Francisco. A alegria do Evangelho para reformar a Igreja

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Por: André | 27 Novembro 2013

Poderia ser uma “simples” Exortação Apostólica Pós-Sinodal, como muitas outras. Mas o Papa Francisco escreveu uma que representa um documento chave do seu Pontificado. A rota que sugere os “caminhos para a caminhada da Igreja nos próximos anos”. Quase a profecia de uma renovação profunda proposta a todos os cristãos. Um texto operacional destinado a sacudir todas as instâncias e todas as dinâmicas da Igreja; um convite a emancipar-se de tudo o que entorpece a missão de anunciar o coração palpitante do Evangelho entre os homens de hoje, assim como são.

 
Fonte: http://bit.ly/1fFmmjX  

A reportagem é de Gianni Valente e publicada no sítio Vatican Insider, 25-11-2013. A tradução é de André Langer.

Em primeiro lugar está a “alegria do Evangelho”, como diz a versão original escrita em espanhol. “A alegria do Evangelho”, lê-se nas primeiras linhas da Exortação, “enche o coração e a vida inteira dos que se encontram com Jesus. Quem se deixa salvar por Ele é liberto do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus Cristo sempre nasce e renasce a alegria”. Enquanto “o grande risco do mundo atual, com sua múltipla e avassaladora oferta de consumo, é uma tristeza individualista que brota do coração acomodado e avarento, da busca desordenada de prazeres superficiais, da consciência isolada”. Inclusive muitos crentes caem nessa armadilha, “convertem-se em seres ressentidos, queixosos, sem vida”. Ao contrário, “quando alguém dá um pequeno passo ao encontro de Jesus, descobre que Ele já aguardava de braços abertos a sua chegada”.

Experimentar e propor aos outros a salvação alegre que Cristo ressuscitado oferece e os meios dos quais se serve são a vocação de todos os cristãos, além da razão de ser da Igreja. A experiência do encontro pessoal com Cristo é “o manancial da ação evangelizadora. Porque, se alguém acolheu esse amor que lhe devolve o sentido da vida, como pode conter o desejo de comunicação a outros?” Por isso, a evangelização nunca deve ser entendida como “uma heróica tarefa pessoal, já que a obra é, sobretudo, d’Ele, para além do que possamos descobrir e entender. Jesus é ‘o primeiro e o maior evangelizador’. Em qualquer forma de evangelização, o primado é sempre de Deus”.

Se a missão própria dos cristãos é a de anunciar a alegria do Evangelho, o próprio objetivo configura também as formas nas quais esta se manifesta. Todos “têm o direito de receber o Evangelho. Os cristãos têm o dever de anunciá-lo sem excluir ninguém, não como quem impõe uma nova obrigação, mas como quem compartilha uma alegria, assinala um belo horizonte, oferece um banquete desejável. A Igreja não cresce por proselitismo, mas ‘por atração’”. A alegria do Evangelho é missionária que “sempre tem a dinâmica do êxodo e do dom, do sair de si, do caminhar e semear sempre de novo, sempre para mais além”. A comunidade evangelizadora que mergulha “na vida cotidiana dos outros, encurta distâncias, abaixa-se até a humilhação, caso for necessário”. Ela “acompanha a humanidade em todos os seus processos, por mais duros e demorados que sejam. Conhece as longas esperas e a paciência apostólica. A evangelização patenteia muita paciência, e evita deter-se a considerar as limitações. Fiel ao dom do Senhor, sabe também ‘frutificar’. A comunidade evangelizadora mantém-se atenta aos frutos, porque o Senhor a quer fecunda. Cuida do trigo e não perde a paz por causa do joio”.

O objetivo declarado da Exortação Apostólica é “propor algumas diretrizes que possam encorajar e orientar, em toda a Igreja, uma nova etapa evangelizadora, cheia de ardor e dinamismo”. E neste percurso que o Papa propõe a todos “não convém que o Papa substitua os episcopados locais no discernimento de todas as problemáticas que sobressaem nos seus territórios. Neste sentido, sinto a necessidade de proceder a uma salutar ‘descentralização’”. Além disso, a “transformação missionária da Igreja” prefigurada por Bergoglio passa por uma renovação eclesial definida como “impostergável”. Trata-se de uma aventura que envolve toda a Igreja em “uma conversão pastoral e missionária, que não pode deixar as coisas como estão. Neste momento, não nos serve uma ‘simples administração’. Constituamo-nos em ‘estado permanente de missão’, em todas as regiões da terra”.

O principal critério desta renovação não é uma teologia particular nem nenhuma linha de pensamento eclesial, mas “uma opção missionária capaz de transformar tudo, para que os costumes, os estilos, os horários, a linguagem e toda estrutura eclesial se tornem um canal adequado mais à evangelização do mundo atual que à autopreservação”.

A pastoral ordinária, as paróquias, os movimentos, a hierarquia foram convidados a ter uma atitude de “saída”. O próprio exercício do mistério petrino, segundo o Papa Francisco, está imerso no dinamismo da renovação “em chave missionária”; Bergoglio anuncia também uma “conversão do papado”, para torná-lo “mais fiel ao significado que Jesus Cristo quis dar-lhe e às necessidades atuais da evangelização”. E fala da intenção de descentralizar “alguma autêntica autoridade doutrinal”, posto que “uma excessiva centralização, mais que ajudar, complica a vida da Igreja e sua dinâmica missionária”.

Hierarquia das verdades

Ao ter como pontos cardeais a Constituição conciliar Lumen Gentium (sobre a natureza da Igreja), os textos montinianos Ecclesiam Suam e Evangelii Nuntiandi, além do Documento de Aparecida, a rota que Bergoglio agora traça concentra-se sobre alguns pontos nevrálgicos.

De acordo com o Papa Francisco, é necessário rever a forma como é oferecido o anúncio evangélico. Por exemplo, coloca-se em discussão uma espécie de intervencionismo “midiático-eclesial” que se concentra nas questões morais. Com a seleção interessada dos conteúdos que normalmente os meios de comunicação levam a cabo, “a mensagem que anunciamos corre mais do que nunca o risco de aparecer mutilada e reduzida a alguns de seus aspectos secundários”. Isto acontece quando algumas questões que fazem parte do ensino moral da Igreja são propostas constantemente “fora do contexto que lhes dá sentido”.

Segundo o Papa Francisco, o enfoque sobre a ação moral não pode prescindir da luz própria da vida iluminada pelo Evangelho. Uma pastoral em chave missionária “não está obsessionada pela transmissão desarticulada de uma imensidade de doutrinas que se tentam impor à força de insistir. Quando se assume um objetivo pastoral e um estilo missionário, que chegue realmente a todos sem exceções nem exclusões, o anúncio concentra-se no essencial, no que é mais belo, mais importante, mais atraente e, ao mesmo tempo, mais necessário”. Citando Santo Tomás, o Papa repete que no âmbito específico das ações exteriores, a maior das virtudes morais para a inteligência humana iluminada pela fé é a misericórdia. Além disso, a missão de anunciar a todos a alegria do Evangelho manifesta-se dentro dos limites humanos e toma em consideração as condições nas quais vivem os homens (marcada pelo pecado original e pelo fluxo dos condicionamentos que nos rodeiam).

“Há normas ou preceitos eclesiais”, reconhece o Papa, “que podem ter sido muito eficazes noutras épocas, mas já não têm a mesma força educativa como canais de vida”. Santo Tomás de Aquino destacava que os preceitos dados por Cristo e pelos Apóstolos ao povo de Deus “‘são pouquíssimos’”. Além disso, é preciso “acompanhar, com misericórdia e paciência, as possíveis etapas de crescimento das pessoas, que se vão construindo dia após dia. Aos sacerdotes, lembro que o confessionário não deve ser uma câmara de tortura, mas o lugar da misericórdia do Senhor que nos incentiva a praticar o bem possível. Um pequeno passo, no meio de grandes limitações humanas, pode ser mais agradável a Deus do que a vida externamente correta de quem transcorre os seus dias sem enfrentar sérias dificuldades”.

Não à “alfândega sacramental”

A Igreja, explica o Papa Bergoglio, apresenta-se ao mundo como “uma Mãe com os braços abertos”. Uma das amostras desta abertura é deixar abertas, materialmente, as portas das Igrejas e dos lugares de oração. Mas, segundo o Papa, “nem sequer as portas dos sacramentos se deveriam fechar por uma razão qualquer”. Isto, obviamente também é válido para o batismo. Mas também para a eucaristia, acrescenta o Papa: “não é um prêmio para os perfeitos, mas um remédio generoso e um alimento para os fracos. Estas convicções têm também consequências pastorais, que somos chamados a considerar com prudência e audácia. Muitas vezes agimos como controladores da graça e não como facilitadores. Mas a Igreja não é uma alfândega; é a casa paterna, onde há lugar para todos com a sua vida fadigosa”.

As tentações dos “agentes de pastoral”

Em seu apelo à conversão missionária da Igreja, o Papa Francisco expõe uma detalhada sintomatologia da autorreferencialidade na qual é fácil tomar direções que inclusive caracterizaram momentos recentes da Igreja, sob a influência da “cultura globalizada atual”. Vai-se desde a sensação de derrota que se instala em pessoas consagradas e leigas, uma espécie de “pessimismo lamuriante” indicado por Bergoglio, que utiliza as palavras de João XXIII sobre os profetas de desgraças, aqueles que “não veem senão prevaricações e ruínas”. A raiz dos piores males que afligem a Igreja é identificada por Francisco com “o mundanismo espiritual, que se esconde por detrás de aparências de religiosidade e até mesmo de amor à Igreja, é buscar, em vez da glória do Senhor, a glória humana e o bem-estar pessoal”.

Bergoglio relaciona com esta atitude as novas expressões de um gnosticismo (que nunca desapareceu) ou do neopelagianismo “de quem, no fundo, só confia nas suas próprias forças e se sente superior aos outros por cumprir determinadas normas ou por ser irredutivelmente fiel a um certo estilo católico próprio do passado”. As palavras do Papa criticam duramente esses ambientes eclesiais nos quais “alimenta-se a vanglória de quantos se contentam com ter algum poder e preferem ser generais de exércitos derrotados antes que simples soldados dum batalhão que continua lutando”, sonhando “com planos apostólicos expansionistas, meticulosos e bem traçados, típicos de generais derrotados”. Um mundanismo asfixiante que se esconde sob “roupagens espirituais ou pastorais”, e que pode ser curada somente “saboreando o ar puro do Espírito Santo”.

Bergoglio cita o clericalismo que penaliza os leigos e que os mantém “à margem das decisões” ou que os absorve em “tarefas intraeclesiais, sem um compromisso real com a aplicação do Evangelho na transformação da sociedade”. E reconhece que as reivindicações dos direitos das mulheres “colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente”. O sacerdócio reservado aos varões “é uma questão que não se põe em discussão, mas pode tornar-se particularmente controversa se se identifica demasiado a potestade sacramental com o poder”.

Uma Igreja plural

Diante destes cenários, Bergoglio insiste em que a missão evangelizadora não é uma questão de especialistas ou de “roupas de elite”. Quem anuncia a alegria do Evangelho deve ser todo o Povo Santo de Deus, “santo por esta unção que o torna infalível in credendo”. Um povo “com muitos rostos” reunido pela graça de Deus e não segundo homologações culturais. O anúncio cristão – reconhece o Papa Francisco – não se identifica com nenhuma cultura, nem sequer com as que “estiveram estreitamente ligadas à pregação do Evangelho e ao desenvolvimento de um pensamento cristão”. Por isso, “não podemos pretender que todos os povos dos vários continentes, ao exprimir a fé cristã, imitem as modalidades adotadas pelos povos europeus num determinado momento da história, porque a fé não se pode confinar dentro dos limites de compreensão e expressão de uma cultura particular”.

“Emergência da homilia”

Quanto às formas primárias mediante as quais se transmite o anúncio evangélico, o Papa Francisco acentua o valor da vida da devoção popular, com a qual o povo “se evangeliza continuamente a si mesmo”, expressando o seu afeto por Jesus, pela Virgem e pelos santos. Depois, o Bispo de Roma, ao assinalar um tema delicado, dedica 23 parágrafos (em 18 páginas) a um dos instrumentos ordinários da pregação, o das homilias durante a missa. Segundo Francisco, a homilia “deve ser breve e evitar que se pareça com uma conferência ou uma aula”. A pregação “puramente moralista ou doutrinadora e também a que se transforma numa aula de exegese reduzem esta comunicação entre os corações que se verifica na homilia e que deve ter um caráter quase sacramental”.

Na homilia, assim como na catequese – sugere Bergoglio –, sempre se deve anunciar ou indicar o núcleo central do anúncio cristão: “o primeiro anúncio ou querigma deve ocupar o centro da atividade evangelizadora e de toda a tentativa de renovação eclesial”. Porque é “prévio à obrigação moral e religiosa”, e é repetido como um tesouro inesgotável que se descobre constantemente.

Fé e compromisso social

De acordo com o Papa Francisco, a missão evangelizadora se desfigura caso não se apreciar ou então se enfraquece o “laço indissolúvel entre a recepção do anúncio salvífico e um efetivo amor fraterno”. Palavras que anulam as falsas dialéticas daqueles que, nos últimos anos, insistiram no risco da “redução” da missão do anúncio à mera atividade de promoção social. A opção preferencial pelos pobres reforça-se sem meias palavras como um traço inocultável do amor de Cristo pelos homens, como indica o Evangelho. Não escutar o grito do pobre quer dizer colocar-se “fora da vontade do Pai e do seu projeto”. Trata-se de uma “preferência divina” que “tem consequências na vida de fé de todos os cristãos, chamados a ter “os mesmos sentimentos de Jesus Cristo”.

Francisco acrescenta, além disso, na Exortação Apostólica julgamentos não genéricos sobre a “idolatria” da economia especulativa e sobre as dinâmicas que condicionam o desenvolvimento e produzem a pobreza. Convida para não confiar nas “forças cegas e na mão invisível do mercado”, na hora de tomar decisões econômicas como “remédios”, que, pelo contrário, “são um novo veneno, quando se pretende aumentar a rentabilidade reduzindo o mercado de trabalho e criando assim novos excluídos”. A opção evangélica pelos pobres está afastada, se poderia dizer “geneticamente”, de “qualquer ideologia, de qualquer tentativa de utilizar os pobres a serviço de interesses pessoais ou políticos”. Literalmente, entre os pobres estão todos os indefesos, os excluídos e os fracos dos quais a Igreja deve se ocupar com predileção. Entre os citados anteriormente o Papa Francisco inclui os que ainda não nasceram, “que são os mais indefesos e inocentes de todos”. Sua defesa está relacionada com a defesa de qualquer direito humano que reconhece cada um dos seres humanos como sagrado e inviolável. “Não é opção progressista pretender resolver os problemas, eliminando uma vida humana”. Mas, ao mesmo tempo, o Papa reconhece que “é verdade também que temos feito pouco para acompanhar adequadamente as mulheres que estão em situações muito duras, nas quais o aborto lhes aparece como uma solução rápida para as suas profundas angústias”.

A vertigem da graça

Depois de ter definido o imenso campo de trabalho da “conversão missionária” à qual a Igreja foi chamada, Francisco, na parte final do documento, que termina com uma oração a Maria, retorna sobre a única fonte que pode propiciar e alimentar essa tão desejada saída da autorreferencialidade. Uma aventura por terras desconhecidas, que acarreta uma certa “vertigem”, pois depende inteiramente do agir de Cristo Redentor e de seu Espírito. Na história da Igreja, desde a época de Jesus, é o Espírito que “faz os Apóstolos saírem de si mesmos e transforma-os em anunciadores das maravilhas de Deus”. O verdadeiro missionário, “que não deixa jamais de ser discípulo, sabe que Jesus caminha com ele, fala com ele, respira com ele, trabalha com ele. Sente Jesus vivo com ele, no meio da tarefa missionária”. A missão não é “um negócio nem um projeto empresarial, nem mesmo uma organização humanitária, não é um espetáculo para que se possa contar quantas pessoas assistiram devido à nossa propaganda”.

Precisamente, depender inteiramente da Igreja “pode causar-nos alguma vertigem: é como mergulhar num mar onde não sabemos o que vamos encontrar. Eu mesmo o experimentei tantas vezes. Mas não há maior liberdade do que a de se deixar conduzir pelo Espírito, renunciando a calcular e controlar tudo e permitindo que Ele nos ilumine, guie, dirija e impulsione para onde Ele quiser”.

Nota da IHU On-Line: A íntegra do documento, em português, pode ser lida aqui.

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