O chamado de Francisco: caminhos para uma conversão ecológica em defesa da vida

Grupo de jovens que participa do encontro Economia de Francisco analisa o contexto atual e inspira busca por saídas que superem velhos paradigmas de uma economia que mata

Imagem: Pam Anderson/Pixabay

Por: João Vitor Santos | 21 Novembro 2020

Quando se está em meio a uma crise, é comum aninhar a angústia e o desespero no peito. Imagine se essa crise envolve questões econômicas, sociais, ambientais e, mais recentemente, sanitárias. Além do peito apertado, a visão embaça, não se consegue ver o horizonte. Não é à toa, pois, como coloca o papa Francisco, vivemos uma crise sistêmica e o que está em jogo é a própria existência humana sobre a Terra. Mas, não nos desesperemos, o pontífice aponta que é preciso discernimento para analisar o contexto, refletir e agir sobre. Ele acredita que no epicentro dessas crises está a economia. Por isso faz essa convocatória para que jovens economistas pensem numa economia de vida e não de morte. É isso que está no centro do encontro Economia de Francisco, que começou em modo virtual nessa quinta-feira, 19/11, e foi até sábado, 21/11. Em 2021, o encontro deve ser presencial, na cidade de Assis, Itália.

 

Cinco brasileiros, Claudia de Andrade Silva, Klaus da Silva Raupp, Lucas Prata Feres, Roberto Jefferson Normando e Tatiana Vasconcelos Fleming Machado, estão entre tantos que atenderam o chamado. Mas eles costumam dizer que este encontro Economia de Francisco não se deu somente nesses dias de novembro e tampouco se dará no ano que vem. É um processo que já foi iniciado desde o convite e que segue. “O Papa percebe que vivemos uma economia monitorizada, num capitalismo que separa a economia da vida das pessoas, numa lógica de submeter a vida a tudo. É por isso que nos chama a pensar em outro modelo”, destaca Lucas.

 

Esses jovens também estão à frente de um projeto em parceria com o Instituto Humanitas Unisinos - IHU, que vem publicando uma série de textos que buscam refletir sobre o atual quadro e a necessidade de concepção de uma economia pela vida, dentro da coluna “Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco”. Na manhã da última quarta-feira, dia 18/11, os cinco apresentaram, em evento online promovido pelo IHU, o diagnóstico do momento atual, o que também vai embasar o Papa para o chamamento. Depois, analisaram os dados à luz da perspectiva teológica que vem marcando o pontificado e, por fim, indicaram caminhos possíveis para superar esse estado de crises. “Não podemos cair na tentação nostálgica. Não existe isso na história, precisamos construir o futuro. Nossa experiência de agora mostra que o nostálgico não deu certo”, pontua Lucas.

Claudia, Klaus, Roberto (em cima), Lucas e Tatiana. Grupo participou da primeira fase do evento Economia de Francisco, em atividade virtual promovida pelo IHU

 

Perceber a realidade para desatar as amarras

 

Usualmente, as escolas de Economia se fixam em cânones que nem sempre correspondem à realidade. Para o grupo, um primeiro passo é este: “encharcar-se de realidade”, indica Klaus. “E não só as Faculdades de Economia, mas todas as áreas de conhecimento precisam repensar seus currículos. A Economia de Francisco propõe também essa transdisciplinaridade”, aponta Claudia. Assim, creem que esse contato com a realidade passa por um diagnóstico dos problemas atuais que, acreditam eles, têm o capitalismo no seu centro. “Tudo é submetido à lógica da acumulação, inclusive a vida. O Papa percebe justamente isto: que vivemos uma economia monetária. É preciso compreender esse cenário para desconstruir as amarraras que nos prende a essas lógicas”, destaca Lucas.

 

Como no texto que os jovens publicaram no IHU, Lucas diz que podemos apreender a dura realidade por meio de quatro imagens. A primeira delas é a tragédia associada ao incêndio da Torre Grenfell, a qual ficava num bairro elegante de Londres e abrigava operários, que acabaram mortos no desastre. “Moradores alertaram para os problemas no prédio, mas não foram ouvidos. O resultado foram cerca de 70 mortos pelas chamas. O mais contraditório é que um dos bairros mais gentrificados de Londres continha um prédio com operários simples, que acabaram mortos”, relata.

 

Numa segunda imagem, Lucas pede que pensemos na famosa Los Angeles, nos Estados Unidos, das praias badaladas, das ruas das lojas de grandes grifes internacionais e casa da grande indústria do cinema internacional, Hollywood. “Pois esse mesmo lugar abriga o bairro de Skid Row e suas ruas com barracas onde vivem cerca de quatro mil pessoas”, diz. O cenário é mesmo de degradação, pois entre grandes pavilhões, sobre as calçadas, pessoas vivem em suas barracas que servem de cama, de abrigo e de banheiro. “Nessas duas cenas, temos o retrato de várias crises da sociedade contemporânea que nos faz pensar: como regredimos em meio a tanto desenvolvimento. Como diz o italiano Bifo Berardi, é como se algumas pessoas vivessem em bunkers de desenvolvimento enquanto outros sobrevivem fora”, analisa.

 

Economia feita por pessoas que mata pessoas

Tatiana chama atenção que, nesses casos trazidos pelo colega Lucas, há pessoas lutando e trabalhando dentro de um sistema que acaba as engolindo e aniquilando sua existência. “Não há mais um encontro entre o capitalismo e a forma de viver. É muita desigualdade. Vemos uma economia que é feita por pessoas, mas que pelas lógicas desse capitalismo acaba matando as próprias pessoas”, observa. “Devemos nos perguntar: por que precisamos nos voltar para esse capitalismo financeiro, se ele é grande fonte de segregação?”, completa.

Lucas: “Nessas duas cenas, temos o retrato de várias crises da sociedade contemporânea que nos faz pensar: como regredimos em meio a tanto desenvolvimento

 

 

A resposta é realmente difícil, dado o profundo enraizamento de nossa sociedade ocidental a esse modelo. O certo mesmo é que essa economia mata. Lucas ainda recorda outra imagem; dessa vez o cenário é uma fábrica de tecidos em Dhaka, Bangladesh. “Para muitos, Dhaka é definida como ‘o caos’ na forma de cidade. É lá que um prédio que abriga trabalhadoras da indústria têxtil vem abaixo, matando muitas daquelas pessoas”, recorda. Essa não era qualquer indústria, mas um local de gente precarizada, com longas jornadas e poucos rendimentos. Para Lucas, a típica representação das cadeias de unificação do trabalho, pois todas aquelas pessoas produziam para uma grife britânica. “É fruto de uma globalização que se aproveita dos lugares mais pobres para produzir mais e com menor custo, acumulando mais e mais lucro”.

 

Todos os exemplos são duros, mas podem parecer distantes. “Precisamos estar atentos a tudo isso, mas também conectados com o local”, acrescenta Klaus. Assim, Lucas lembra que no Brasil também temos exemplos bem evidentes de uma economia que gera morte. Um deles é o rompimento da barragem de Brumadinho, em Minas Gerais. “Temos ali o maior acidente de trabalho da história que gerou muita morte”, destaca. Nesse caso, uma sucessão de negligências em diversas instâncias se dão com interesse comum: aumentar lucros e reduzir investimentos. “Todos os exemplos são claros: é um processo que visa desumanizar a sociedade, pois se entende que a sociedade avançou demais e isso custa caro”, sintetiza Lucas.

 

Tecnologia como bem comum

Dentro da convocatória que o papa Francisco faz aos jovens, tem centralidade também a questão da tecnologia. Em um certo momento da história, chegou-se a crer que a tecnologia seria posta a serviço do humano. Com isso, esse humano estaria mais livre e poderia viver melhor, com mais tempo livre e se dedicando ao que faz bem. Mas não foi isso que aconteceu, pois o capitalismo vai muito rapidamente capturar o avanço da tecnologia. “É curioso porque a tecnologia é muito anterior ao capitalismo, mas ele surge e consegue dominar isso”, observa Tatiana.

 

A observação da jovem fica evidente quando se olha para a questão das patentes, quando um avanço fica sob o domínio de apenas uma organização. Para usar esse bem, paga-se muito caro e poucos acabam acessando. “Por isso precisamos pensar em tecnologias de bem comum, como propõe o Papa”, acrescenta.

Tatiana: “É curioso porque a tecnologia é muito anterior ao capitalismo, mas ele surge e consegue dominar isso”

 

 

De outra perspectiva, podemos ver como os avanços tecnológicos têm se convertido em mais horas de trabalho, sempre visando mais produção, para gerar lucro e acumular mais. “E assim o capitalismo vai desconstruindo tudo que já conquistamos”, diz. É o caso das proteções de bem-estar social. Afinal, o que estava no discurso da reforma trabalhista no Brasil? Reduzir proteção, pois eram custos, que precisam ser cortados para flexibilizar a mais-valia do trabalho para gerar ainda mais lucro. “Só que a consequência disso é na vida das pessoas. Sem vida não há economia. E não só vida humana, é meio ambiente, porque todos somos uma única célula”, dispara.

 

Afinal, o que quer o Papa?

Os mais desavisados podem até ficar surpresos por um pontífice estar se arriscando em espaços da economia. Mas, desde o início de seu pontificado, Francisco vem dando sinais que tem uma visão profética e, especialmente, sensível aos problemas do mundo. Esses problemas não têm uma causa única, embora a questão econômica tenha centralidade, daí a ideia de crise sistêmica. Assim, ele entende o mundo como uma teia, onde tudo está conectado, humanos, animais, plantas etc. Por isso, lógicas econômicas pouco virtuosas geram degradação ambiental, que vai gerar catástrofes climáticas que terão muito mais peso sobre os mais pobres. Aliás, são esses que têm suas forças expropriadas por uma lógica nociva de acumulação.

 

Nesse sentido, o contexto da pandemia é triste, mas didático, porque um vírus, uma forma tão primitiva de vida, deixa sob ameaça toda humanidade. Essa experiência revela tanto a fragilidade humana como a importância das relações e da preservação de ambientais naturais. Para Klaus, embora tenha sido pensado antes da pandemia, a partir dos sinais que já vinham sendo emitidos, o encontro Economia de Francisco se torna mais urgente. “E veja que o Papa chama à centralidade a cidade de Assis, onde deveria ocorrer o encontro presencial. É lá que viveu São Francisco de Assis. É para essa experiência que ele quer que olhemos”, aponta.

 

A experiência de Francisco de Assis na transição epocal

Klaus explica que o papa Francisco nos faz pensar no chamado que Francisco de Assis recebe. Inserido num contexto da baixa Idade Média, o filho de uma das famílias que caracterizavam uma burguesia nascente, que vai se impor politicamente através de seu poder econômico, vivia numa cidade muito bela, com colinas e muita natureza. Mas, entre as ruelas, começa a surgir também muita pobreza, com pessoas miseráveis e mendicantes. “Francisco de Assis vai se incomodar com tudo isso e dentro da igrejinha de São Damião recebe o chamado para que vá, reconstrua a Igreja – e a sociedade – que está em ruínas”, explica Klaus.

 

Toda essa miséria emerge durante uma grande transformação pela qual vai passar a sociedade ocidental. Até então, vivia-se o medievo do feudalismo. Embora num sistema de opressões, numa sociedade duramente regida pelas regras da Igreja, as pessoas tinham trabalho, o trabalho na terra, mesmo que esta não fosse sua. No fim das contas, tinham o que comer e desenvolviam sistemas de produção que se assemelhavam a uma certa primitiva cooperação. Quando a burguesia comercial surge, esse sistema entra em desequilíbrio e por isso muitos associam o nascimento do capitalismo ao fim da Idade Média e do sistema feudal.

 

Klaus reitera que Francisco de Assis integra essa elite emergente, que cresce enquanto as relações com a terra mudam e camponeses mais pobres viram miseráveis que vagam pelas ruelas de centros mais urbanizados. “E ele vai para junto dos pobres viver a sua conversão”, aponta. Conversão essa que resulta na demonstração de um outro estilo de vida, onde todos são irmãos, em que a cooperação pelo comum é possível, não somente para humanos, mas também para o meio ambiente. “Desde que chegou, o papa Francisco, um argentino lá do fim do mundo, que na sua vertente teológica o povo tem centralidade, tem chamado atenção e dado alguns sinais”. São sinais que visam demonstrar que também vivemos uma transição epocal e que mudanças são necessárias, como pensar noutra economia como fez Francisco de Assis.

Klaus: “Desde que chegou, o papa Francisco tem chamado atenção e dado alguns sinais”

 

Sinais do papa Francisco

Para compreender em profundidade o chamado do papa Francisco e se apropriar verdadeiramente do diagnóstico que faz dos tempos que vivemos, Klaus indica quatro grandes movimentos:

 

- O primeiro é Evangelii Gaudium, primeira Exortação Apostólica pós-Sinodal escrita pelo papa Francisco e publicada em 2013. Para muitos, é inclusive uma espécie de programa a ser seguido nesse pontificado. “É no capítulo quatro que vai falar sobre a necessidade de um não a uma economia que mata, uma economia da desigualdade que este ano ainda foi escancarada pela pandemia”, explica Klaus.

 

- O segundo ponto é o encontro do papa Francisco com movimentos sociais, em 2015, na Bolívia, quando faz um discurso em que diz que todos têm direitos aos “3 T’s”, Terra, Teto e Trabalho.

 

- O terceiro ponto se dá na publicação da Encíclica Laudato Si’. “É ali que fala que vivemos uma crise só, uma crise socioambiental que vem de nossos modos de ser e agir. É quando ressalta que tudo está conectado e propõe a categoria de Ecologia Integral”, diz Klaus.

Acesse a edição especial da IHU On-Line em que Laudato si' foi o tema central

 

- Como quarto sinal, Klaus aponta a própria carta em que o Papa faz o chamado aos jovens economistas a participarem do encontro Economia de Francisco. “É quando fala da necessidade de realmar a economia”, completa.

 

- Por fim, o último sinal vem à tona depois da convocação e já em tempos de pandemia, no início de outubro deste ano: a publicação da Encíclica Fratelli tutti. “Além de revelar que todos somos irmãos e dependemos uns dos outros, é um chamado ao novo, é dizer não ao que ele chama de dogma liberal, pensar num desenvolvimento humano integral”.

 

Uma ação local

 

Olhando rapidamente, os debates do evento Economia de Francisco podem parecer algo utópico, distante de muitas realidades concretas. Mas não é isso. Afinal, o próprio Francisco de Assis quando começa a agir não é bem visto, inclusive pela Igreja, mas não desanima. Como bem lembra a jovem Claudia, ele segue agindo desde o lugar, no seu microcosmos e vai arrebanhando seguidores. Entre os mais notáveis e fiéis está Clara de Assis. “É muito importante a referência de Francisco de Assis, mas precisamos também olhar para Clara, essa figura feminina que foi tão importante”, destaca.

Claudia: “É muito importante a referência de Francisco de Assis, mas precisamos também olhar para Clara, essa figura feminina que foi tão importante”

 

De fato, pensar numa ação desde nossa realidade local pode ser um caminho, pois outra marca do pontificado de Bergoglio é pensar no global e agir desde o local. “O frei Betto também diz sempre que a cabeça pensa onde o pé pisa, por isso precisamos pensar numa conversão ecológica mudando nossas atitudes cotidianas”, indica Claudia. “É preciso honestidade com o real para assim podermos de fato ouvir esse real”, acrescenta.

 

O que a jovem quer marcar segue na mesma lógica apontada anteriormente pelos demais, pois esse descolamento da economia da vida real tem engendrado esse afastamento do real. Por isso, ao ir ao supermercado, é importante pensar nos modos de produção e comercialização dos alimentos e valorizar aquelas iniciativas que visam a vida e não o lucro apenas. Na rua, é olhar as pessoas nos olhos e ter a capacidade de escutar. Em casa, pensar atitudes e ações que visam a preservação ambiental e, principalmente, na sua comunidade estar atento àqueles mais frágeis, as maiores vítimas dessa economia que mata. “Veja a práxis da economia solidária e mesmo as dinâmicas dos movimentos sociais, é algo bem concreto que dá resultado nessa conversão”, exemplifica Claudia.

 

Economia solidária, reforma tributária e políticas públicas

Claudia e os demais jovens creem que é fundamental romper com matrizes produtivas que exploram, expropriam, visam lucro e geram morte e realizar uma conversão ecológica que inclui. Não é fácil, mas há alternativa. “A economia solidária é uma matriz produtiva comprometida com a vida. Muitos movimentos sociais já se deram conta disso e é por isso que digo que precisamos olhar para as dinâmicas deles”, detalha.

 

O episódio da pandemia, mais uma vez, revelou a importância do Estado como ente capaz de oferecer proteção social. “Isso nos faz pensar, por exemplo, numa renda universal. Essa renda poderia ser viável desde uma reforma tributária que tivesse como objetivo gerar recursos para viabilizar essa renda”, diz Claudia. Aliás, uma reforma tributária eficiente poderia privilegiar recursos não só para renda universal, mas para uma série de políticas públicas que geram um estado de bem-estar. Afinal, também na pandemia, ficou mais do que evidente a importância de políticas de saúde pública e o próprio Sistema Único de Saúde, o SUS.

 

Outra ação fundamental é com relação ao capitalismo financeirizado. “Precisamos romper com essas lógicas dolarizadas e esse mercado de capitais que geram lucros para alguns e reforçam as desigualdades”, acrescenta Claudia.

 

“Trabalhar pela nova economia é pensar pela democracia”

A conferência é encerrada com a fala de Roberto, que traz a figura de d. Helder Câmara. “Ele tocava nessas questões há 40 anos, destacando a importância de olharmos para o que chamava de as ‘minorias abraâmicas’”, recorda. Para Roberto, o convite do papa Francisco à conversão traz a memória de muitos outros profetas que despertaram para essas causas. “Por isso é importante compreender que Economia de Francisco é um processo que não começa e não deve terminar em Assis”, enfatiza.

 

Seguindo na linha da Ecologia Integral e sua perspectiva de interconexão, Roberto defende que pensar nessa outra economia, especialmente valorizando aqueles que, como diz, “são menorizados”, é tocar também em questões relacionadas à democracia. “E podemos olhar para o exemplo de países da América Latina, como o Chile, que busca uma reconstrução pós-políticas liberais instauradas num regime de muita violência”, exemplifica. “O Brasil vem sofrendo violentos golpes de cerceamento da democracia”, acrescenta ao lembrar que uma economia que exclui, alija também a participação. “Por isso, trabalhar para nova economia é pensar pela democracia e ampliar a participação”.

 

Ele ainda lembra das contribuições de economistas de destaque na História do Brasil, como Celso Furtado, que defende uma maior participação das forças sociais no controle do Estado. “Ele dizia que é preciso envolver na participação aqueles que estão à margem das políticas econômicas, pois assim a sociedade tem decisão sobre políticas públicas”, recupera. “Agora, veja o que acontece quando assume um ministro da Economia: se reúne com empresários, industriários e representantes de grandes organizações”, salienta.

 

Falar em desigualdades, mas com rostos

Roberto ainda recorda que, “para Celso Furtado, não basta falar de desigualdades, pois é preciso olhar para rostos locais”. E são rostos que vivem realidades diferentes até dentro de uma mesma região. Ele traz o exemplo do Nordeste brasileiro. “Temos centros urbanos com muitas tecnologias e, ao mesmo tempo, no interior vemos uma pobreza que remonta ao século XIX”.

 

Assim como Claudia e os demais, Roberto acredita no protagonismo dos movimentos sociais. “Quando vemos os movimentos, percebemos outra sociedade, que põe a democracia no centro”, analisa. “Tudo que trouxemos até aqui são medidas urgentes no tempo presente. Trabalhemos o local e o global, ambos precisam estar articulados”, finaliza.

“Quando vemos os movimentos [sociais], percebemos outra sociedade, que põe a democracia no centro”

 

Uma crise, uma mudança de época e as possibilidades de sairmos piores ou melhores

Da fala dos jovens que seguem empenhados em discutir a possibilidade de uma outra economia, a partir da provação do papa Francisco, fica a questão: é mesmo possível essa transformação? Para ele, a capacidade de sonhar não pode ser tirada, a utopia é necessária. Além disso, esse não é um sonho utópico, é a possibilidade de pensarmos grandes movimentos a serem realizados em atitudes concretas no cotidiano, que podem parecer pequenas, mas que no fim trazem um grande impacto. Como diz o Papa, “sigam jovens!”, pois é na juventude que pode haver uma chave para uma conversão, e que pode contaminar a todos.

 

Aliás, as transformações que estamos sofrendo e a aceleração dos processos em tempos pandêmicos têm servido para muitos como ponto de inflexão. É sabido que as medidas para frear a covid-19 nos cansam e afetam a saúde física e emocional. Mas é preciso não perder de vista que vivemos essa mudança epocal, avaliando o que de fato queremos ser e levar para novos tempos. Mais uma vez, o papa Francisco nos confronta com essa realidade, quando, agora em novembro, em discurso no Seminário virtual, promovido pela Pontifícia Comissão para a América Latina, a Pontifícia Academia das Ciências Sociais e do Conselho Episcopal Latino-Americano - CELAM, provoca: “A pandemia nos deixou ver o melhor e o pior dos nossos povos e de cada pessoa. Agora é preciso retomar a consciência da nossa pertença comum”.

 

Saiba mais sobre os cinco jovens

Claudia de Andrade Silva é arquiteta e urbanista, e mestranda pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU-USP, com pesquisa relacionada ao direito à cidade. Atua junto aos movimentos de luta por moradia em ocupações urbanas de São Paulo e junto à pastoral do povo de rua em Guarulhos.

Klaus da Silva Raupp é graduado em Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, advogado em Santa Catarina, mestre em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. É professor na área teológica, e doutorando em teologia e educação pelo Boston College, universidade jesuíta nos Estados Unidos, com pesquisa sobre design de currículo de educação religiosa com foco em justiça econômica.

Lucas Prata Feres é economista pela Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, e mestrando no Instituto de Economia da Unicamp, com pesquisa sobre o mundo do trabalho no capitalismo contemporâneo.

Roberto Jefferson Normando é filósofo, foi assessor das Pastorais Sociais do Regional Nordeste 2 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB, que compreende os estados de Alagoas, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte. Atualmente é coordenador executivo do Observatório Social do Nordeste.

Tatiana Vasconcelos Fleming Machado é economista pela Universidade Federal de Juiz de Fora - UFJF, e pós-graduada em Ciência de Dados pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro - PUC-Rio. Tem experiência com economia industrial e economia da cultura. Ela é organizadora e tradutora do artigo "O propósito da tecnologia e do humano: Dados, reflexões e possibilidades para a Economia de Francisco", publicado pela IHU On-Line, na coluna Rumo a Assis: na direção da Economia de Francisco.

Tela de Kassio Massa, Arquiteto, urbanista e artista visual com graduação pela FAU Mackenzie, e mestrando na mesma universidade. Atua com desenho, fotografia e meios digitais.

 

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