A intercomunhão na Alemanha e o plano inclinado de Dom Chaput. Artigo de Andrea Grillo

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29 Maio 2018

O “escândalo” não é que um casal “misto” possa estar unido também na comunhão eucarística, mas sim que a instituição eclesial, para salvaguardar a si mesma, leve a divisão ao próprio coração das famílias. Se a Igreja quer compreender a “alegria do amor”, ela deve aprender ouvindo seriamente as famílias.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, em Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, em Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, em Pádua.

O artigo foi publicado em Come Se Non, 27-05-2018. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Em um artigo publicado em First Things (disponível aqui, em inglês), intitulado “O que acontece na Alemanha”, o arcebispo da Filadélfia, Charles Chaput, interpreta a discussão alemã sobre a “intercomunhão” com a conhecida metáfora do plano inclinado.

No entanto, ao fazer suas considerações, ele esquece não só o contexto específico da proposta alemã, mas também mostra que não tem memória nem sequer da história estadunidense. Ele está totalmente concentrado nos erros alemães e não dá atenção ao erro que ele, como estadunidense, comete em relação à própria história.

Gostaria de me referir brevemente ao seu discurso, contextualizá-lo melhor no seu âmbito autêntico e tentar resolvê-lo com a referência fundamental à história estadunidense, como aparece em um grande filme.

A reconstrução surpreendentemente abstrata de Dom Chaput

Dom Chaput começa de longe: de Lutero. E esmaga a proposta do cardeal Marx sobre a história de 500 anos atrás. Como se o Concílio Vaticano II nunca tivesse existido. Como se Unitatis redintegratio fosse um panfleto de intelectuais, como se não houvesse uma “questão eclesial” ligada à comunhão possível em famílias “mistas”. Mas enfim. Sigamo-lo no seu raciocínio essencial, que aqui eu sintetizo em pontos, usando as suas próprias palavras:

1. Seguindo o raciocínio de um dos opositores do cardeal Marx, ele defende que, onde se diz “sim” à eucaristia católica, naturalmente se diz “sim” ao papado, à estrutura hierárquica da Igreja, à veneração dos santos e a muitas outras coisas. Se a eucaristia é verdadeiramente o sinal e o instrumento da unidade eclesial, então, se mudamos as condições da comunhão, não redefinimos de fato quem e o que é a Igreja?

2. A comunhão pressupõe comunhão de fé e de credo, incluindo a fé sobrenatural na presença de Jesus Cristo na Eucaristia, junto com os sete sacramentos reconhecidos pela perene tradição da Igreja Católica. Enquanto a renegociação da proposta alemã adota uma noção protestante de identidade eclesial. Parecem suficientes o batismo e a fé em Cristo. O cônjuge protestante deverá crer na ordem sagrada como compreendida pela Igreja Católica, que está logicamente conectada à fé na consagração do pão e do vinho como corpo e sangue de Cristo?

3. A proposta alemã corta o vínculo vital entre comunhão e confissão sacramental. De fato, ela não implica que o cônjuge protestante deva se confessar por um pecado grave como prelúdio à comunhão. Mas isso contradiz a prática perene e o expresso ensinamento dogmático da Igreja Católica e leva a uma protestantização da teologia católica dos sacramentos.

4. Se um ensinamento que recebeu definição conciliar é renegociado, então todos os ensinamentos podem ser relativizados? Será necessário pedir que o cônjuge protestante creia na divindade de Cristo? Se ele deve crer na presença real de Cristo no sacramento, por que não deveria compartilhar a fé católica na ordem sagrada e no sacramento da penitência? Mas, se eles devem crer em todos esses artigos de fé, por que não são convidados a se tornarem católicos para entrar na plenitude da comunhão?

5. Se os protestantes são convidados à comunhão católica, os católicos ainda continuam excluídos da comunhão protestante? Se sim, por que deveriam ser excluídos? Se não são excluídos, isso não implica que a visão católica sobre a ordem sagrada e sobre a eucaristia válida, de fato, é falsa, e, se é falsa, não implica que a fé protestante é verdadeira? Se a intercomunhão não quer implicar uma equivalência entre a eucaristia católica e protestante, então a prática da intercomunhão leva os fiéis ao erro. E causa um clássico caso de “escândalo”, pois a unidade não pode ser construída em um processo que sistematicamente apaga a verdade das nossas diferenças.

6. A essência da proposta alemã de intercomunhão é de querer compartilhar a santa comunhão mesmo quando não há verdadeira unidade eclesial. Existe uma intrínseca ligação entre “estar em comunhão” com uma comunidade e “receber a comunhão” nessa comunidade. Se este não é o caso, estamos diante de Deus e o ofendemos seriamente.

Como é evidente, assume-se um perfil muito abstrato da “proposta Marx”, e, identificando imediatamente – e rudemente – a comunhão com a “visão católica da comunhão”, provoca-se toda uma série de “curto-circuitos” entre uma “verdade” assumida abstratamente a partir de uma leitura retrógrada da tradição e da proposta levantada pela parte alemã, que é reduzida à caricatura de uma absurda protestantização do catolicismo. Um esclarecimento de fundo deve ser oferecido aqui.

A concretude familiar da intercomunhão na Alemanha

A perspectiva assumida por Chaput perde, desde o início, a linha de força posta em campo pelo cardeal Marx: ou seja, a presença de “outro” escândalo, isto é, o de “casais cristãos”, pertencentes a confissões diferentes e que devem ver impedida a “comunhão visível” por causa da falta de comunhão entre as Igrejas.

Aqui é preciso proceder com muita clareza, dada a delicadeza do tema. Também neste caso, resumo em poucos pontos a seriedade e a plausibilidade da proposta alemã:

1. Acima de tudo, trata-se de afirmar a superioridade da “ação eucarística” em relação às condições com que cada Igreja individual pôde desenvolver uma doutrina e disciplina a respeito. Se a própria “ecclesia” é “de eucharistia”, isso significa que não é principalmente a Igreja que deve pôr condições para a eucaristia, mas sim a eucaristia é que deve pôr as condições para a Igreja.

2. Deve-se acrescentar a isso, quanto à proposta em sentido estrito, que ela diz respeito a uma “comunhão eucarística”, que é possibilitada – de modo singular e não geral – por outra comunhão, que é a conjugal. A “pequena Igreja doméstica”, que é a relação conjugal, seria o vínculo que, ligando uma parte católica e uma parte não católica, permitiria, sob certas condições, uma comunhão eucarística plena, embora a comunhão eclesial não seja plena.

3. Poder-se-ia dizer que, de algum modo, a carência de comunhão eclesial é compensada pela rica experiência da comunhão conjugal. O fato de a parte “não católica” ser marido (ou mulher) da parte católica pode ser considerado como condição necessária – embora não suficiente, por si só – para abrir a comunhão eucarística à sua experiência, à qual se chegou por um “amor em excesso” vivido não na mesma Igreja, mas no mesmo amor do qual aquela Igreja quer ser sinal.

4. Ora, é óbvio que, se esquecermos esse horizonte conjugal, em que se insere lucidamente a “proposta alemã”, facilmente construiremos aquela série de “paralogismos” que são tão pouco convincentes quanto mais se afastam da proposta concreta. Que não é a de equiparar as “doutrinas” e as “disciplina” de Igrejas que continuam sendo diferentes, mas sim de poder reconhecer, apesar dessa diversidade, que a experiência de “vínculo conjugal” pode tornar acessível a plena comunhão, mesmo que por caminhos secretos que não podemos conhecer no plano da doutrina e da disciplina, mas que se tornam acessíveis no plano da experiência do Mistério, ao qual se abre a vida diferenciada no vínculo eclesial, mas unificada no vínculo conjugal.

5. Deve-se recordar, enfim, que também neste caso o percurso previsto pela “proposta alemã” se insere no mesmo quadro “processual” previsto pela Amoris laetitia para enfrentar as “crises” que o matrimônio pode encontrar. E a rejeição oposta abstratamente a tal proposta tem toda a aparência de uma radical incompreensão dessas “propostas processuais”, que retomam o grande ensinamento do Concílio Vaticano II, para o qual, na época da cúpula conciliar, assim como hoje nesta proposta, não se tratava de mudar ou de inovar doutrina e disciplina cristãs, mas sim de reencontrar aquele terreno do mistério – de Deus e do ser humano, do Evangelho e da experiência – sobre o qual pode florescer a fé em Cristo.

6. Por isso, o “escândalo” sobre o qual Dom Chaput chama à atenção é fruto de um olhar estrábico: com efeito, é escandaloso não o fato de que, finalmente, o casal “misto” possa estar unido também na comunhão eucarística, mas sim que a instituição eclesial, para salvaguardar a si mesma, leve a divisão ao próprio coração das famílias. Se é verdade que a Igreja que quer compreender a “alegria do amor” tem que aprender ouvindo seriamente as famílias, eu tenho a impressão de que Dom Chaput, para crescer no seu magistério, deve se dispor a um sério curso de atualização, por causa de sua teologia eucarística, mas, antes ainda, por causa de sua teologia matrimonial. Exponha-se às vidas, em vez de dispor vidas.

O “plano inclinado” no filme “Lincoln”, de Steven Spielberg

Por fim, é muito interessante uma grave amnésia que parece ter atingido o arcebispo da Filadélfia. Ele evoca a feliz imagem do “plano inclinado”: primeiro, começa-se com uma pequena comunhão eucarística entre marido e mulher, depois ela é estendida a todos os não católicos, e se acaba perdendo todos os preciosos conteúdos da tradição católica, acabando em uma miserável “protestantização” da fé. Para evitar esse “desvio”, é preciso permanecer firmes, sólidos e irremovíveis, antes de qualquer concessão “ecumênica”, ainda que pequena ou limitada.

Esse raciocínio, fundamentado no “medo de escorregar”, é particularmente afortunado, mas é frágil e injusto. E o é de modo particular para um arcebispo estadunidense, que parece esquecer aquela bela página da história, que nos é contada pelo filme de Steven SpielbergLincoln”.

No filme, encontramo-nos diante de uma grande “virada profética” que abre o nosso tempo: a equiparação dos negros aos brancos perante a lei, iniciava o fim da escravidão, iniciava a “sociedade aberta”. Mas um opositor de Lincoln, levantando-se na sala, profere um discurso forte, que se assemelha muito ao do cardeal.

Ele diz: “Hoje, senhores, nesta sala, a arrogância dos homens quer derrotar a vontade de Deus. Aquele Deus que quis os homens desiguais será silenciado, e os homens se proclamarão iguais! Mas não termina aqui. Como em um plano inclinado, os eventos precipitarão. Em alguns anos, nesta sala, virão esses mesmos negros, que a partir de amanhã estarão livres, e terão uma nova reivindicação: vão querer votar. E vocês vão lhes conceder isso. Mas isso ainda não será tudo. Depois de outros anos, nesta sala, as mulheres também vão pedir para votar. Então, sim, teremos tocado o fundo do poço”.

Ao ler as palavras secas e rígidas de Dom Chaput, pensei nesse texto amargo, que é ouvido no filme de Spielberg. Se o senhor arcebispo quisesse aprofundar, poderia descobrir que, naqueles mesmos anos, ou seja, na segunda metade do século XIX, alguns zelosos padres jesuítas, nos primeiros números da Civiltà Cattolica, escreviam páginas terríveis sobre a moralidade da escravidão e sobre a exigência de colocar no índice livros perigosos como “A cabana do pai Tomás”.

Pois é, monsenhor, o senhor deve admitir: até os jesuítas não são mais como os de antigamente!

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