Historiador afirma que abusos sexuais representam maior ameaça à Igreja em 500 anos

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27 Janeiro 2019

Um mês antes do início de uma cúpula global em Roma sobre a crise dos abusos sexuais, um proeminente historiador da Igreja e teólogo disse, na semana passada, que essa questão representa o maior desafio para a Igreja em 500 anos.

A reportagem é de Robert McCabe, publicada em National Catholic Reporter, 25-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Não é como a Reforma Protestante, não é”, disse Massimo Faggioli, professor da Villanova University, em uma palestra na Igreja da Imaculada Conceição, em Hampton, Virgínia. “Mas, na minha opinião, é a crise mais séria da Igreja Católica desde a Reforma Protestante.”

Em uma apresentação de uma hora, Faggioli começou mostrando como e por que este momento particular na história da Igreja se tornou tão crítico e o que a crise está dizendo aos católicos sobre o estado da Igreja. A palestra foi promovida pelo Bishop Keane Institute, um ministério oferecido pela paróquia que leva palestrantes católicos proeminentes ao sudeste da Virgínia.

Embora a crise tenha se tornado global, disse Faggioli, um filão dela é peculiar aos Estados Unidos, onde é inseparável de questões tão candentes quanto a sexualidade, a homossexualidade e o gênero. O escândalo nos Estados Unidos resultou em uma “crise teológica”, afirmou. A crise também está sendo usada por alguns, segundo Faggioli, para montar uma campanha de oposição ao Papa Francisco.

O ano passado foi um divisor de águas no desdobramento da crise dos abusos sexuais, disse Faggioli, um fenômeno que se tornou implacável.

“É um passado que não quer passar, ele continua voltando”, disse. “Isso teve um impacto sobre mim como acadêmico e como católico.”

Quase como se contasse um pesadelo, Faggioli repassou com seus ouvintes os eventos de 2018, começando com a desastrosa visita do Papa Francisco ao Chile, a sua complicada visita à Irlanda, a divulgação de um estudo do governo australiano sobre a crise e relatórios sobre abusos que surgiram na Índia, Alemanha, França e Espanha, observando que, no mínimo, o ano mostrou que a crise não é mais vista apenas como um problema norte-americano, mas sim como uma questão global.

Ataque contra Francisco

Foi, no entanto, a tempestade que explodiu na Igreja dos Estados Unidos em torno do suposto abuso de seminaristas e sacerdotes pelo ex-cardeal Theodore McCarrick, seguido pela extraordinária carta do arcebispo Carlo Maria Viganò, acusando o Papa Francisco de ter conhecimento e de encobrir McCarrick, que empurrou a crise para um novo nível, sugeriu Faggioli.

Quando mais de duas dezenas de bispos norte-americanos apoiaram Viganò, a Igreja deslocou-se para um lugar em que não havia estado há centenas de anos. Ele disse: “Você tem que voltar seis séculos – aos anos 1400 – para ver uma Igreja nacional sendo dividida publicamente sobre a legitimidade de um papa”.

A parte chocante da controvérsia de Viganò não foi a sua carta, mas sim a decisão de um grupo de bispos dos Estados Unidos de assumir o seu lado, criando o “equivalente à crise dos mísseis cubanos na Igreja”, disse Faggioli.

No fim de agosto até meados de setembro, quando o debate de Viganò se desenrolou, Faggioli disse que ia para a cama “sem saber se na manhã seguinte teríamos uma Igreja ou várias Igrejas”.

“Isso indica como foi ruim, pelo que me parece”, acrescentou.

Entre as revelações de McCarrick e o alvoroço de Viganò, ocorreu a divulgação do relatório sobre os abusos sexuais da Procuradoria Geral da Pensilvânia em meados de agosto, levando a uma série de investigações semelhantes em outros Estados do país, que prometem que este momento da história da Igreja continuará se desenrolando, disse Faggioli.

A crise expôs lacunas na Igreja Católica dos Estados Unidos, afirmou.

“Ficou claro, mais do que antes, que a crise dos abusos não é simplesmente uma série de abusos que foram encobertos”, disse Faggioli à plateia. “Ela tornou-se parte de uma fragmentação eclesial que realmente põe em risco uma das quatro coisas que todo católico diz quando reza o Credo”, aludindo à Igreja “una” e aos bispos que pareciam desafiar o papa.

No fundo, há uma única coisa que um bispo católico deve viver – a comunhão com o bispo de Roma, observou ele: “Se esse elemento falhar, passamos para uma situação muito perigosa”.

A crise, continuou, revelou uma série de fraturas naquele que é chamado de “catolicismo global”.

“A crise dos abusos sexuais está sendo manipulada em uma crise para deslegitimar radicalmente um papa que certos ambientes do catolicismo norte-americano, desde o início, nunca reconheceram como legítimo”, disse Faggioli.

Apenas alguns meses depois de sua eleição em 2013, enquanto Francisco ainda estava tentando “entender onde ficava a cozinha do Vaticano”, certos ambientes do catolicismo norte-americano “decidiram que este papa não é um papa de verdade”, observou.

Tudo isso serve como pano de fundo para o que aconteceu no ano passado, um momento delicado na Igreja dos Estados Unidos, sugeriu Faggioli.

Um problema estadunidense

Não há nenhuma dúvida sobre a maioria das facetas da crise dos abusos sexuais – negação, acobertamento, corrupção, clericalismo –, disse Faggioli, acrescentando, porém, que há uma segunda dimensão.

“Essa versão da crise dos abusos é realmente um problema estadunidense”, porque está ligado inextricável e inseparavelmente às divisões na Igreja em torno da sexualidade, homossexualidade e gênero, disse.

Isso levou a uma “crise teológica que você não tem em outros países com a mesma paixão, com o mesmo veneno, com o mesmo potencial para promover uma divisão eclesial de verdade”, acrescentou.

Em termos do que a crise revela sobre o que precisa ser feito teologicamente, um “esforço sistemático e teológico mal começou”, disse Faggioli.

Em um aparte, ele mencionou que, em meados de janeiro, ele começou a lecionar uma disciplina para alunos de graduação na Villanova focada na crise dos abusos sexuais.

Para seus estudantes, nascidos no fim dos anos 1990, a Igreja atormentada pelos abusos “é a única Igreja que eles conhecem”, afirmou.

Entre as questões teológicas que a crise suscita, está aquela sobre o que fazer com o Vaticano, o papado e a Cúria Romana.

“A crise está nos perguntando: queremos um catolicismo centralizado como costumava ser até ontem ou queremos – ou achamos que podemos – descentralizar?”, perguntou.

Durante séculos, os papas foram quase invisíveis até o Vaticano I, no século XIX, seguidos pelos papas do século XX que ele relacionou com papados “robustos”.

O fracasso mais crítico e distintivo das lideranças eclesiásticas durante a crise dos abusos sexuais se encontra nos bispos, embora “exista um paradoxo aí”, disse Faggioli.

Um dos legados do Vaticano II foi o empoderamento dos bispos, que essencialmente se resumia a algo assim: “Esta Igreja não pode ser uma Igreja imperial em que o papa é como um imperador”, observou. “Precisamos de uma coorte de bispos que possam governar esta Igreja (...) A crise dos abusos é um grande toque de despertar.”

Como corolário do reforço do Vaticano II ao episcopado, houve a ênfase no poder dos leigos, embora a teologia, acrescentou, tenha “permanecido amplamente no papel”.

A governança da Igreja Católica do futuro terá que envolver mais leigos, embora hoje eles permaneçam, em grande parte, invisíveis, uma situação que terá que mudar, disse Faggioli.

Outra questão teológica citada: o sacerdócio e, particularmente, a formação dos padres.

Os seminários são, em grande parte, uma invenção do Concílio de Trento em meados dos anos 1500, sendo que as únicas mudanças reais desde então foram amplamente decorativas, observou.

Embora o currículo tenha sido atualizado, a atenção às vidas afetivas e ao desenvolvimento dos candidatos permanece “totalmente secundária”, disse Faggioli, acrescentando que o sacerdócio se tornou ainda mais idealizado do que no passado, e que o isolamento das pessoas, particularmente das mulheres, ainda é o modelo.

“Esse é um problema enorme”, afirmou.

Um momento delicado

Encerrando sua palestra, Faggioli disse que a crise dos abusos é “um momento muito, muito delicado – é realmente difícil”.

Como acadêmico, ele disse que vê seu papel não apenas rastreando as últimas notícias, mas pensando “teologicamente” sobre o que a crise lhe diz e “no que ela nos chama a pensar”.

Não há nenhuma saída, por assim dizer, nenhuma fuga da responsabilidade: “Aqueles que estão na Igreja têm que fazer alguma coisa por aqueles que não podem, porque é muito difícil para eles estarem na Igreja. Ser poupado da crise dos abusos significa que você tem que dar algo de volta. É assim que eu vejo esse momento”.

Durante o momento das perguntas após sua palestra, Faggioli disse que estava um pouco otimista sobre a próxima cúpula em Roma sobre a crise dos abusos sexuais, embora ele não achasse que ela teria muito impacto nos Estados Unidos.

A chamada Carta de Dallas, promulgada pelos bispos dos Estados Unidos em 2002, fez a diferença, disse ele, tanto que ela emergiu como modelo.

“O quadro global é de que a Igreja, paradoxalmente, tem que alcançar os Estados Unidos”, observou ele em sua palestra.

Questionado depois sobre o prospecto de uma série aparentemente interminável de relatórios como o divulgado pela Procuradoria Geral da Pensilvânia no ano passado, Faggioli disse, citando o Papa Francisco, que há a necessidade de uma “hermenêutica”, de uma interpretação da crise dos abusos, de uma abordagem mais holística que transcenda a verdade legal e a questão de quem é culpado e quem é inocente, tanto quanto necessário.

A questão abrange não apenas os perpetradores e aqueles que possam tê-los protegido, mas também indivíduos que, embora não sejam tecnicamente culpados ou tecnicamente inocentes, estavam envolvidos, sabiam que algo estava acontecendo, mas não agiram.

“Eles fazem parte do quadro”, disse Faggioli.

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