Viagem ao Chile. O Papa Francisco encontrará uma Igreja católica em crise

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06 Julho 2017

Por que o Papa visitará o Chile? É difícil saber. Mas uma visita sua pode ajudar uma Igreja chilena em crise. Francisco pode reanimá-la. Pode potencializar seu compromisso com os mais pobres.

O artigo é de Jorge Costadoat, teólogo e jesuíta chileno, publicada por Reflexión y Liberación, 04-07-2017. A tradução é de André Langer.

Ganha especial relevância o fato de que o Papa vá a Temuco, território mapuche, onde se encontram os mais pobres do país. Sua pobreza não é uma casualidade. Os mapuche foram enxotados para as piores terras pelos chilenos que se apropriaram do sul do país na metade do século XIX. Nas últimas décadas retornaram à La Araucanía empresas florestais e de extração mineral sem respeito pela sensibilidade ecossocial de um povo que vive em paz com os outros e com a natureza. Hoje, a região, além de vítima de um genocídio histórico, experimenta a resistência violenta de grupos mapuche extremistas. A Igreja, naqueles lugares, desenvolve um trabalho pastoral importante a favor dos mapuche.

Também é relevante que o Papa vá a Iquique. Ali acontece a festa religiosa de La Tirana, uma das mais populares do país. Uma festa de gente pobre e profundamente católica. Além disso, Iquique é, hoje, uma cidade de muitos imigrantes.

Pessoas que vêm de outros países latino-americanos em busca de melhores condições de vida. Sabemos que o Papa tem uma preocupação especial com os migrantes. A Igreja chilena também tem esta preocupação e desenvolve diversos apostolados em seu favor.

Por outro lado, os católicos encontram-se em uma situação de grande desencanto. Muitos abandonam a Igreja. Os católicos, nos últimos 20 anos, tiveram uma queda de praticamente 20%. Atualmente, devem ser 57% da população (Latinobarómetro).

Quais são as causas? Sem dúvida, a principal causa é uma forte mudança cultural semelhante àquela que ocorreu no resto do mundo devido a uma globalização que quebra a cultura tradicional e enfraquece tanto as instituições civis, como as religiosas, inclusive aquelas que promovem os melhores valores da humanidade. Esta mudança se deve em grande parte à busca econômica do máximo de lucro e do mercado que reduz as pessoas a indivíduos que devem competir para “ser alguém” pela via do consumo, e não pelo caminho da solidariedade. Neste contexto, o catolicismo chileno enfraqueceu. As pertenças comunitárias estão em crise. Estão minguando as paróquias, as comunidades eclesiais de base, as comunidades religiosas, os movimentos de leigos, a assistência aos sacramentos e a participação na Eucaristia dominical, e não há nenhum sinal de originalidade mais ou menos significativo. Por outro lado, as ajudas internacionais se reduziram (clero, religiosos e religiosas) e houve uma drástica diminuição das vocações.

O que dirá o Papa aos católicos do 1% mais rico que não têm mais onde gastar o seu dinheiro, enquanto ainda há pessoas que vivem jogadas nas ruas? Olhará nos olhos dos católicos que acumulam o 0,1% do patrimônio nacional, que compram de tudo e a todos, que corrompem a classe política e ganham lucros estratosféricos com seus favores?

A Igreja chilena, por outro lado, sofreu como nenhuma outra da América Latina o impacto dos escândalos dos abusos sexuais, psicológicos e espirituais do clero e a falta de colaboração das autoridades religiosas para fazer justiça às vítimas. Bergoglio vai se reunir com essas vítimas mesmo para dar apenas um aperto de mão? É verdade que o Papa terá uma agenda bem cheia. Mas poderia priorizar um encontro com elas. Também poderia visitar as salas que as dioceses destinaram à acolhida e ao atendimento dos reclamos de justiça das pessoas abusadas. Houve aprendizagens importantes. Outras atividades de sua agenda poderiam cair.

Minha impressão é que os bispos e o próprio Papa não caíram suficientemente na conta de que os leigos estão horrorizados com estes escândalos. Os jovens não confiam no estamento eclesiástico. As próximas gerações, exatamente por esta razão, não terão como acreditar em Deus. O testemunho do qual depende a transmissão da fé terá sido amputado.

O que o próprio Francisco dirá sobre a situação da Igreja de Osorno? Ele nomeou o bispo Barros para a diocese e o manteve a unhas e dentes. Ele rejeitou o reclamo dos osorninos que não queriam ter como pastor um homem de Karadima. Quer Barros tenha sido uma vítima a mais, quer tenha sido seu colaborador, os católicos do lugar têm todo o direito de reclamar (Nullus invitis detur episcopus, dizia o Papa Celestino – “nenhum bispo imposto”). Por esta reivindicação, o Papa tratou a população de Osorno de “ingênua”. Deveria pedir-lhe perdão. É urgente, além disso, que encontre uma solução para o problema criado. Os leigos estão com raiva, os padres divididos e deprimidos, e os jovens não querem ser crismados pelo bispo Barros.

Os católicos chilenos precisam ser reanimados. Mas não se contentarão com consolos passageiros. A Igreja chilena precisa curar sua desconfiança. Se não houver reparações profundas, se aqueles que precisam dar um passo para o lado não o derem, a enfermidade pode custar-lhe a evangelização. Não se pode crer em Cristo sem crer na Igreja. Da confiança chega-se à fé e por meio do testemunho da Igreja chega-se a Cristo.

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