"Os 100 melhores dias da história papal, com mais consequências desde Inocêncio III", diz especialista

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04 Julho 2013

Foi apenas mais um fim de semana no escritório para o Papa Francisco, mais uma série de ações, palavras e gestos que o mantiveram como uma presença fixa na mídia internacional desde a sua eleição do dia 13 de março. No dia 15 de junho, ele deu um grande passo rumo à reforma do Banco do Vaticano, arruinado por escândalos, ao nomear um dos seus homens, o Mons. Battista Ricca – que também dirige o hotel vaticano onde Francisco vive –, como prelado interino para supervisionar a gestão do banco.

A reportagem é de Brian Bethune, publicada no sítio McLean's, 28-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No dia seguinte, enquanto vários milhares de motociclistas se reuniram ao longo da Via della Conciliazione em Roma, a principal avenida que leva à Praça de São Pedro, como parte das celebrações do 110º aniversário da Harley-Davidson, Francisco chegou em seu jipe aberto e deu-lhes a sua bênção. Em seguida, ele presidiu uma missa campal na praça, repleta de católicos comuns, freiras e padres em hábitos religiosos, e motociclistas com jaquetas da Harley.

A combinação perfeita de estilo e de substância de Francisco às vezes no mesmo ato – a sua decisão sem precedentes de ficar no calor sufocante de Roma ao longo de julho expressa tanto a sua solidariedade com os romanos sem os meios necessários para possuir uma casa de verão e também lhe permite manter o seu cronograma de trabalho – é a nova norma papal. O papa, aos olhos da maioria dos observadores vaticanos, alterou tanto o tom do papado – o rosto que ele apresenta aos fiéis e ao mundo em geral – que o estilo se tornou substância. "Mesmo que ele morresse amanhã", comenta Michael Higgins, um distinto intelectual católico canadense, hoje professor da Universidade do Sagrado Coração em Fairfield, Connecticut, "eu não acredito que o seu sucessor conseguiria voltar aos velhos tempos".

Para Higgins, "esses foram os 100 melhores dias da história papal, provavelmente os dias com mais consequências desde Inocêncio III". Ao falar em consequências, Higgins se refere a algo diametralmente oposto: quando Inocêncio subiu ao trono papal há 815 anos, o seu reinado completou a apoteose do herdeiro do pescador em governante da Cristandade, uma figura suspensa entre o céu e a terra. Francisco, por outro lado, "iniciou um processo de desmistificação do ofício que tem sido tão abrangente quanto transformar a House of Windsor [sede real do Reino Unido] em uma monarquia escandinava – de Bento XVI até ele, foi como ir do landau londrino a andar de bicicleta em Copenhague".

Jorge Mario Bergoglio, o ex-cardeal arcebispo de Buenos Aires – o primeiro papa em termos de nome papal, nacionalidade, continente e ordem religiosa – começou a trilhar o seu caminho diferente imediatamente após a sua eleição, pedindo que a multidão de São Pedro rezasse por ele, em vez de oferecer-lhes uma bênção. Ele subiu em um micro-ônibus para voltar para o seu hotel, em vez de usar a limusine papal. Ele usa uma cruz simples, sem joias pontifícias. Ele vetou os habituais bônus pela mudança de regime pagos aos empregados vaticanos (que em média somaram 2.100 dólares depois que Bento XVI foi eleito). Ele vive em uma casa de hóspedes vaticana, não nos apartamentos papais, onde ele toma café da manhã com a equipe e outros convidados, falando livremente com todos eles. Contra todos os costumes, ele usa os elevadores com outros passageiros. Ele tem palavras amáveis para com os ateus e fala até mesmo da possibilidade da sua salvação, ao menos se forem dedicados ao serviço dos pobres.

Ele lavou os pés de mulheres assim como de homens, muçulmanos e também católicos, em uma versão sem precedentes e até mesmo chocante do antigo ritual da Quinta-Feira Santa. Ele se refere a si mesmo quase sempre não com qualquer um de seus títulos exaltados, como Vigário de Cristo, mas como bispo de Roma, um ofício pastoral. Ele condenou "o culto do dinheiro" e o sofrimento imposto pelas medidas de austeridade na Europa, a "escravidão" na indústria têxtil de Bangladesh, e a Máfia. Ele prega sobre o diabo tão frequentemente quanto sobre São Francisco. Ele até pode ter realizado um exorcismo na Praça de São Pedro. De forma mais desconcertante, ele diz o que pensa enquanto o pensa. Existem pessoas santas na Cúria, a burocracia vaticana, disse Francisco a um grupo de religiosas e religiosos latino-americanos que foram lhe visitar, mas também uma "corrente de corrupção" e uma rede de homens gays: "Vamos ter que ver o que podemos fazer".

Na opinião de Arthur Liebscher, jesuíta norte-americano que muitas vezes o encontrou na Argentina nos anos 1980, Francisco parece estar trabalhando os seus pensamentos – em voz alta, em público – com relação aos problemas exatos perante a maior Igreja do mundo e ao que deve ser feito a respeito, com muito pouca referência a precedentes ou ressentimentos. Ele está engajado em uma "reescrita radical do seu ofício, de um púlpito teocrático a um ministério", diz Higgins, que acredita que o comentário mais revelador que Francisco já fez sobre os seus objetivos pontifícios ocorreu em uma missa apenas duas semanas depois da sua eleição. Os padres, disse o papa, mais uma vez abandonando o texto preparado e claramente incluindo a sua versão, devem estar perto das pessoas, "pastores com cheiro de ovelhas".

Tudo isso fez de Francisco o papa mais descontroladamente imprevisível em séculos. Perigosamente imprevisível, de fato, para aqueles que investiram pesadamente no status quo eclesiástico. Isso inclui burocratas de nível inferior para os quais a manutenção do protocolo papal, da fidelidade litúrgica e do cerimonial de corte é a "sua vida", como indica Higgins, e aqueles que se encontram muito mais alto na cadeia alimentar vaticana, onde a má conduta foi historicamente varrida para debaixo do tapete. Aqueles que forem pegos nadando na "corrente da corrupção", desta vez, não podem esperar um fim suave.

Mudança e reforma

Sem dúvida alguma, apesar do ritmo deliberado até agora – a nomeação ao banco foi uma das primeiras movimentações de pessoal importantes –, com este papa, uma mudança enorme está ocorrendo na Igreja. Na mesma conversa em que ele meditou sobre "o que podemos fazer" com relação à Cúria, Francisco acrescentou que "os cardeais da comissão vão fazer com que ela vá para a frente" em outubro, quando eles começarem a indicar recomendações a ele.

Ele estava se referindo aos oito cardeais de todos os continentes aos quais ele nomeou para assessorá-lo na reforma da burocracia. O painel, que tem apenas um cardeal vaticano, é composto pelos mais severos críticos da Cúria, todos homens que também são (ou eram), como Francisco, pastores de suas dioceses. Eles incluem Sean Patrick O'Malley, atualmente arcebispo de Boston, EUA, e frei capuchinho que conquistou um enorme respeito pela forma franca com que ele enfrentou o seu cruel destino, limpando as situações de abuso sexual que ele herdou em todas as dioceses onde ele atuou, e George Pell, arcebispo de Sydney, Austrália, que foi talvez o crítico mais ferrenho da Cúria nas reuniões pré-conclave dos cardeais.

Os participantes dessas discussões perseguiram limites de mandato para os cargos vaticanos, para impedir que os padres se tornassem burocratas de carreira, e exigiram que o Vaticano tirasse o sigilo das suas finanças opacas através de melhores relatórios financeiros. Praticamente todos, incluindo o cardeal Bergoglio, concordaram que a burocracia precisava de uma brusca mudança de direção, orientada para servir os bispos em suas dioceses, e não o contrário.

O papado continua sendo uma monarquia absoluta, no entanto, e os oito cardeais são conselheiros, não legisladores. No fim, Francisco irá fazer o chamado. Os observadores vaticanos naturalmente tentam ler as entrelinhas das suas observações fora do roteiro em busca de pistas sobre as futuras ações – não é uma tarefa fácil, como mostrado pelo seu reconhecimento, notável principalmente pela sua franqueza, da presença de homossexuais na Cúria. Não há nenhuma forma de se ter certeza do que Francisco realmente disse, muito menos do que queria dizer: as notas em espanhol que os seus visitantes fizeram depois do encontro usam uma expressão derivada do inglês ("lobby gay"). O papa, que supostamente entende inglês muito melhor do que fala, pode ter citado esse rótulo inglês agora padrão, "gay lobby", ou pode ter dito alguma coisa que os seus ouvintes processaram como tal. Também não é possível determinar quão hostis foram as suas considerações: pela evidência das notas que vazaram, Francisco não ligou a corrupção com os clérigos gays.

Alguns observadores conectam o pensamento do papa com o seu histórico cultural – a clássica mistura latino-americana de conservadorismo doutrinário e radicalismo econômico. "Mesmo para a América do Sul, a piedade de Francisco é tradicional", diz o padre Liebscher, especialista em história argentina que leciona na universidade jesuíta Santa Clara, na Califórnia. Liebscher concorda com aqueles que, como Michael Higgins, veem o jesuíta no papa como um dos indicadores mais claros para as suas futuras ações – "o ascetismo, a indiferença a cargos e a vantagens do ofício, a dedicação ao serviço, e a Igreja Católica Romana como a Igreja dos pobres ", nas palavras de Higgins – com uma ressalva: Bergoglio é um jesuíta argentino, formado espiritualmente em um caldeirão social e religiosa distinto.

Jesuítas

Desde a sua fundação durante a Reforma católica, os jesuítas tiveram uma relação complicada com o papado, às vezes sendo os agentes favoritos da vontade papal – "respondendo àquelas necessidades que de outra forma não seriam preenchidas", diz Liebscher. "Historicamente, isso sempre significou educação e missões, embora hoje as missões são para os marginalizados, não para os gentios". Em outros períodos, porém, a ordem foi suprimida ou vista com desconfiança pelo seu veio intelectual ousado e rebelde, como na América Latina durante o apogeu da teologia da libertação nos anos 1970, depois condenada pelo Vaticano por se desviar ao território intelectual marxista. Não é por acaso que nunca antes houve um papa jesuíta.

Liebscher estudava em Santa Fe, 400 km a noroeste de Buenos Aires, em 1987, quando Bergoglio veio para ficar por algumas semanas. "Ele não falava muito – estou impressionado como ele é tagarela como papa –, e o que todos nós notamos era como ele era disciplinado na sua vida de oração, um exemplo para os mais jovens. Isso e as tensões que cercaram a sua comitiva". Como ex-chefe da sua ordem na Argentina, Bergoglio havia sido diretor espiritual de muitos dos jesuítas mais jovens. "Eles todos foram formados por ele, compartilhando a sua severa dedicação tanto à vida religiosa quanto aos pobres", diz Liebscher, acrescentando que "um jesuíta uruguaio me disse uma vez que Bergoglio pode não ter sido um teólogo da libertação, mas 'certamente pensava como um'". Bergoglio, de fato, era aquela figura bem argentina, um caudilho, um homem forte como o ditador Juan Perón. "Um caudilho religioso, benigno, mas caudilho", resume Liebscher, um homem que tomou as suas próprias decisões e levou todos junto com ele.

O que tornou Bergoglio uma figura polarizadora na sua ordem não foi a acusação levantada na sua eleição, de que ele tinha efetivamente entregue dois ativistas jesuítas teólogos da libertação, sequestrados e torturados em 1976, aos militares no poder, recusando-se a apoiar o ministério dos padres. "Dentro da ordem, o consenso era de que ele fez o que pôde para proteger os dois rapazes que não tiveram o bom senso de sair da linha de fogo", disse Liebscher. (Os dois homens foram libertados pela atividade secreta de Bergoglio: ele combinou que o pai da família do ditador Jorge Videla se fizesse de doente para que Bergoglio pudesse rezar a missa na casa de Videla e assim suplicou por misericórdia com sucesso). O que fez Bergoglio se destacar, diz o jesuíta norte-americano, foi a sua total adesão emocional e espiritual à decisão de 1972 por parte da ordem como um todo para adotar a opção preferencial pelos pobres: "As províncias de língua espanhola ficaram mais divididas do que qualquer outra com relação à questão, e Bergoglio sempre esteve na vanguarda".

Desde então, ele sempre aplicou a sua devoção à causa dos marginalizados inteiramente dentro da crença ortodoxa e de uma forma absolutamente pragmática. "Ele é uma pessoa disposta a tudo, que dá um passo de cada vez", diz Liebscher, "por isso eu tenho muita certeza de que não há nenhum plano abrangente para o seu pontificado". Mas há um confronto que o norte-americano vê se aproximando. Roma é a central do clericalismo, o coração do conceito de sacerdócio como a verdadeira Igreja, privilegiado com justiça muito acima dos leigos, e o novo bispo da cidade é o "inimigo declarado" do clericalismo. "A única vez que eu o vi visivelmente irritado com outra pessoa foi quando alguém disse: 'Padre, Fulano preferiu rezar a missa sozinho, ter uma experiência privada'". Um rito eclesial não é um assunto privado de ninguém, respondeu um irritado futuro papa," é um serviço para o povo".

Entre agora e o seu encontro potencialmente fatídico com os seus assessores cardeais em outubro, Francisco não ficará ocioso. Pairando acima de tudo está o seu regresso certamente triunfante para a América do Sul no fim de julho para a Jornada Mundial da Juventude, no Rio de Janeiro. Se ele irá se conectar com os jovens assim como João Paulo II é a próxima grande questão, mas Higgins não tem dúvidas da resposta. Francisco, afinal, se conectou com quase todo mundo (exceto os arquitradicionalistas), em sua diversificada e forte Igreja de 1,2 bilhão de pessoas. "Eu tenho conversado com inúmeros católicos, leigos e clérigos, e todos eles têm se sentido simplesmente revigorados por ele". E quando esses jovens lhe fizerem perguntas, o que ele poderia responder? "Quem sabe?", ri Higgins. "Ele é capaz de qualquer coisa".

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