Como o Papa Francisco foi escolhido para liderar a Igreja Católica. Entrevista com Gerard O’Connell

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03 Maio 2019

Como o Papa Francisco foi escolhido, os problemas que herdou de Bento XVI e como Francisco representa “um grande número de ‘primeiros’”. A eleição do Papa Francisco no dia 13 de março de 2013 foi um momento crucial na história da Igreja Católica. Gerard O’Connell nos leva em uma visita guiada a esse importante evento em “The Election of Pope Francis: An Inside Account of the Conclave the Changed History” [A eleição do Papa Francisco: um relato interno do conclave que mudou a história] (Orbis Books, 2019).

A reportagem é de Joseph Richard Preville, publicada por World Religion News, 01-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O’Connell é um renomado jornalista e vaticanista da America, a revista semanal publicada pelos jesuítas dos Estados Unidos. Ele é o autor de “Do Not Stifle the Spirit: Conversations with Jacques Dupuis” [Não sufoque o Espírito: conversas com Jacques Dupuis] (Orbis Books, 2017).

O relato de O’Connell sobre o conclave de cardeais de 2013 baseia-se em uma pesquisa meticulosa e em informações de primeira mão obtidas com fontes com conhecimento de causa e, em muitos casos, confidenciais, dentro e fora do Vaticano. O que O’Connell produziu é um raro e fascinante vislumbre do misterioso processo de como o Papa Francisco foi escolhido para liderar a Igreja Católica e seu 1,3 bilhão de membros no mundo hoje.

Eis a entrevista.

Por que você acha que a eleição do Papa Francisco, o então cardeal Jorge Mario Bergoglio, da Argentina, no dia 13 de março de 2013, foi aplaudida em todo o mundo por católicos e não católicos?

A partir do momento em que Francisco apareceu na sacada central da Basílica de São Pedro para saudar o povo pela primeira vez como papa, todos puderam ver que a Igreja Católica tinha um tipo de líder muito diferente, um homem de grande humildade, um homem de Deus que usa palavras simples e gestos poderosos para ir ao encontro do coração das pessoas. Ele alcançou seus corações imediatamente com sua saudação simples: “Irmãos e irmãs, boa noite!”. Ele as fez rir ao dizer que os cardeais foram “até o fim do mundo” para encontrar o novo bispo de Roma. Ele as levou às lágrimas ao convidá-los a rezar pelo seu antecessor, Bento XVI, e ao rezar as orações que todo católico conhece: Pai-Nosso, Ave-Maria, Glória ao Pai. Depois, antes de conceder sua bênção, Francisco pediu que os fiéis na Praça de São Pedro pedissem a bênção de Deus sobre ele e então surpreendeu a todos ao se curvar diante deles enquanto rezavam. Nenhum papa jamais havia feito isso.

Como a eleição do Papa Francisco representou “um grande número de ‘primeiros’”?

Francisco é o primeiro papa do hemisfério Sul, o primeiro das Américas, o primeiro da América Latina, onde vive quase a metade dos católicos do mundo, e o primeiro papa jesuíta. Até agora, quase todos os papas foram europeus, e a grande maioria deles italianos, com um pequeno número do norte da África. Além disso, ele é o primeiro dos 265 sucessores de São Pedro a escolher o nome Francisco, um nome que encapsula o seu programa como papa.

Por que o Papa Francisco escolheu o nome de São Francisco de Assis?

Ele explicou por que escolheu esse nome no dia 16 de março, quando cumprimentou os 6.000 membros da mídia internacional que cobriram o conclave. Ele revelou que, ao chegar aos dois terços dos votos necessários para a eleição, o cardeal brasileiro Claudio Hummes, que estava sentado ao seu lado, deu-lhe um abraço e um beijo e disse: “Não se esqueça dos pobres”. O Papa Francisco disse aos repórteres: “E essa palavra entrou aqui: os pobres, os pobres. Depois, imediatamente, em relação aos pobres, pensei em Francisco de Assis. Depois, pensei nas guerras (....) E Francisco é o homem da paz. E, assim, veio o nome no meu coração: Francisco de Assis. Para mim, ele é o homem da pobreza, o homem da paz, o homem que ama e protege a criação (...) Ele é o homem que nos dá esse espírito de paz, o homem pobre” (depois o Papa Francisco acrescentou: “Como eu gostaria de uma Igreja pobre e para os pobres!”).

Que problemas críticos enfrentados pela Igreja Católica o Papa Francisco herdou de seu antecessor, o Papa Bento XVI, que renunciou no dia 28 de fevereiro de 2013?

A Igreja Católica enfrentou muitos problemas no momento da renúncia de Bento XVI. Havia problemas no governo central da igreja, no Vaticano; documentos vazados revelavam disputas internas; havia escândalos, tanto financeiros quanto de abusos sexuais de menores pelo clero; a situação parecia fora de controle. Na época, a Igreja Católica na Europa estava em declínio visível, enquanto na América Latina muitos católicos estavam se unindo aos evangélicos ou aos pentecostais. Havia preocupação com a população católica cada vez menor na Terra Santa e em todo o Oriente Médio, e com a difícil situação da Igreja na China, assim como com a perseguição religiosa em muitos países. Além disso, o diálogo entre os católicos e os seguidores de outras religiões, especialmente o Islã, estava em um momento difícil, e isso colocava em perigo a paz e a harmonia no mundo. Havia outros problemas graves também, ligados à pobreza, aos conflitos armados, à intolerância religiosa, que forçavam as pessoas a migrar.

Você observa que o cardeal Jorge Mario Bergoglio recebeu 85 dos 115 votos finais do conclave de cardeais de 2013. Em sua opinião, quais foram os fatores ou as razões que influenciaram mais de dois terços dos cardeais a votarem nele?

Eles viram nele um líder profundamente espiritual, “um homem de Deus”, um fiel humilde e autêntico que vivia uma vida simples, um homem sem ambição, que evitava os símbolos de status e de poder, e que tinha um grande amor pelos pobres. Eles viram que ele era, em primeiro lugar e acima de tudo, um pastor, com uma longa experiência de governo de uma grande diocese. Eles o ouviram fazer um discurso breve e inspirador na assembleia plenária de cardeais (as Congregações Gerais) na véspera do conclave, que revelou que ele é um líder com uma visão, um bom comunicador, capaz de tocar os corações. Eles viram, então, que ele era bem diferente dos outros candidatos; era um missionário inspirador, cheio de frescor e missionário, uma liderança da Igreja que estava olhando para o mundo, não para dentro. Além disso, 68 dos 115 eleitores haviam participado do conclave de 2005 que elegeu Bento XVI e sabiam que ele foi o segundo colocado da época.

Quais foram alguns dos primeiros sinais de que o Papa Francisco teria “um novo estilo de papado”?

Houve muitos. Imediatamente após a sua eleição, ele optou por manter a simples cruz de prata que usava como bispo, rejeitando a de ouro que lhe foi oferecida.

Ele insistiu em usar seus velhos sapatos pretos que ele usava nas ruas e nas favelas de Buenos Aires, e não os trocar pelos sapatos vermelhos feitos especialmente para o novo papa.

Ele se recusou a usar a limusine papal, optando por um pequeno carro popular. Ele se recusou a morar no Apartamento Papal do Palácio Apostólico e, ao contrário, preferiu morar em um pequeno apartamento em Santa Marta, a pousada vaticana.

Ele se recusou a se sentar em uma cadeira em um palco elevado quando se reuniu com líderes de outras Igrejas cristãs ou de outras religiões, preferindo sentar-se no mesmo nível.

Ele fez dos pobres uma prioridade do seu pontificado e convidou o líder dos catadores de lixo de Buenos Aires para a sua posse, dando a ele um lugar na primeira fila.

O que a eleição do Papa Francisco significa para você pessoalmente? Você sentiu que foi testemunha de um momento histórico na Igreja Católica?

Como eu escrevi no meu livro, foi uma experiência muito extraordinária cobrir o conclave e traçar o caminho ao papado do homem que a minha família e eu conhecemos tão bem e amamos. É difícil descrever as emoções que eu senti quando ouvi o cardeal protodiácono anunciar que o cardeal Jorge Mario Bergoglio havia sido eleito papa. Eu entendi que a sua eleição representava uma mudança sísmica na história da Igreja Católica e me alegrei com isso. Eu sabia que o mundo logo veria um estilo de papado muito diferente, pois ele se descrevia como bispo de Roma em vez de papa; ele descobriria que os cardeais do conclave haviam escolhido um homem profundamente santo, um pastor e profeta destemido que usa gestos tanto quanto palavras para liderar a Igreja Católica no século XXI.

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