Na Suécia, Papa Francisco exalta Lutero, mas não traz avanços a respeito da Comunhão

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01 Novembro 2016

Embora não tenha feito nenhuma referência à questão da Eucaristia, Papa Francisco, em viagem à Suécia, proferiu um dos discursos mais positivos de um papa ao descrever Martinho Lutero e suas crenças.

O comentário é de Austen Ivereigh, autor do importante livro The Great Reformer: Francis and the Making of a Radical Pope, publicado por Crux. 31 de outubro de 2016. A tradução é de Luísa Flores Somavilla.

A questão que acompanhou Martinho Lutero a respeito da misericórdia de Deus é "a questão decisiva de nossas vidas", enquanto a doutrina da justificação "expressa a essência da existência humana diante de Deus", disse o Papa Francisco a um grupo de católicos e luteranos em um encontro em Lund, na Suécia, hoje.

As palavras de Francisco em uma oração conjunta na catedral do século XI da cidade, em comemoração ao 500º aniversário do protesto de Lutero em Wittenberg, em 1517, são as melhores possíveis.

Ele também falou sobre os dois lados na divisão da Reforma de uma maneira jamais vista, professando e defendendo "a verdadeira fé".

As palavras de Papa Francisco vão além do que foi dito por Bento XVI em 2011, em reunião com o Conselho das Igrejas Evangélicas em Erfurt, na Alemanha. Nessa ocasião, Bento XVI disse que "a principal questão de Lutero deve, mais uma vez, porém de outra forma, tornar-se nossa questão também", mas não falou sobre a doutrina da justificação em termos tão brilhantes.

Ao passo que ele não fez nenhuma menção às divisões sobre a Eucaristia ainda existentes, a questão foi levantada em um comunicado conjunto, assinado ao final da cerimônia da oração, comprometendo ambas as Igrejas a continuarem trabalhando em conjunto em prol de uma comunhão comum.

Em 1999, as duas Igrejas selaram um acordo revolucionário sobre a grande questão teológica por trás do rompimento que aconteceu no século XVI.

A celebração de hoje, realizada no início do ano que marca a publicação das 95 Teses de Lutero, deve ajudar as duas Igrejas a "receberem" os frutos desse acordo, a Declaração sobre a Doutrina da Justificação.

Ao cumprimentar os jornalistas no início de sua viagem de avião para Malmö, no extremo sul da Suécia, Papa Francisco descreveu sua visita como "uma viagem muito eclesial no campo ecumênico".

Depois de uma breve reunião com o primeiro-ministro Stefan Löfven, Francisco partiu do aeroporto de Malmö em um Fiat para cumprimentar o Rei da Suécia, Carlos XVI Gustavo e a Rainha Silvia, antes de chegar à Catedral de Lund para o início do serviço, onde foi recebido com aplausos, cânticos e badaladas dos sinos.

A oração ecumênica incluiu uma confissão dos erros cometidos por ambas as Igrejas, bem como uma celebração da viagem do "conflito à comunhão".

Em seu discurso, o Papa falou de "uma nova oportunidade de aceitar um caminho comum", aberta pelo diálogo de 50 anos entre a Federação Luterana Mundial e a Igreja Católica, descrevendo-a como uma "oportunidade para reparar um momento crítico de nossa história", indo além de "controvérsias e divergências que muitas vezes nos impediram de entender um ao outro".

Observando como o rompimento entre católicos e protestantes "nos distanciou da intuição primordial do povo de Deus, que naturalmente anseia por unidade", ele disse que a divisão "foi perpetuada historicamente pelos poderosos deste mundo, ao invés do povo fiel".

"Certamente houve uma vontade sincera, por parte de ambos os lados, de professar e defender a verdadeira fé", continuou ele, "mas ao mesmo tempo percebemos que nos fechamos em nós mesmos, por medo ou preconceito em relação à fé que outros professam com sotaque e linguagem diferentes".

Em espanhol, o Papa apontou duas consequências positivas da Reforma. Ao mesmo tempo que levou a sofrimento e a mal-entendidos, "a separação também nos levou a reconhecer honestamente que sem [Jesus] não podemos fazer nada", disse ele, e, portanto, "isso permitiu uma melhor compreensão de alguns aspectos da nossa fé".

A Reforma também "ajudou a dar maior centralidade à Sagrada Escritura na vida da Igreja", acrescentou.

A própria experiência espiritual de Lutero, em suas buscas pela questão de como obter a misericórdia de Deus, "é a questão decisiva para as nossas vidas", disse o Papa, acrescentando que no conceito de "somente pela graça" Lutero "nos lembra que Deus sempre toma a iniciativa, antes de qualquer resposta humana, mesmo quando procura despertar essa resposta".

A declaração sobre a justificação diz que ambos católicos e luteranos confessam que "somente pela graça, na fé e na obra de salvação de Cristo - e não por qualquer mérito da nossa parte - somos aceitos por Deus e recebemos o Espírito Santo".

Enquanto as palavras do Papa foram consideradas como uma "oração ecumênica comum", a fala do Rev. Dr. Martin Junge, Secretário-Geral da Federação Luterana Mundial, foi descrito como um sermão.

Também em espanhol fluente, já que foi criado no Chile, Junge elogiou os homens e as mulheres do passado, de ambas as Igrejas, que procuraram ultrapassar a divisão trazida pela Reforma através do diálogo, da oração e de obras de caridade.

"Jesus nunca nos esqueceu, mesmo quando, por vezes, parecíamos tê-lo esquecido, nos perdendo em ações violentas de ódio", disse ele.

Pedindo "diálogos ainda mais profundos", Junge disse que ambos os lados devem agora concentrar-se na "a força centrípeta do batismo", a fim de combater as "forças centrífugas que constantemente nos ameaçam em direção à separação".

A Igreja Católica há muito tempo reconheceu a validade do batismo luterano, mas permanecem diferenças cruciais sobre a Comunhão, mesmo que ambas afirmem a presença de Jesus na Eucaristia.

Ao contrário do Papa Francisco, que não fez menção à questão, Junge deixou claro que a intercomunhão era um objetivo comum dos diálogos de unidade Luterano-Católicos.

Deus, ele disse, gostaria de ver católicos e luteranos se unindo em torno de "mesas onde pudéssemos partilhar o pão e o vinho, a presença de Jesus Cristo, que nunca nos abandonou e que nos chama para permanecer com Ele para que o mundo creia".

Papa Francisco, por sua vez, concluiu que "nós, cristãos, seremos testemunhas de misericórdia, à medida que o perdão, a renovação e a reconciliação são experiências diárias em nosso meio".

Sem tal testemunho, "a fé cristã está incompleta", disse ele.

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