Papa Francisco e a crise dos abusos: da evasão à conversão

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07 Fevereiro 2019

“Papa diminui expectativas para a cúpula sobre abusos sexuais do próximo mês”: a manchete da Associated Press pode não ser muito animadora, mas foi justa. Durante o voo do Papa Francisco de volta do Panamá no dia 27 de janeiro, ele disse aos repórteres que “é preciso desinflar as expectativas” em torno da primeira cúpula global dos bispos sobre o abuso sexual clerical, que ocorrerá no Vaticano entre 20 de fevereiro e 24 de fevereiro.

O comentário é de Austen Ivereigh, publicado por Commonweal, 30-01-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Francisco descreveu a cúpula essencialmente como uma “catequese”: conscientizar as lideranças da Igreja do mundo inteiro do sofrimento das vítimas e de suas obrigações de agir contra os padres abusadores, assim como de ouvir os testemunhos dos sobreviventes e de rezar, penitencialmente, pelos fracassos da Igreja.

Mas três dias não são muito tempo, e ninguém espera uma revolução. “O problema do abuso continuará”, assegurou Francisco repórteres. “É um problema humano.” Ninguém deveria esperar que o papa tire uma solução nova da cartola.

Como aponta o diretor da Sala de Imprensa do Vaticano, Alessandro Gisotti, o encontro no Vaticano é apenas o estágio mais recente de uma resposta de longo prazo. Se você pensou que essa era apenas uma tentativa de Roma de tomar a iniciativa depois do relatório do Grande Júri da Pensilvânia ou do escândalo do cardeal McCarrick, esqueça.

O diretor editorial do Vaticano, Andrea Tornielli, insiste que a questão será vista a partir de uma “perspectiva global”, não “apenas europeia e norte-americana”. Isto é, tanto a África, quanto a Ásia e a América Latina, onde eles acham que não têm uma crise de abusos, mas têm.

Mesmo assim, embora Francisco tenha desejado “desinflar” as expectativas, ele não estava dizendo que a reunião não tem importância. Ele acha que ela é muito importante – apenas não do modo como as pessoas acham. Antes de falar sobre novos protocolos e procedimentos, o papa disse no avião que há algo mais que os bispos precisam fazer: “Precisamos nos conscientizar”.

Para Francisco, não há algo como simplesmente ver; o que você vê depende de como você vê e do que você coloca no centro do seu olhar. Mudar esse foco é a tarefa da conversão.

Tornielli diz isso diretamente: “Normas, leis, códigos e procedimentos (...) podem nunca ser suficientes se a mentalidade e os corações daqueles que são chamados a aplicá-los não mudarem”. Por isso, ele diz, o Papa Francisco “continua apontando a caminho da conversão”.

O Pe. Federico Lombardi, moderador do encontro, diz que a oração penitencial durante a cúpula se centrará “na conversão sincera (...) na verdadeira conscientização do sofrimento e do dano sofrido pelas vítimas” e, assim, “na reforma das relações dentro da Igreja”.

É assim que Francisco, depois de um difícil ano de 2018 e, acima de tudo, de sua própria experiência de mau julgamento e má administração no caso do Chile, passou a ver a crise dos abusos. Ela é muito mais profunda do que parece, pois envolve um distanciamento de Cristo no seu povo. E isso não pode ser reparado apenas por mecanismos processuais ou judiciais, por mais necessários que sejam. Isso exigirá uma transformação radical – um retorno a Cristo.

Estamos tão acostumados a ouvir que Francisco está “atrasado” em relação à questão dos abusos. Na verdade, ele está bem à frente. Enquanto a maioria dos católicos, assim como os bispos e as ordens religiosas, continuam fixados na limpeza da instituição, demonstrando que agora ela é transparente, responsável e regulada por novas medidas, o papa entendeu que manter o foco na instituição desse modo é precisamente o problema.

Isso fica evidente nos textos que ele dirigiu aos bispos chilenos e ao povo de Deus no ano passado, que, por sua vez, se baseavam nas suas meditações sobre a desolação institucional como jesuíta nos anos 1980. Ambos os textos de três décadas atrás e as cartas do ano passado foram coletadas e comentadas por seus colaboradores jesuítas em Roma, Pe. Antonio Spadaro e Pe. Diego Fares, em um novo livro publicado em italiano e espanhol, Las cartas de la tribulación [As cartas da tribulação, em tradução livre]. Se o livro tivesse sido publicado mais tarde, sem dúvida incluiria a carta de Francisco aos bispos dos Estados Unidos no início do seu retiro no Seminário de Mundelein.

O cerne da mensagem do papa é uma pequenina frase que remonta aos seus escritos dos anos 1980 e novamente nas suas cartas aos bispos do Chile e dos Estados Unidos: “Ideias se discutem, mas situações precisam ser discernidas”.

Sempre que a Igreja enfrenta um tempo de tribulação, há várias tentações às quais ela pode sucumbir: curvar-se sobre si mesma, levantar defesas, culpar os outros e, essencialmente, discutir – com os outros e dentro de si. A Igreja está inclinada a “ruminar” a sua própria desolação, lamentando-se e culpando-se, e, na pior das hipóteses, a cair no “vitimismo”, que, diz Francisco no seu prefácio ao livro, “esconde em seu seio o impulso de vingança e não faz nada além de alimentar aquele mal que gostaria de eliminar”.

Tudo isso são meios de fugir da tarefa real, que é buscar a graça que sempre é oferecida na desolação e na tribulação: a graça da conversão. Ao acusar a nós mesmos e não aos outros – em humildade, arrependimento e autocorreção – abrimo-nos a essa graça. Mudamos. Convertemo-nos. Vemos onde erramos. E, com essa nova visão, surge a chance de mudar de rumo. A tarefa da Igreja não é de se lamentar e condenar, mas sim de discernir e reformar.

Quando Francisco defendeu obstinadamente a sua nomeação de Dom Juan Barros como bispo da diocese chilena de Osorno, ele foi pego em uma teia de desolação institucional. A Igreja local apresentou-lhe uma imagem falsa, que ocultava a verdade não apenas sobre o padre abusador Fernando Karadima, mas também sobre a corrupção generalizada e o acobertamento em muitas dioceses. Só por causa da tempestade de críticas dirigidas ao papa depois da sua contínua defesa de Barros, e pelo fato de ter percebido que não poderia mais confiar na imagem que recebera, ele decidiu enviar seu procurador-chefe, o arcebispo Charles Scicluna, para chegar à verdade. E, somente quando uma imagem mais ampla começou a surgir – que Scicluna não esperava encontrar – o humilde trabalho de conversão pôde começar no Chile. Mas foi a mudança de foco do próprio papa que permitiu que ele visse essa imagem mais ampla.

Antes da crise no Chile, o papa tinha visto a questão do abuso como a maioria das pessoas, equilibrando vários princípios – ouvindo as vítimas e garantindo a justiça, sim, mas também presumindo a inocência do clero até prova em contrário e minimizando o risco de abusos com novos protocolos e “melhores práticas”.

Mas o Chile ensinou a Francisco que a raiz do problema era o clericalismo e a resistência da Igreja à graça da conversão. Era o clericalismo que estava por trás da “desolação institucional”. O papa chegou a ver a crise dos abusos como “uma mudança do centro eclesial”: longe da Igreja a serviço de Cristo no seu povo, rumo à instituição servindo-se do povo. No centro da crise, está um abuso de poder: um padre ou bispo que procura ser servido em vez de servir logo decide que tem o direito de reivindicar dinheiro, sexo e outros bens para si mesmo, e usa o seu poder para esconder a sua má conduta.

O abuso é triplo: de poder e de consciência, assim como de sexo. O clericalismo transforma essa corrente de pecado em uma teia de corrupção na qual a instituição coloca a si mesma e a sua reputação no centro de seu foco, afastando-se de Cristo na vítima do abuso, cuja voz é silenciada. A Igreja, assim, torna-se “desenraizada da vida do povo de Deus”; torna-se arrogante e defensiva.

Ao longo da crise dos abusos sexuais – as revelações da mídia, os inquéritos e investigações – o Espírito Santo tem evocado essa corrupção, como Natã fez ao rei Davi. O que importa agora é como a Igreja muda em resposta à crise, se escolhe discernir e se arrepender, ou continua fugindo.

Os mecanismos de evasão diferem: Francisco exorta os bispos do Chile a não se refugiarem em abstrações universais (um vício latino-americano), enquanto adverte os bispos dos Estados Unidos a não se concentrarem estritamente em planos e esquemas ou mecanismos judiciais (uma fraqueza norte-americana). Tudo isso não chega à raiz do problema, que é um afastamento de Cristo e do povo de Deus. Somente o arrependimento e a conversão podem corrigir isso.

Novas normas, diretrizes e mecanismos serão necessários, mas são, por si mesmos, impotentes para promover a metanoia à qual o Espírito Santo está chamando a Igreja. Somente a graça e a misericórdia de Deus podem fazer isso; e estas são encontradas no seu povo. Daí o chamado do papa em agosto a todo o povo de Deus a rezar e jejuar. O povo de Deus é o “sistema imunológico” da Igreja, como ele disse aos católicos do Chile. Se esse sistema imunológico não estiver funcionando, nenhuma parte da reforma processual será suficiente. O clericalismo é um problema que afeta todos os membros da Igreja de uma forma ou de outra, e assim podemos esperar que a sua solução envolva todos os membros.

Se o clericalismo é a doença, a sinodalidade é a cura. Somente quando a Igreja abraçar a sua identidade como aquilo que o Concílio Vaticano II disse que era, o povo de Deus, é que a mentalidade clericalista por trás da crise poderá ser expurgada. Isso significa o clero e a hierarquia servindo a Cristo no povo, em vez de o povo servindo aos padres como se fossem Cristo. Significa superar o autoenvolvimento institucional que levou a tanta desolação e negação, e colocar os pobres, os famintos e os abusados de volta no centro da atenção da Igreja, onde eles pertencem.

Daí o apelo de Francisco aos fiéis do Chile a serem “protagonistas da transformação agora pedida” e a exigirem “formas renovadas de participação”, não como concessões, mas porque a natureza da própria Igreja as exige. Ele passou a descrever uma nova cultura eclesial em que os mais vulneráveis são ouvidos, e a crítica não é descartada como traição. Essa é a “reforma das relações” de que o Pe. Lombardi estava falando, sem a qual nenhum outro tipo de reforma provavelmente irá muito longe.

A cúpula sobre os abusos sexuais não trará resultados imediatos, e muitos a descartarão como um mero espaço de conversa. Mas olhe para os sinais da conversão que ela busca provocar e ouça atentamente o discurso de encerramento do papa. Ele pode estar tentando diminuir as nossas expectativas em relação à cúpula em si, mas, mais importante, ele está tentando colocar a nossa esperança na verdadeira reforma.

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