Livro explora origens argentinas do Papa Francisco

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16 Janeiro 2015

"Entrevistas com colaboradores jesuítas e alunos permitiram que Ivereigh traçasse uma imagem do futuro papa como um Superior carismático, querido, humilde. Bergoglio ensinou uma vida jesuíta de simplicidade, piedade e estudo, e quis que seus alunos soubessem da vida e do trabalho dos pobres. Junto de seus alunos, ele cozinhava, limpava, rezava e sorria", escreve Arthur Liebscher, presidente do departamento de História da Santa Clara University, na California, em resenha publicada pelo National Catholic Reporter, 14-01-2015. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Eis a resenha.

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THE GREAT REFORMER: FRANCIS AND THE MAKING OF A RADICAL POPE

[O Grande Reformador: Francisco e a construção de um papa radical]
De Austen Ivereigh
Publicado por Henry Holt and Co.

Austen Ivereigh, estudioso britânico da Igreja latino-americana, realizou uma extensa pesquisa para produzir uma análise completa, precisa e envolvente do fenômeno que é o Papa Francisco.

O livro, essencialmente uma biografia, situa Francisco dentro do contexto social, político e teológico de sua terra natal. Em sua maior parte, a obra apresenta a vida de Jorge Mario Bergoglio antes do papado – um jesuíta e mais tarde bispo cuja liderança tanto inspirou quanto dividiu os seus companheiros argentinos. Ivereigh explora as origens, o desenvolvimento e a influência de Bergoglio, e apresenta as críticas públicas dirigidas a ele, críticas vindas de círculos religiosos e políticos.

O primeiro capítulo, como os que se seguem, apresenta um episódio do primeiro ano de Francisco como papa – aqui, a visita a refugiados na ilha italiana de Lampedusa – para abrir as portas ao passado de Bergoglio. O capítulo evoca a situação de uma família imigrante italiana de classe média baixa enquanto o desgastado sistema de exportação da Argentina deslizava-se num autoritarismo militar que iria desembocar no populismo estável de Juan Perón. Encontramos um jovem Jorge como um intenso, ativo e, às vezes, doentio em grande parte influenciado por seus professores e mentores. Entre estes figuraram várias mulheres, incluindo uma marxista, sua supervisora de quando ele trabalhava como técnico em química.

Ivereigh destrincha as ideias convergentes de Bergoglio sobre liderança, Igreja e teologia na década de 1970, quando estudou teologia, trabalhou como mestre dos noviços e, então, ainda a completar 37 anos, se tornou provincial jesuíta.

Os jesuítas argentinos, como grande parte da Igreja ocidental, foi tanto inspirada quanto deixou-se dividir pelo Concílio Vaticano II, bem como pela turbulência da política no país. Enquanto ainda era um aluno jesuíta, Bergoglio assessorava peronistas em idade universitária de um segmento que representava o populismo dominante, reforma que foi, pelos padrões argentinos, moderada, enfatizando a tradição religiosa e o rigor apostólico e que chegou a caracterizar a visão de mundo e atividade de Bergoglio.

Ao rejeitar tanto as ideologias de direita quanto as de esquerda, a visão de Bergoglio configurou-se em torno de uma opinião às vezes chamada de “la teología del pueblo”. Surgindo aproximadamente na mesma época da Teologia da Libertação e do movimento argentino “Sacerdotes para o Terceiro Mundo”, esta teologia do povo enfatizou a experiência de fé das pessoas comuns enquanto que, ao mesmo tempo, tentava evitar o conflito de classes, a teorização social ou o ativismo político implicado em outros movimentos. Ivereigh chama esta visão de a “hermenêutica (…) que iria permitir-lhe reformar e unir a província [jesuíta], para além da ideologia, focando-se diretamente nos pobres”.

Entrevistas com colaboradores jesuítas e alunos permitiram que Ivereigh traçasse uma imagem do futuro papa como um Superior carismático, querido, humilde. Bergoglio ensinou uma vida jesuíta de simplicidade, piedade e estudo, e quis que seus alunos soubessem da vida e do trabalho dos pobres. Junto de seus alunos, ele cozinhava, limpava, rezava e sorria.

Esta intensa lealdade atraiu admiração e discípulos. Ao modelarem-se no exemplo de seu professor e líder, as inclinações do líder se tornaram as inclinações deles, discípulos, e seus membros cresceram para formar uma pluralidade entre os jesuítas argentinos: mais jovens, fervorosos, focados nos pobres, em sua prática religiosa tradicional, e não poucas críticas para com aqueles com inclinações e interesses diferentes. Divisões começaram a se originar entre os jesuítas.

A eleição papal trouxe à baila velhas acusações a respeito da cumplicidade de Bergoglio durante os anos de repressão que se seguiram ao golpe de Estado, em 1976. O estimado ativista dos direitos humanos Emilio Mignone primeiramente publicou a acusação de que Bergoglio, como provincial, havia apresentado os jesuítas Franz Jalics e Orlando Yorio para serem detidos e torturados. Esta acusação foi duramente contrariada por Horacio Verbitsky, ex-guerrilheiro de esquerda e hoje editor de um jornal e escritor. Simpático a Francisco, Ivereigh não obstante avalia as provas objetivamente enquanto descreve os esforços de Bergoglio para proteger os dois homens.

Ivereigh também aborda a ideia de que Bergoglio pecou não por colaboração direta, mas por cumplicidade à opressão através do silêncio. É mais fácil acusar uma omissão culpável do que contestá-la, mas o livro tenta colocar Bergoglio dentro de uma Igreja movendo-se da confusão conflitiva em direção à percepção amedrontada. O autor sustenta que, independentemente do que Bergoglio sabia ou suspeitava, qualquer declaração pública iria, irresponsavelmente, pôr em perigo os jesuítas que trabalham no país.

Em meados da década de 1980, Bergoglio trabalhou como mestre de noviços, provincial e reitor do Colégio Máximo, sediado em San Miguel, na região metropolitana de Buenos Aires. O seu carisma forjou um quadro formidável de seguidores, talvez 40% dos jesuítas argentinos. Piedosos, populistas e críticos dos apostolados tradicionais, os homens de Bergoglio involuntariamente provocaram um distanciamento entre os jesuítas como grupos que observavam uns aos outros como supostos adversários.

Ivereigh entende esta divisão como uma divisão criada pela oposição dos progressistas antigos para com a escolha de Bergoglio, de profunda inculturação. Ele também nota que a disputa se deu em torno do homem Bergoglio bem como em torno de sua forma de pensar.

Em 1985, o Geral jesuíta orientou um novo provincial, Victor Zorzín, a limpar a província das influências de Bergoglio, em San Miguel. Zorzín mudou a sede provincial de San Miguel para Buenos Aires e enviou o Bergoglio, então com 50 anos de idade, estudar no exterior, Alemanha. Bergoglio rapidamente viu que este novo arranjo incluia mudanças nada boas. Voltou para casa e se viu comprometido com afazeres pastorais em Córdoba, mais de 600 km de Buenos Aires.

Ivereigh quer responder aos críticos de Bergoglio, e o livro apresenta o jesuíta como um profeta mal compreendido e exilado. A obra pode deixar escapar partes da importância do conflito para ambos os lados. Zorzín precisou ser decisivo, mas ele quase não mereceu a comparação usual com os generais que se seguiram a Verón.

Tampouco é justo repetir as acusações de que o próximo provincial, Ignacio García-Mata, pediu a Bergoglio para se mudar da comunidade jesuíta, pois se sentia ameaçado pela popularidade do novo bispo junto aos religiosos mais jovem. Esta versão ignora que tanto a angústia de García-Mata quanto o equívoco de Bergoglio quanto ao seu impacto na vida comum.

Ao mesmo tempo, o livro poderia prestar mais atenção à crise interior de Bergoglio – tão evidente que causou preocupação entre os jesuítas argentinos de todos os quadrantes. Os últimos anos da década de 1980 foram tempos difíceis, mas a crise foi fundamental para forjar o homem que vemos hoje.

A nomeação de Bergoglio como bispo tirou-lhe de um conflito em sua própria casa pondo-o num ambiente bem maior. Os últimos capítulos do livro fornecem uma riqueza de informações sobre o seu crescimento tanto na argentina quanto no episcopado mundial. Eles oferecem um olhar fascinante para dentro de seus vínculos junto aos católicos carismáticos bem como junto aos evangélicos, muçulmanos e, como já é sabido, junto à comunidade judaica local. Os conflitos recorrentes entre Bergoglio e a ressentida e invejosa presidente Cristina Kirchner merecem um estudo separado.

Ivereigh apoia a ideia de que o futuro da Igreja encontra-se no vigor da América Latina e no resto do hemisfério sul, e não nas disputas desgastadas do Atlântico Norte. A renovação que se emana do sul global, especialmente da América Latina, irá trazer mais do que um exemplo teológico originado na experiência dos marginalizados. Por todos os seus desafios, a Igreja sul-americana tem a confiança em sua identidade entre as pessoas; a sua experiência católica remonta aos velhos tempos. A cultura latino-americana se foca nas relações mais do que no individualismo, e goza de uma relativa tolerência, inclinada a abraçar/acolher em vez de condenar.

As coisas pequenas contam também. A lendária simplicidade de Francisco deriva da notável frugalidade de sua classe social, e a sua maneira afetuosa marca tanto os latino-americanos em geral quanto os argentinos em particular. Até mesmo o seu estilo pé no chão reflete aquele esperado dos líderes argentinos pós-Perón.

Impresso apenas 20 meses depois da eleição de Francisco, o livro The Great Reformer reúne uma vasta quantidade de testemunhos – orais e escritos – para explicar as origens e a carreira deste papa e sugerir aonde ele poderia estar indo. Inevitavelmente, pequenos erros aparecem, mas nada sério. Ivereigh aprofunda a nossa compreensão de um homem cuja personalidade e profecia podem mudar a Igreja Católica para sempre.

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