A cúpula de proteção às crianças de Francisco pode ser a aposta de mais alto risco do seu papado

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14 Setembro 2018

A grande história de quarta-feira no Vaticano foi, sem dúvida, o anúncio de que o Papa Francisco convocou todos os presidentes de conferências nacionais dos bispos católicos de todo o mundo, mais de 100 prelados no total, para Roma, de 21 a 24 de fevereiro, para uma reunião sobre “a proteção de menores”.

A reação imediata foi presumir que se tratava de um esforço do Vaticano para reformular a narrativa sobre Francisco e os escândalos de abuso sexual da Igreja, depois do que foi um mês excepcionalmente brutal.

A reportagem é de John L. Allen Jr., jornalista, publicada por Crux, 13-09-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Começou com o relatório do grande júri da Pensilvânia em meados de agosto e culminou com uma bombástica acusação de duas semanas atrás, de seu ex-embaixador nos EUA, de que Francisco sabia sobre alegações de má conduta sexual contra o ex-cardeal Theodore McCarrick cinco anos atrás e as ignorou.

Com certeza, a reunião de fevereiro deixa na cara que as questões tratadas não são nada normais. É raro o Vaticano convocar todos os presidentes das conferências episcopais do mundo por qualquer que seja o motivo, e é a primeira vez que o Vaticano convoca um grupo de tanta representatividade da alta liderança para falar sobre a crise dos abusos.

O que o Papa e seus assessores podem ter em mente nessa linha é o exemplo do Chile. À medida que a crise de abuso desse país se intensificou em 2016 e 2017, Francisco foi amplamente visto como hostil às vítimas, até mesmo acusando-as de "calúnia" em janeiro deste ano por continuarem criticando um bispo que eles acreditam que tenha encoberto seu agressor.

As coisas mudaram rapidamente, no entanto, quando Francisco convocou todos os bispos do Chile para Roma, em maio, no final do qual todos eles apresentaram suas renúncias. O Papa também reprimiu severamente os bispos chilenos, acusando abertamente alguns deles de serem culpados não apenas de fechar os olhos, mas de participar ativamente em encobrimentos, como em destruição de provas para impedir investigações criminais.

O efeito resultante foi sugerir que Francisco passou de ser parte do problema a de chave para a solução, e mais ou menos apagou o que tinha sido uma potencial fogueira midiática. Desde então, parte desse ímpeto perdeu força, já que Francisco só aceitou a renúncia de cinco desses bispos e sem nenhuma explicação pública sobre o motivo. Apesar disso, muitas pessoas há um mês ainda teriam dado a ele o benefício da dúvida.

Por analogia, Francisco e sua equipe podem estar pensando que convocar presidentes de conferências episcopais poderia ter o mesmo efeito tônico na atmosfera atual, projetando a imagem de um Papa decidido a acertar a situação.

O que eles podem não perceber totalmente, no entanto, é o quanto isso é maior do que o Chile. De fato, esta pode ser a aposta mais arriscada do papado de Francisco, porque se isso der errado, as consequências poderiam ser paralisantes em escala global.

Nos últimos cinco anos e meio, dezenas de vezes me envolvi em conversas - às vezes com pessoas da Igreja, às vezes com colegas da mídia, às vezes no circuito de palestras - cujo assunto é: “Existe alguma coisa que pode acabar com o caso de amor do público com este Papa?"

Francisco é uma figura tão contagiante e inspiradora que essa foi sempre uma pergunta difícil de responder. Normalmente, eu diria algo como o seguinte: "Se o Papa passou a ser visto como sujo na bagunça do abuso, isso deve ser a única coisa que poderia fazer isso."

Agora, esse é precisamente o ponto em que parecemos estar: as pessoas estão perguntando se o Papa realmente pretende cumprir o que diz sobre a reforma e se é pessoalmente culpado por encobrir o abuso.

A única saída parece estar em duas frentes.

Primeiro, o Vaticano terá que revelar o que sabia e quando soube, começando pelo caso McCarrick. Hoje (13-09-2018), Francisco se reunirá com a liderança da conferência dos bispos dos EUA para discutir sua solicitação de uma investigação da saga de McCarrick, e é difícil de saber como perguntas sobre a participação do Vaticano poderiam ser retiradas da mesa a priori sem prejuízo em relação a credibilidade.

(É verdade que o cardeal Daniel DiNardo de Galveston-Houston, presidente da conferência dos Estados Unidos, está agora se recuperando das alegações de que ele falhou em responder às acusações contra um de seus padres, preso nesta semana por acusações de abuso sexual. No entanto, independentemente de quem esteja liderando a conferência, as perguntas sobre McCarrick não vão desaparecer).

Em segundo lugar, o Vaticano também terá que abordar o que a maioria dos observadores considera como o negócio inacabado da Igreja, que é criar e aplicar a mesma dura responsabilização pelo encobrimento assim com pelo crime.

Hoje, é claro que, se um padre católico é acusado de abuso de uma criança, uma investigação é automática e punição, se a acusação for considerada credível, rápida e severa. No entanto, permanece muito menos claro o que acontece quando um bispo ou outro superior da Igreja é acusado de encobrir o crime - quem investigaria, que processo seria seguido e que punição poderia ser imposta permanecem grandes incógnitas.

Essa lacuna na responsabilização é um segredo aberto, e é o ponto mais proeminente no qual grupos de defesa e outros críticos se concentram quando querem argumentar que a Igreja ainda não limpou seu ato.

Se a cúpula de fevereiro começar e acabar sem que avanços sejam percebidos nessas duas frentes, então a conclusão pode ser que esse foi um exercício cosmético e cínico, produzindo um sentimento de desilusão, do qual até mesmo uma figura formidável como Francisco poderia ter dificuldades em se recuperar.

É razoável acreditar que o Vaticano poderia apresentar progressos significativos nessas duas frentes até o final de fevereiro?

Talvez sim, talvez não, mas provavelmente não é o sinal mais encorajador observar que nenhuma dessas palavras - "transparência" ou "responsabilização" - sequer aparece na breve declaração do Vaticano de quarta-feira. Refere-se apenas a Francisco se juntando aos bispos para discutir a “proteção de menores”.

O fato de que a recomendação de convocar a cúpula veio do conselho de cardeais do Papa, “C9”, um grupo que inclui o cardeal Sean O'Malley, de Boston, que também serve como chefe da Pontifícia Comissão para a Proteção de Menores do Vaticano, pode sugerir que o foco pretendido é encorajar as conferências episcopais que ainda não o fizeram a adotar políticas antiabuso. Essa tem sido uma das principais prioridades da comissão de O’Malley desde o início.

Embora tais políticas claramente representem um passo à frente, se isso for tudo produzido pela cúpula, elas ficarão muito aquém do que muitos observadores acreditam ser necessário para contar como um progresso real nas circunstâncias atuais - começando com os grupos de sobreviventes e grupos de vigilância que estarão prestando muita atenção, e que ajudarão a moldar a narrativa da mídia depois.

Além disso, o fato de a reunião ser tão curta, apenas três dias, e de os participantes não serem ingênuos, mas os líderes eleitos das conferências nacionais de bispos que, provavelmente, não serão passíveis de ter resultados pré-fabricados simplesmente empurrados goela abaixo, pode fazer com que seja difícil de conseguir muito.

Por outro lado, imagine se a cúpula realmente atingir os objetivos. De repente, um Papa reformista que é cada vez mais visto como tendo falhado em entregar o que promete em várias frentes, como as finanças do Vaticano, teria conseguido o que dois Papas anteriores não conseguiram, e seria visto como enfrentando a crise mais séria no catolicismo provavelmente desde a Reforma Protestante.

Em outras palavras, Francisco tem muito a perder se isso der errado, e muito a ganhar se der certo - a definição do dicionário, portanto, de uma jogada de alto risco.

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