribuições sobre o conflito de gênero na história da Igreja.

O comentário é de Alessandro Santagata, publicado por Il Manifesto, 14-01-2017. A tradução é de Luisa Rabolini.

Sua reflexão parte da recente intervenção do papa Francisco com o objetivo de instituir um grupo de estudo sobre o diaconato feminino. Trata-se da última de uma série de intervenções que “reacende questões antigas, suscitando esperanças e oposições que, mais uma vez, indicam que é o poder dentro da Igreja que está em jogo”. “Se o ministério fosse de fato – prossegue Valerio – realmente entendido e vivenciado como serviço, não haveria obstáculo algum para que fosse permitido também às mulheres. Mas evidentemente não é esse o caso. As mulheres permanecem ‘a serviço’, mas não desempenham nenhum papel decisório”.

O tema do “serviço” nos seus múltiplos significados representa o fio condutor com o qual é possível ler a ampla análise, embora sintética, proposta pela autora. Nas Escrituras, por exemplo, por um lado há referências a contextos culturais nos quais a mulher está submetida às instituições de uma sociedade patriarcal e hierárquica, e pelo outro não faltam episódios de remetem à condição real da mulher no Oriente antigo e abrem horizontes para uma possível emancipação. É preciso ler por esse enfoque a ambivalente figura de Ester que por meio da sedução dobra o domínio masculino aos seus próprios fins. O mesmo instrumento usado por Judite que se torna o emblema da fragilidade do poder.

Trata-se de um poder ambivalente que pode resultar decisivo para a sorte de Israel, mas que ao mesmo tempo assusta e carece de normas de controle. Nesse contexto – explica ValerioJesus e a sua comunidade subvertem as regras de pureza e impureza e integram plenamente as mulheres em seu projeto de refundação religiosa. Para Paulo de Tarso “não pode haver homem nem mulher, pois todos sois um em Cristo”. Mesmo assim o cristianismo apresenta entre as suas aporias o fato de ter posto em discussão as relações de poder entre as pessoas, repropondo-as de forma bem evidente desde o primeiro processo de clericalização entre o II e III séculos.

Assim vai se conformando uma “teologia do pecado” que se alimenta de uma interpretação forçada das cartas paulinas e que “irá ver a mulher como responsável em primeira pessoas de um débito infinito frente a um Deus ofendido e punitivo”. Chegamos assim ao âmago do estudo: a exclusão do sacerdócio, motivada por Tomás em base à sujeição natural do gênero feminino, a estratificação de uma antropologia negativa direcionada a estigmatizar a sexualidade da mulher (“fraca no corpo e imperfeita na razão”), e concomitantemente a presença de mulheres em diversas posições de poder.

A autora apresenta-nos um panorama povoado por diaconisas e abadessas, às vezes dignitárias de poderes feudais e semi-episcopais, e de protagonistas de novas experiências, como no caso de Clara de Assis que se apresenta como “madre que não domina mas governa”. Fecham a resenha algumas grandes figuras do século XX como Dorothy Day, fundadora em 1933 do movimento Catholic Worker, Eileen Egan, diretora da seção norte-americana da Pax Christi e Barbara Ward, economista de renome e “auditora” no Concílio Vaticano II. Falando sobre a atualidade da Igreja de Bergoglio, Valerio auspicia uma profunda mudança capaz de conciliar a religião com a transformação ocorrida no paradigma antropológico.

O Catolicismo é chamado a “experimentar novas modalidade de autoridade fecunda, criativa e compartilhada” evitando sua assimilação pelas categorias politico-androcêntricas do passado, redescobrindo o sacerdócio como real “serviço” e a mensagem originária do Cristo libertador e subversivo. O nó político a ser desatado refere-se principalmente à Igreja, mas as implicações entre religioso e secular analisadas nesse livro permitem a intuição de potencialidades civis de uma reforma desse nível em uma sociedade ainda fortemente andocêntrica.

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