11 Novembro 2025
Sábado, 8 de novembro, na sessão conclusiva do congresso A solidão da Europa: as Igrejas e a União (cf. aqui em SettimanaNews), dedicada a alguns olhares sobre a Europa e a partir da Europa, também interveio Dom Heiner Wilmer, bispo de Hildesheim e delegado da Conferência Episcopal Alemã junto à COMECE. Reproduzimos sua conferência intitulada A questão social: o coração da Igreja e a prova da democracia na Europa.
A informação é publicada por Settimana News, 09-11-2025.
Introdução: o coração da fé bate no social
Bom dia e obrigado pelo convite. Estou muito grato e é para mim uma honra especial falar neste encontro.
Quando hoje falamos da questão social, falamos do próprio coração da fé. Porque onde a dignidade humana é ameaçada, onde as pessoas são exploradas, esquecidas ou negligenciadas, é ali que se decide se o Evangelho é apenas pregado ou realmente vivido.
A Conferência Episcopal Alemã expressou isso em 1980: “A questão social é uma questão de fé. Ela diz respeito ao homem como criatura de Deus e à sociedade como lugar de responsabilidade recíproca.” A questão social, portanto, não é um tema secundário. É o centro, a prova concreta da nossa crença em Deus feito homem.
As origens: de Leão XIII a Leão XIV
A questão social não nasceu nas academias, mas nas ruas do século XIX, nas fábricas, nas casas dos operários, em seu cansaço e em sua miséria.
O Papa Leão XIII viu esse sofrimento e, em 1891, escreveu a encíclica Rerum novarum, um texto que mudou a história. Ele afirmou que o ser humano nunca pode ser reduzido a um meio da economia ou do lucro. Tem uma dignidade que ninguém pode lhe tirar. Falou de salário justo, de solidariedade, da responsabilidade do Estado pelo bem comum.
Com isso, Leão XIII lançou as bases da doutrina social da Igreja. Sobre essa base desenvolveu-se toda uma tradição:
Quadragesimo anno (1931, Pio XI)
Mater et magistra (1961, João XXIII)
Populorum progressio (1967, Paulo VI)
Laborem exercens (1981, João Paulo II)
Caritas in veritate (2009, Bento XVI)
Fratelli tutti (2020, Papa Francisco)
O Papa Francisco fala de uma “cultura da fraternidade” e nos convida a construir uma economia da vida, não da exclusão. E essa linha, que vai de Leão XIII até Francisco, encontra hoje uma continuidade espiritual no Papa Leão XIV. Ele coloca no centro a dimensão interior da questão social: a vulnerabilidade do ser humano, a espiritualidade da responsabilidade, o vínculo entre vida espiritual e vida social.
Leão XIII defendeu os trabalhadores; Francisco, a justiça global; Leão XIV nos chama hoje a uma mística da responsabilidade: uma forma de vida que transforma o mundo socialmente porque primeiro o compreende espiritualmente.
Assim, se estende um grande arco: da fábrica do século XIX à consciência espiritual da Europa do século XXI.
A questão social hoje: a Europa precisa de uma alma
A Europa se encontra em um momento decisivo. Temos paz, bem-estar e democracia, mas sentimos que algo se quebrou. A Conferência Episcopal Alemã escreve em Europa: gestalten und verantworten (2014): “A Europa precisa de mais do que instituições e mercados. Precisa de uma alma. Essa alma nasce do respeito pela dignidade humana, da abertura a Deus e da consciência da responsabilidade recíproca.”
A Europa não deve ser apenas uma comunidade administrativa, mas uma comunidade de valores. A democracia não vive apenas de procedimentos, mas de convicções profundas.
O Papa Bento XVI disse no Bundestag (2011): “A democracia não vive apenas das maiorias, mas de critérios que são maiores que o próprio homem.” E eu acrescento: uma democracia sem Deus se torna totalitária. Uma democracia sem transcendência, sem abertura ao céu, torna-se radical, porque perde a medida. Mas o contrário também é verdadeiro: uma democracia pode abusar de Deus. Vimos, na Europa e nos Estados Unidos, como símbolos religiosos foram instrumentalizados, como a cruz se tornou um sinal de poder em vez de paz.
A Conferência Episcopal Alemã alerta (2014): “Onde a religião se torna instrumento de poder, perde a sua paz. Mas onde se coloca a serviço da liberdade, torna-se bênção para a comunidade.”
A Europa precisa, portanto, de um novo equilíbrio espiritual: Deus como fonte da liberdade, não como instrumento de poder.
Uma nova atitude: humildade e escuta
Como Igreja, devemos aprender um novo modo de falar e de escutar. Houve um tempo em que tínhamos certeza sobre o que era certo. Dizíamos às pessoas o que deviam ou não fazer. Indicávamos aos políticos como deviam agir — às vezes com zelo, outras com presunção.
E sim, houve momentos em que a Igreja se aproximou demais do poder político, perdendo sua liberdade profética. Hoje precisamos de outra coisa: humildade, sobriedade e escuta. O Papa Francisco e o Papa Leão XIV insistem ambos: a sinodalidade não é uma reforma estrutural, mas uma atitude do coração.
A Conferência Episcopal Alemã fala de uma “cultura da escuta” (2023): “A Igreja está a serviço do mundo, não acima dele. É chamada a traduzir o Evangelho nas questões concretas da sociedade, respeitando a liberdade de todos.” Por isso devemos fazer duas perguntas: de que precisam as pessoas hoje — em sua solidão, em seus medos, em suas esperanças? E o que o Evangelho pede neste tempo?
Do encontro entre essas duas perguntas nasce a missão para o mundo — não do poder, não da pregação, mas da relação.
Do saber ao perguntar: um processo espiritual
Por muito tempo soubemos bem demais o que era o bem para os outros. Explicamos, pregamos, às vezes impusemos. Mas perguntamos pouco.
Hoje é o tempo das perguntas — e isso não é sinal de fraqueza, mas de maturidade.
A democracia se alimenta do diálogo. Quando as vozes deixam de se ouvir, a sociedade enfraquece. A Igreja pode ajudar a redescobrir a escuta como virtude que sustenta a convivência.
Uma Igreja que escuta, aprende. E uma Igreja que aprende, torna-se credível.
A questão social: uma questão espiritual
No fundo, a questão social não é econômica, é espiritual.
Que imagem temos do ser humano? A Conferência Episcopal Alemã afirma em Gemeinsame Verantwortung für eine gerechte Gesellschaft (1980): “A dignidade do ser humano nasce de seu ser criatura. Dessa dignidade derivam direitos, mas também deveres: responsabilidade recíproca, solidariedade com os fracos, defesa da vida em todas as suas fases.” Isso significa: a política social é teologia. É fé encarnada. Quem crê em Deus não pode ignorar o ser humano.
O Papa Leão XIV disse em um de seus discursos (2025): “A justiça da fé não consiste em ter razão, mas em criar relação.” Este é o coração da doutrina social hoje: criar relação — entre ricos e pobres, entre o ser humano e a natureza, entre o céu e a terra.
Conclusão: a Europa precisa de alma, verdade e escuta
A questão social continua sendo a prova decisiva do Evangelho.
A Europa precisa de uma Igreja que escute, não que domine.
De uma Igreja humilde, mas também corajosa. Precisa de cristãos que assumam responsabilidade — não para mandar, mas para unir.
E precisa de uma democracia que não perca sua alma — porque permanece aberta ao céu, a Deus, ao mistério do ser humano.
A Conferência Episcopal Alemã afirma (2014): “A Europa terá futuro apenas se permanecer consciente de suas raízes espirituais e nelas reconhecer o fundamento de sua liberdade.”
Por isso digo: uma democracia sem Deus perde a medida. Uma Igreja sem humildade perde a credibilidade.
Mas onde sabemos escutar — as pessoas, o Espírito, Deus — nasce o futuro. Então a fé se torna responsabilidade, a responsabilidade se torna justiça, e a justiça se torna paz.
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