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11 Dezembro 2018

“Se a Igreja não estiver na Ásia, ela não se torna uma Igreja Católica, mas sim uma Igreja neoanglicana ou neo-ortodoxa que está tão intimamente ligada a realidades culturais e políticas específicas que se torna um mero bastião de tradição e ideologia. Se a Igreja quiser permanecer católica e universal, ela deve ir para a Ásia.”

O artigo é do sinólogo italiano Francesco Sisci, professor da Universidade Renmin, em Pequim, na China, em artigo publicado por Settimana News, 07-12-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

O acordo de 22 de setembro entre a China e o Vaticano é um evento decisivo, do qual é difícil exagerar a importância, e cujo escopo talvez fique claro apenas em muitos anos. Isso poderia dar alguma esperança também sobre a atual controvérsia entre os Estados Unidos e a China, que parece maior do que uma simples disputa comercial. Pode ser que a China esteja disposta a se comprometer, se perceber plenamente o que está em jogo.

Com o Vaticano, de fato, é a primeira vez em sua história milenar que um governo chinês em pleno poder aceitou uma limitação de seus poderes internos. Ou seja, a China aceitou o que, de fato, é uma divisão de poderes civis e religiosos. Essa divisão faz parte da história ocidental e é um elemento básico da modernidade. É a conquista difícil e dolorosa da batalha de cerca de 1.000 anos atrás entre o imperador do Sacro Império Romano e o papa, e é a luta da investidura sobre quem tinha o poder supremo para nomear os bispos.

A China aceitou esse princípio moderno e ocidental, dando, assim um passo dogmático importante rumo à modernidade.

Isso foi possível porque o Estado chinês já havia sido transformado com a revolução comunista e marxista. Mas, para entender a mudança, precisamos dar um passo atrás.

Igreja e Estado

O Estado chinês foi fundado combinando poderes políticos e “espirituais”. O imperador é chamado de “tian zi”, filho do céu, pelo menos desde o primeiro milênio a.C. durante a dinastia Zhou, que dominou a planície do Rio Amarelo naquela que poderia ser chamada de “Ur-China”. O céu era claramente uma divindade quase humanizada.

Nos milênios seguintes, o valor divino do céu mudou, mas o “filho do céu”, além de governar, continuou presidindo cerimônias civis/religiosas e pontuando a administração do Estado de acordo com ritmos sazonais – isto é, os do céu. Por exemplo, sentenças de morte eram realizadas no outono, e as anistias, na primavera.

Esse valor religioso é muito menos metafísico do que o ocidental e muito mais ideológico. O cerimonialismo de Estado pedia ao povo chinês que se identificasse ideologicamente com o pensamento do Estado. Assim, todas as religiões tinham liberdade desde que não limitassem o poder imperial, mas fossem absorvidas no grande poder imperial. A nomeação dos bispos, por essa razão, não podia ser minimamente dividida ou compartilhada com um poder externo fisicamente (porque ele está em Roma, como o papa) nem ideologicamente (como aconteceu com o papa).

Isso é ainda mais verdadeiro quando se vê a experiência do jesuíta alemão von Schall, no século XVII. Ele era um dos homens mais poderosos do império e chamado de “tio” pelo imperador. Em seu funeral, o imperador rasgou suas vestes e foi o primeiro na procissão. Von Schall foi durante algum tempo uma espécie de Richelieu do império. No entanto, apesar de todo esse poder, ele não só não conseguiu converter o imperador, que permaneceu cético sobre muitos aspectos do impacto político da doutrina católica, mas também não conseguiu nomear um bispo em Pequim, nem obter o reconhecimento do legado papal!

A natureza monolítica do poder político, de fato, foi rompida em princípio pela adoção da ideologia marxista materialista, que expressamente excluía a esfera religiosa do poder absoluto do presidente Mao Zedong.

Na verdade, durante o período do poder de Mao e particularmente durante a Revolução Cultural, Mao foi tratado como um semideus, mais do que os imperadores chineses anteriores. Toda religião tinha que ser suprimida, porque impedia o culto semidivino de Mao. Mas isso não foi enquadrado em uma ideologia de Estado como durante os tempos imperiais.

Assim, durante o período Deng, a posição do líder do partido deixou de ser deificada, e as religiões receberam maior liberdade de ação, mas permaneceu a proibição de um papel verdadeiro e transparente do papa na escolha dos bispos, porque esse papel era considerado “interferência nos assuntos internos chineses”. Isto é, dado que os bispos eram chineses e tinham pelo menos um papel social – e, portanto, político e ideológico – no Estado chinês, e o papa estava fora do Estado, o papa não podia desempenhar nenhum papel na escolha dos bispos.

A crise do Falun Gong em 1999, no entanto, mostrou que os chineses, como todos, não podiam viver sem religião. Por outro lado, o Estado comunista, portanto, um Estado materialista, não podia fornecer uma “religião de Estado” ou se depararia com os problemas já experimentados com Mao. O Estado teve que tentar “encolher” a fé a religiões “confiáveis”.

Desde o início dos anos 2000, o problema se tornou uma questão de saber se o catolicismo e suas lideranças em Roma eram confiáveis e se as relações com eles sustentavam o fato de eles estarem fora da China e terem um papel muito diferente.

Um acordo de confiança

O acordo foi concluído com base na confiança do governo de Pequim na Santa Sé. Essa confiança não pode ser apenas em relação a este papa, mas deve ser em relação à instituição. Os chineses não confiam em um evento momentâneo, em uma pessoa que está presente hoje e amanhã não estará.

Nesses 20 anos, a confiança foi construída com três papas: Wojtyla, Ratzinger e Bergoglio; e, portanto, a China confia que essa relação também será mantida pelos seus sucessores na mesma base. Nada mudou hoje em relação a 20 anos atrás, quando os relatórios eram vistos positivamente no contexto internacional.

No entanto, a situação internacional mudou com a atual tensão entre a China e os Estados Unidos. Os Estados Unidos e outros países temem que a normalização das relações com o Vaticano seja uma bênção da Santa Sé para a China. Mesmo sem ser uma bênção para a China, tais relações introduzem um elemento de prudência em todo o contexto internacional que parece deslizar quase distraidamente para uma nova guerra fria. Parte dessa visão é também a interpretação das recentes medidas sobre a religião como uma campanha contra a religião na China.

Não há nenhuma campanha como tal contra os católicos ou os protestantes na China. É importante entender o que realmente está acontecendo na China, com o bem e o mal.

Em 1999, por exemplo, de julho a setembro, houve uma campanha contra o Falun Gong, e, em cerca de dois meses, o Falun Gong desapareceu da China. Estamos falando de uma força de mais de 100 milhões de seguidores, incorporada no exército, na polícia e nas profundezas do partido. No entanto, em dois meses, eles foram apagados. Isso foi uma campanha.

Se o partido quisesse ir contra os cristãos (que não são tão fortes no partido, no exército ou na polícia), eles desapareceriam ou iriam para a clandestinidade. Então, não é uma campanha. O que realmente está acontecendo é uma aplicação dos novos regulamentos sobre o registro de padres e igrejas.

Teoricamente, isso não está errado. Na Itália, por exemplo, por razões de segurança pública, igrejas e padres, sejam eles católicos, protestantes ou muçulmanos, precisam se registrar junto às autoridades competentes. Essa regulação na China não tem precedentes. Os chineses estão acostumados a campanhas abrangentes, mas não a essa aplicação seletiva e flexível de leis e regulamentos.

Além disso, em muitos lugares, as autoridades se sentem mais seguras se forem mais severas do que menos. Se você for muito zeloso, o sistema não o culpa. Além disso, alguns padres têm medo do governo e não acreditam que ele mudou de opinião, por isso se recusam a se registrar. Alguns outros grupos religiosos se declaram cristãos ou católicos, mas, na verdade, são uma mistura de velhas crenças taoístas. Eles são aquilo que as pessoas chamariam de “pseudocristãos”, como o Taiping do século XIX, que se revoltou contra o poder imperial, levando a uma guerra na qual cerca de 20% da população da época foi morta.

O governo teme que alguns desses pseudocristãos possam levar a esse tipo de insurreição, e muitos chineses normais são contra o cristianismo, considerado quase como uma ofensa à sua fé tradicional. Esses sentimentos podem estar certos ou errados, mas temos que saber que eles existem e que devemos lidar com eles.

Então, podemos ver que a situação é extremamente complexa. Mesmo as autoridades locais honestas têm problemas para dizer quem é quem no mundo caótico do novo cristianismo. Em tudo isso, é um milagre e realmente uma bênção que, em relatórios enviados a Roma, cerca de 85% a 90% das comunidades católicas na China relatam que não houve incidentes e que estão muito felizes com o andamento das coisas. Depois, há esperança de que as coisas se resolvam e que o acordo dê mais espaço para a liberdade religiosa para todos na China.

De volta à integração da China

Da perspectiva minúscula (algumas questões concretas muito importantes), precisamos então retornar a uma perspectiva mais ampla.

Até agora, a Igreja Católica tem sido a continuidade ideal e cultural do Ocidente, pai e mãe da modernidade. A Igreja nunca se separou totalmente de suas várias interpretações cismáticas das Igrejas ortodoxas e protestantes em seus mil afluentes. Assim, o encontro/entendimento da China com a Igreja é central e, na verdade, tardio, com os chineses apostando na modernização.

De alguma forma, antes de se encontrar com a Igreja e a sua tradição, a China se encontrou com a modernidade em sua versão mais recente e extravagante: os Estados Unidos. Mas os Estados Unidos não vêm do nada; eles vêm de uma história muito longa que se mudou para o continente americano. Para entender os Estados Unidos, a sua história e a sua lógica hoje, há apenas uma instituição no mundo – a Igreja Católica, que, com seus 2.000 anos de história, representa a maior continuidade cultural do Ocidente – que se iguala aos Estados Unidos.

Talvez, parte do problema entre a China e os Estados Unidos – que levou a irritações mútuas no comércio, na economia, na estratégia e na política – até agora seja um grande desentendimento cultural. A China assumiu que os Estados Unidos eram uma espécie de cogumelo cultural que surgiu nos últimos 250 anos. Mas entender a tradição e a cultura da Igreja, que então tem um peso específico nos Estados Unidos, como a principal religião do país, ajuda a entender a dinâmica estadunidense.

Por outro lado, a Igreja percebe que deve emergir de si mesma, dessa tradição cultural. Com 60% da população e do crescimento econômico global, o futuro do mundo está na Ásia. Mas lá os católicos são talvez 2% da população total, se excluirmos o apêndice sul-americano na Ásia que são as Filipinas.

Ou seja, se a Igreja não estiver na Ásia, ela não se torna uma Igreja Católica, mas sim uma Igreja neoanglicana ou neo-ortodoxa que está tão intimamente ligada a realidades culturais e políticas específicas que se torna um mero bastião de tradição e ideologia. Se a Igreja quiser permanecer católica e universal, ela deve ir para a Ásia.

É isso que a Igreja está fazendo hoje, situando-se como uma grande mediadora de conflitos políticos e culturais. Como explicado recentemente pelo cardeal Pietro Parolin, a diplomacia é “um instrumento privilegiado para superar ideias políticas opostas, concepções religiosas diferentes ou ideologias diferentes”. A Ásia tem uma extrema necessidade disso, com seus milhares de conflitos não resolvidos e com o fato de que, em essência, a Guerra Fria ainda não acabou, como demonstrado, por exemplo, pela continuada existência de países comunistas (China, Vietnã e Coreia do Norte) e a divisão territorial entre as Coreias e entre a China continental e Taiwan. A Igreja já foi arrastada para esses conflitos, de fato.

Mas, para estar verdadeiramente presente, a Igreja não pode se impor, como nos dias do colonialismo, com sua cultura greco-latina, como se fosse a mão longa do poder colonial de plantão. Ela deve se enraizar profundamente nos vários territórios. Pesquisas recentes sobre o budismo e sobre o taoísmo são um começo muito precoce dessa abordagem que realmente ocorre em uma época de grandes mudanças na Ásia.

O continente que vemos hoje como unitário, na verdade, estava, há menos de um século, essencialmente dividido em três: havia o mundo indiano, o chinês e o indochino, uma terra de fronteira e mistura. Estes tinham dinâmicas separadas, precisamente devido às dificuldades de superar a geografia e as histórias que evoluíram separadamente.

Agora que a geografia é menos um obstáculo graças aos modernos aviões, estradas, ferrovias e telecomunicações, os três primeiros mundos asiáticos estão cada vez mais integrados. Mas ainda restam grandes diferenças e ódios. O que todos têm em comum é o desejo de serem modernos e desenvolvidos. Ou seja, o problema chinês da modernidade não é apenas da China, mas também de todos os países da região.

Além disso, enquanto na época dos missionários jesuítas nos séculos XVI e XVII a Igreja budista era uma presença muito forte em oposição aos missionários católicos, hoje o budismo está muito em crise em toda parte, e, na realidade, a presença da Igreja Católica poderia até mesmo ajudar com um retorno ao budismo mais autêntico.

Cada país, então, tem problemas específicos, e, sem ser uma ilusão, levará séculos para que a presença católica se consolide, se é que vai se consolidar. A China é uma espécie de semideserto religioso, onde as religiões tradicionais não existem mais, e aquelas que permanecem estão desorganizadas, descontroladas e culturalmente muito fracas, muitas vezes.

A Índia, por outro lado, está no meio de uma espécie de revolução no hinduísmo. O antigo poder do partido arreligioso do Congresso está diminuindo, e o hinduísmo político está brotando com o governo do BJP [o partido Bharatiya Janata]. Lá, o hinduísmo tradicional parece se redefinir com menos ênfase nas castas e mais em uma identidade comum. Isso talvez crie um equilíbrio ainda mais precário com os muçulmanos da Índia propriamente ditos e com aqueles que vivem no Paquistão, que sempre foi considerado como algum tipo de “inimigo do coração”.

No restante do continente, os católicos são minorias que hoje podem desempenhar um papel talvez também porque são estimulados e encorajados pela presença dinâmica deste papa. Mas muitas vezes se trata de minorias fechadas.

No Japão, eles são um pequeno grupo que, durante séculos, de fato, manteve a fé em troca do compromisso de não divulgá-la a outros. Hoje, uma perspectiva de evangelização seria a ruptura do antigo pacto e, portanto, a assinatura de um novo “acordo” cultural com o imperador, símbolo da continuidade cultural do país.

Uma situação semelhante e talvez pior se encontra, por exemplo, na Tailândia, onde os católicos são apenas tailandeses de ascendência chinesa ou vietnamita que chegaram ao país já católicos. Eles também não podem evangelizar, e os tailandeses são proibidos, de fato, de se converterem.

Nessa situação de muitas armadilhas, a Igreja se move, tentando não cair. Em comparação com as outras armadilhas, a questão chinesa talvez não seja a pior. Nisso, a Igreja quer ser de ajuda. Um momento de crise cultural, religiosa e política é uma oportunidade para que o futuro da Igreja asiática se realize.

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Por que o Papa Francisco concordou com Xi Jinping. Artigo de Francesco Sisci - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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