Austrália. Choque de escândalo revive o debate sobre o "Terceiro Rito" de confissão

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10 Setembro 2018

Grandes choques no sistema frequentemente podem gerar respostas completamente novas por parte de instituições tipicamente inclinadas a manter o status quo. Outras vezes, o efeito pode ser a reabertura de debates do passado que, há não muito tempo, pareciam definitivamente encerrados.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada por Crux, 09-07-2018. A tradução é de Victor D. Thiesen.

Esse último cenário pode estar se formando agora mesmo na Austrália, girando em torno de debates, antes intensos, sobre o chamado “Terceiro Rito” da confissão, que significa uma forma do sacramento celebrada em grupo e não individualmente.

A Igreja Católica da Austrália está vivendo um choque muito grande, pelo menos nos últimos cinco anos, após a criação de uma Comissão Real liderada pelo governo sobre as Respostas Institucionais ao Abuso Sexual Infantil, que examinou especialmente de perto a Igreja e seus fracassos. No final, a comissão emitiu 189 recomendações para reforma, incluindo 80 que são específicas para a Igreja.

Enquanto os bispos australianos, em 31 de agosto, disseram “sim” para cerca de 98% dessas recomendações, foi o seu único “não” que produziu uma avalanche de indignação e comentários na Austrália - sua recusa em abolir o selo do confessionário para exigir que confessores relatem admissões de abuso infantil às autoridades civis.

Recentemente, o governo trabalhista do estado australiano de Victoria anunciou que reformularia a lei existente para obrigar que os padres que ficam sabendo de abuso infantil no confessionário e deixam de denunciá-lo à polícia enfrentem até três anos de prisão.

"A segurança das crianças é a nossa maior prioridade e a nossa maior responsabilidade - as pessoas no ministério religioso não estão isentas disso", disse a ministra da infância de Victoria, Jenny Mikakos.

Na tempestade que se seguiu, alguns católicos australianos de mentalidade progressista e com boa memória, estão sugerindo que, se seus bispos não tivessem se submetido ao Vaticano duas décadas atrás a respeito do “terceiro rito”, não estaríamos tendo essa conversa.

Em geral, a Igreja reconhece três formas que o sacramento da confissão, ou reconciliação, pode apresentar:

  • Confissão individual, no qual o penitente se aproxima de um padre individualmente, confessa seus pecados e é absolvido.
  • Um encontro comunitário contando com um hino de abertura, uma saudação do sacerdote e uma oração. O padre permite um breve momento de reflexão pessoal após a homilia. Então cada pessoa confessa a um padre individualmente e recebe a absolvição.
  • Um serviço no qual não há confissão individual. O sacerdote dá uma absolvição geral dos pecados depois que a comunidade refletiu em particular e fez uma oração expressando seu arrependimento.

Esse “terceiro rito” teoricamente só deve ser usado em situações emergenciais, como no caso de soldados que se dirigem para uma batalha ou em um desastre com uma ameaça eminente de morte. (Imagine o convés do Titanic, por exemplo.)

Na Austrália, no período após o Concílio Vaticano II, no entanto, o terceiro rito tornou-se generalizado, em parte como uma resposta pastoral às áreas rurais onde simplesmente não havia sacerdotes suficientes para oferecer confissões individuais regularmente. Em parte, também, foi justificado pelos entendimentos posteriores ao Concílio Vaticano II de que o pecado não é apenas individual, mas também coletivo e estrutural. Foi visto como uma forma mais eficaz, por exemplo, de fazer penitência pelos maus-tratos do povo aborígine do país.

No final dos anos 90, o Vaticano reprimiu agressivamente o uso do terceiro rito na Austrália, o que era parte de uma retomada mais ampla dos modos mais tradicionais de adoração e prática sacramental conhecida no tempo do Papa João Paulo II como “Guerras da Liturgia”.

A reversão na Austrália causou amplo protesto, mas, com o tempo, o terceiro rito gradualmente se tornou cada vez menos comum.

Agora, no entanto, alguns católicos australianos, que concordam com a Comissão Real que não deveria haver um espaço na Igreja no qual um véu de segredo se aplica ao abuso de crianças, estão apresentando a ideia de trazer de volta o terceiro rito.

Falei com uma irmã religiosa veterana em Melbourne na quinta-feira, por exemplo, que me disse que "se o Vaticano tivesse simplesmente nos deixado em paz, não estaríamos nessa confusão".

Quaisquer que sejam os méritos desse argumento, ele não tem muito apelo junto ao arcebispo Anthony Fisher, de Sydney, que é o mais próximo de um líder nacional que a Igreja da Austrália tem. No geral, ele assumiu uma linha dura sobre os escândalos de abuso, exigindo que a Igreja esteja comprometida com uma política de "sem desculpas, sem encobrimentos".

Fisher, dominicano que ainda usa o hábito branco da Ordem dos Pregadores como arcebispo, crê que a conversa sobre o terceiro rito será infrutífera.

“Algumas das pessoas que mais ou menos aceitaram essa recomendação da Comissão Real, que acabemos com o selo da confissão, estão dizendo que nunca teríamos esse problema se tivéssemos mantido o terceiro rito, porque as pessoas não estariam realmente confessando seus pecados, apenas sua 'pecaminosidade'", disse ele ao Crux em uma entrevista de 7 de setembro em sua residência em Sydney.

"Então, todos receberiam uma absolvição juntos", disse ele.

“Na verdade, é claro, sabemos que mesmo quando o terceiro rito era praticado mais comumente, se você estivesse ciente de um pecado grave, ainda teria que fazer uma confissão regular. Isso realmente não resolve o problema”, disse Fisher.

No fundo, disse Fisher, os esforços pelo terceiro rito são muitas vezes uma cortina de fumaça para evitar completamente a confissão.

"Na verdade, o que as pessoas realmente querem é um quarto rito de confissão, que é perdoar a si mesmo e não nem ter que ir à confissão", disse ele. "Isso é o que eles estão realmente pedindo, e o terceiro rito é meio que uma cobertura para isso, eu acho."

Indo adiante, Fisher sinalizou uma política de “não recuar” na defesa do selo.

“Por aqueles que se importam com o sacramento da misericórdia, acho que o estado estar se propondo a interferir dessa maneira e começar a efetivamente incomodar os confessionários exigindo que os confessores repitam o que ouviram seja realmente um ataque à sua capacidade de praticar essa fé”, disse ele.

"Eu diria que é um precedente muito ruim para este país, e acho que há muitos outros países que reconheceriam imediatamente que isso vai longe demais", disse ele.

Em geral, Fisher diz que o debate sobre o selo do confessionário é uma grande falácia.

"Se você soubesse o que foi dito em todas as confissões da história, você não estaria mais perto de resolver a crise do abuso infantil", disse Fisher.

Primeiramente, argumentou Fisher, os predadores quase nunca confessam seus crimes, porque um aspecto de sua patologia é a capacidade de se convencerem de que não estão fazendo nada de errado. Ao acabar com o selo do confessionário, disse ele, tudo o que você estaria fazendo seria privar o clero dessa rara oportunidade de encorajar um predador que confessa a se entregar, ou encorajar a rara vítima que se apresenta, que pode se confessar sob a ilusão de que o abuso é culpa dela.

O balanço final na Austrália parece ser o seguinte: mesmo que o choque dos escândalos de abuso e a Comissão Real tenham reanimado o debate sobre o terceiro rito, sob a administração atual provavelmente não terá mais chances de receber sinal verde do que teve duas décadas atrás.

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