“Duas ou três coisas que sei sobre essa pandemia: quando reabrir, onde nos contagiamos, os erros a não serem repetidos”. Entrevista com Ernesto Burgio

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14 Abril 2020

Enquanto outros falavam de gripe e vírus superestimados, com exposição midiática digna de influenciadores da saúde, Ernesto Burgio é um daqueles médicos que nessa crise de coronavírus falaram pouco e somente quando questionados.

A entrevista é de Gea Scancarello, publicada por Business Insider, 09-04-2012. A tradução é de Luisa Rabolini.

Pediatra, especialista em epigenética e biologia molecular, além de presidente do comitê científico da Sociedade Italiana de Medicina Ambiental e membro do conselho científico do Instituto Europeu de Pesquisa sobre Câncer e Meio Ambiente, em Bruxelas, Burgio optou se manifestar apenas sobre coisas extremamente significativas: por conteúdo e pela clareza.

Pedimos que ele nos ajudasse a entender o que realmente está acontecendo agora: quando reabrir ("Absolutamente não antes de meados de maio"), onde estamos nos contagiando ("Em casa, na família, no trabalho: não ao ar livre") e por quanto tempo dura a imunização ("O vírus é instável, então não podemos saber").

Mas também a cadeia de erros que nos trouxe aqui e quais não repetir.

Eis a entrevista.

Havia um plano na Itália para gerir a epidemia e foi implementado?

Nós devemos fazer uma premissa. Sabemos que periodicamente circulam vírus no mundo que causam enormes danos, pois não são conhecidos pelo sistema imunocompetente humano. Sabemos disso de maneira mais definida há pelo menos 23 anos, ou seja, desde quando, em 1997, um novo vírus da influenza, que nunca havia atingido homens, o H5N1, primeiro matou uma criança em Hong Kong e causou o início de uma série de surtos epidêmicos no Extremo Oriente (China, Indonésia, Vietnã), revelando um dos vírus mais letais da história humana (taxa de letalidade de 58%).

Nesse ponto, disparou o alerta para uma possível primeira pandemia do século XXI: aqueles que lidaram com esses vírus - eu fiz isso entre 2002 e 2006 - sabiam que mais cedo ou mais tarde aconteceria. Não só, portanto, houve o alarme reiterado várias vezes durante 20 anos por cientistas e pesquisadores, mas também houve importantes trabalhos de pesquisa sobre esses vírus. Finalmente, uma série de eventos ocorreu, começando com o coronavírus da Sars em 2002-2003, o que acentuou ainda mais o alerta. De fato, os países asiáticos - China, Japão, Hong Kong e Taiwan e a própria Coreia, apesar de alguns momentos de dificuldade inicial - foram capazes de responder ao vírus, cada um de maneira diferente. Por todo o Ocidente, no entanto, não apenas não havia planos reais para enfrentar uma emergência pandêmica, mas o que estava acontecendo no Oriente era enormemente subestimado. Na Itália, em 31 de janeiro, foi declarado no Diário Oficial, o estado de alarme pré-pandêmico, mas muito pouco foi feito para se preparar para enfrentá-lo, ou seja, para informar corretamente os cidadãos, formar adequadamente os profissionais de saúde e, acima de tudo, preparar planos de proteção para hospitais e operadores da saúde.

Declarar uma emergência tinha que ser útil, caso o vírus tivesse realmente chegado e se disseminado, como aconteceu mais tarde, para não ficar sem um número adequado de testes e sem a possibilidade de proteger os profissionais de saúde.

O que efetivamente aconteceu. Por que nada foi feito e, acima de tudo, quem estava encarregado de fazer alguma coisa?

Isso não foi feito porque, desde a pandemia de gripe asiática em diante, ou seja, desde 1957, não houve nada semelhante no Ocidente. E sem a experiência direta dessas coisas, mesmo aqueles que leem a respeito em artigos e livros geralmente não estão preparados. Também se deve dizer que na Itália não existem grandes especialistas em vírus pandêmicos. Uma exceção é o professor Crisanti, um parasitologista da Universidade de Pádua que estudou esse tipo de problema: de fato, a região do Vêneto, que ouviu suas recomendações, teve problemas muito menos do que outras regiões do norte da Itália.

Chegamos aos eventos atuais. Atualmente, a contenção social é a única medida que todos usam, embora com um aumento progressivo da ansiedade social, e com episódios de caça ao contaminador. Mas sair do ar livre, mantendo as distâncias e claramente nem todos juntos, é realmente perigoso para o contágio?

Precisamos de outra premissa. Há três variáveis a considerar:

1. o vírus;

2. as condições da população;

3. e as dos serviços de saúde.

O vírus, pelo que podemos entender hoje, tem alta contagiosidade. Nesses casos, fala-se de R0, um indicador de quantas pessoas pode contagiar aquele que está infectado. Quando R0 é maior que um - e, neste caso, provavelmente está entre 3 e 3,5 -, um desastre pode ocorrer dentro do período de um mês, porque a população infectada cresce de modo exponencial. Se houvesse um plano, se em janeiro, quando o contágio já se disseminava na China, tivéssemos procurado ativamente as pneumonias relatadas por alguns, poderíamos ter evitado o bloqueio, porque teríamos tempo de fazer o que foi feito no Vêneto. Como não implementamos imediatamente estratégias de contenção e vigilância ativa, perdemos quase um mês em relação a 31 de janeiro - a data da declaração de emergência - e foi necessário bloquear o país e reduzir drasticamente qualquer contato físico: acredito que o governo, nesse ponto, fez a escolha certa.

Mas hoje tudo está bloqueado e ainda existem novos contágios. Onde as pessoas estão se contagiando?

Uma coisa deve ficar clara: sendo um vírus respiratório, 90% das infecções ocorrem entre pessoas que têm um relacionamento direto, que têm uma exposição próxima, em ambientes fechados. Ou seja: família, locais de trabalho e, infelizmente, hospitais. É muito difícil se infectar na rua: essa ideia que surgiu nos últimos dias é quase uma fake news. Se fosse um vírus que é suficiente respirar na rua para ficar doente, estaríamos todos mortos.

A obrigação de usar máscaras ao ar livre também é sensata?

Outra premissa. As máscaras devem ser usadas de forma séria e contínua, e esse não foi o caso, também porque os hospitais não as receberam a tempo: ainda não estão à disposição de muitos profissionais de saúde. Os trabalhadores da saúde precisavam ser formados, tanto para o atendimento geral quanto o especializado e, inclusive, uma máscara não é suficiente para protegê-los: eram necessários equipamentos semelhantes aos vistos na China e que hoje foram adotados muito bem apenas pelo hospital de Cotugno em Napoli.

Para as pessoas comuns, a máscara antes de ser uma obrigação deveria ter sido algo a ser usado espontaneamente para proteger os outros. De fato, se formos expostos a uma pessoa que tosse, a máscara é insuficiente; mas se formos expostos a um assintomático que nem sabe que tem o vírus, a máscara bloqueia a maioria das gotículas, o principal veículo de contágio. No entanto, existem jornais com a manchete: "O ar está repleto de vírus, coloquem suas máscaras". Não só é um exagero, mas se o vírus pode estar no ar, está presente em pequenas quantidades, por isso é quase melhor encontrá-lo: não podemos escapar disso, se quisermos, mais cedo ou mais tarde nos imunizar. O importante é não o encontrar em quantidades perigosas.

Você mencionou os assintomáticos. Você pode explicar melhor o que isso significa e o que acontece com eles?

Primeiro, deve-se dizer que no estudo realizado pela China quase não havia menção a assintomáticos. Os chineses haviam estabelecido que 5% da população apresentaria situações críticas e muito graves e possivelmente acabaria na terapia intensiva; que 15% teriam tido situações graves com necessidade de oxigênio e os 80% restantes sintomas mais ou menos graves. Os assintomáticos pouco apareciam. Pelo contrário, pelo que estamos vendo, provavelmente 50-60% das pessoas que encontram esse vírus têm formas assintomáticas ou paucissintomáticas.

Se alguém tiver um pouco de dor de cabeça, dor de garganta ou talvez um pouco de conjuntivite por alguns dias, significa que provavelmente encontrou o vírus, não desenvolveu uma forma significativa de doença, mas o vírus prolifera em sua garganta: isso significa ser assintomático. Quem é que não tem ideia de ser contagioso: é por isso que as máscaras são importantes. Ninguém pensa que uma dor de garganta comum possa ser perigosa, mas, ao conversar com outra pessoa, não apenas por poucos segundos, mas talvez alguns minutos a curta distância, a cada respiração emite uma série de vírus. O assintomático não é responsável pois desconhece sua condição, mas se é verdade que metade dos infectados é assintomático, temos um fator de risco maior: o vírus contagia mesmo sem a necessidade de tosse ou outros sintomas.

Quanto tempo dura a condição assintomática? Quanto tempo podem contagiar sem sabê-lo?

A contagiosidade dura nos assintomáticos cerca de 10 a 15 dias e é mais grave nos primeiros 3 ou 4 dias, mas o vírus ainda resiste na garganta cerca de uma semana. Nas pessoas que ficam doentes, a contagiosidade varia de 20 a 40 dias, dependendo da gravidade do quadro: naqueles graves, permanece significativa mesmo durante a convalescença, mas é claro que a contagiosidade máxima ocorre no período inicial.

Vamos falar da imunização. Quanto tempo dura razoavelmente? Se eu tive a Covid-19, por quanto tempo estou protegida?

Para imunizar devem ser criados os linfócitos da memória e, portanto, os anticorpos, tanto para os indivíduos quanto para a população. Ora, isso acontece quando um vírus é relativamente estável, mas estamos diante de um vírus que provavelmente - de acordo com o que sabemos por enquanto - vem de um morcego, deu o salto de espécie há poucos meses e é muito instável, então continua tendo mutação. Continuando com mutações no plano genético e também no plano antigênico: significa que as proteínas da superfície são sempre diferentes. As pessoas que encontram o vírus durante esse período produzem anticorpos, mas se o vírus retornasse daqui a quatro meses com as proteínas da superfície modificadas, não temos certeza de que a imunização seria estável. Ainda mais porque em uma população sujeita a um longo período de isolamento o contato com o vírus é muito baixo: grandes tragédias são evitadas - a ideia inicial dos anglo-saxões e estadunidenses da imunidade de rebanho teria significado milhões de mortes - mas o risco é que seja preciso muito mais tempo para ter imunidade.

Gestão da crise: a impressão é que entre o "efeito do anúncio" de coletivas de imprensa diárias, declarações e entrevistas e um choque nem tão latente entre governo e regiões, particularmente na Lombardia, não tenha havido muita clareza nas informações para os cidadãos. O Istituto Superiore di Sanità (ISS) não deve ditar as regras a serem aplicadas uniformemente, por exemplo, nos testes?

Não havia clareza de informações, porque informações claras só poderiam ser fornecidas por um especialista, e estamos em um país onde não há grandes especialistas nesse tipo de problema: esse é o problema básico. Não é apenas um problema italiano, o que não significa que isso seja menos ruim, mas significa que o Istituto Superiore di Sanità na Itália, como o INSERM, o homólogo francês, não forneceram informações claras porque não esperavam um drama dessas proporções.

Vamos entrar em detalhes, começando pelos testes. O fato é simples: não tínhamos e ainda não temos o suficiente. No início de janeiro, alguns de nós pedimos para se preparar, estocar testes porque isso nos permitiria fazer como os chineses ou os coreanos, que aplicam em média 20/30 mil testes por dia. Eles fazem isso com aqueles que têm sintomas e com seus contatos, então eles colocam rigidamente em quarentena e bloqueiam a epidemia. Isso é chamado de vigilância ativa. O primeiro padrão de ouro é que a epidemia é mantida no campo, não nos hospitais. E nós não fizemos isso.

Se não havia os testes e não havia a vigilância ativa, não se poderia pelo menos informar melhor os cidadãos sobre algumas precauções a serem tomadas?

Em parte, foi feito, mas cada região agiu de maneira diferente porque as coisas se apresentaram de maneira diferente. Desde o final de janeiro, tentamos avaliar com base nas sequências há quanto tempo o vírus está presente na Itália: no início de fevereiro, já era evidente que o vírus circulava há algum tempo. Quem analisou as primeiras sequências, sabia que não só estava na Itália, mas que havia várias passagens: o vírus havia estado na Alemanha, na Austrália e assim por diante. Em suma, a informação estava disponível. Mas quando o bloqueio chegou, cada região agiu de maneira diferente. O Vêneto foi parcialmente salvo porque os especialistas aconselharam imediatamente o governador Zaia, que os ouviu: se você for ver as estatísticas de mortalidade do Vêneto e da Lombardia, não há comparação. Na Lombardia, a situação foi enfrentada de forma mais leve, embora o termo seja muito pouco comparado aos fatos: havia o alarme, havia os vídeos chegando da China e muitos de nós continuamos a alertar, mas foram autorizadas partidas de futebol, encontros de 20.000 torcedores para comemorar, feiras. É claro, portanto, que nessas áreas o vírus se disseminou. A Lombardia tem um dos sistemas de saúde entre os melhores na Itália e foi a que teve a pior crise, porque houve um atraso muito significativo de 10-15 dias. Em suma, as responsabilidades por esse desastre estão aí, mas não são apenas do ISS: são um pouco de todos.

A política deve agora decidir como agir para a famosa fase dois, uma vez que o famoso platô parece ter sido alcançado. O que acontecerá no final do isolamento?

Perdoe-me, mas tenho que fazer outra premissa. Eu tenho muito medo, não tanto do político que talvez tenha demorado algum tempo para entender, mas dos idiotas que estão sempre por aí repetindo insistentemente - e infelizmente muitos são biólogos e médicos - que o vírus foi superestimado, que as mortes não são realmente causadas pelo vírus e assim por diante. Essas coisas não podem ser toleradas quando temos mais de 80 médicos mortos e desastres em todo o mundo, provavelmente e infelizmente apenas no início. Tendo esclarecido isso, acho que não é garantido que já alcançamos o platô. Para decidir, devemos avaliar se as taxas de mortalidade ficam mais estáveis, porque todos os outros cálculos, por exemplo, os casos confirmados, dependem de quantos testes são feitos. O único dado nos quais podemos confiar são as mortes, e se já há algum tempo temos cerca de 600 a 700 mortes por dia, não se pode dizer que a crise esteja diminuindo apenas porque temos menos casos confirmados e, portanto, menos hospitalizações. Tenho a impressão de que muitos não vão ao hospital porque entendem que é perigoso. Se tudo correr bem, chegamos perto do platô, mas ainda não estamos em declínio: é inútil tranquilizar, porque as pessoas não confiam mais. Nesse ponto, temos que silenciar os idiotas de que falamos antes e tentar ajudar o governo e os técnicos - que deveriam já ter entendido a situação - a manter medidas de contenção com rigor suficiente até termos certeza de que há boas chances de ter desacelerado o curso do vírus e, acima de tudo, isolar verdadeiramente os últimos focos restantes desse desastre.

Mas todos os dias aparecem contagens dos curados, e parece que está ficando cada vez melhor. Por isso, se insiste que a economia precisa recomeçar.

Vamos começar com uma consideração: quem são os curados? São aqueles que não são mais contagiosos. Mas quantos são os que tiveram poucos sintomas e continuam contagiosos por mais 30, 40 dias? A ideia de que a economia devesse ser retomada é muito importante, mas não correndo o risco de entrar em colapso após 20 dias: seria ainda pior, até mesmo uma criança consegue entender isso. Agora que o crescimento exponencial terminou, esperamos que uma situação de crise não se desenvolva realmente no Sul: todos devemos ter muito cuidado e manter tudo parado por mais um mês.

Em suma, a pressão para reabrir depois da Páscoa é um grande erro?

Acredito que teremos que esperar para uma reabertura parcial de algumas partes do circuito econômico-financeiro por volta de meados de maio, desde que os casos quase tenham desaparecido. Nesse ponto, será necessário deixar claro para os responsáveis, ou seja, essencialmente os que governam e os que regem as sortes econômicas do país, que há uma coisa fundamental a ser feita ...

Qual?

Já tivemos 12.300 profissionais de saúde infectados e 80 mortes entre médicos. Os dados sobre a morte de enfermeiros, paramédicos e outros profissionais de saúde não estão sendo divulgados: serão no mínimo iguais e ninguém fala sobre isso. Isso é inaceitável: não podia acontecer e não podemos arriscar que isso aconteça novamente. Desde o início, pedimos - e, acredite-me, temos a documentação isso, pelo menos desde o início de fevereiro - para organizar corredores alternativos, porque o vírus não devia ter entrado nos hospitais. Se conseguirmos desacelerar e depois diminuir os casos para que seja possível retornar a uma certa normalidade em meados de maio, a reflexão e os investimentos deverão ter como objetivo reestruturar o sistema nacional de saúde que foi literalmente devastado nos últimos 15 a 20 anos de políticas liberais e de privatizações. Anos e escolhas que enfraqueceram tudo, reduziram o número de médicos e leitos. Também teremos, e não é uma coisa secundária, que ter à disposição todo o equipamento de proteção que hoje apenas o hospital de Cotugno forneceu à sua equipe. Se não conseguirmos fazê-lo rapidamente, é evidente que uma segunda fase possível/provável será pior que a primeira. Então, sim, à recuperação da economia, mas fortalecendo o sistema de saúde e ajudando os cidadãos a terem uma consciência diferente: serem informados, formados e protegidos.

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