Papa deveria esclarecer a questão das uniões civis. Senão, nada mudará. Artigo de Marco Marzano

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29 Outubro 2020

Se o papa realmente quisesse mudar a atitude da Igreja em relação à homossexualidade, poderia produzir um documento oficial, no qual, de forma clara, fossem especificadas quais novidades são introduzidas na doutrina.

A opinião é do sociólogo italiano Marco Marzano, professor da Universidade de Bérgamo, em artigo publicado em Il Fatto Quotidiano, 28-10-2020. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Se um mais um é dois, também pode ser ao mesmo tempo três? Na aritmética vaticana, a resposta a essa pergunta é positiva: as palavras do papa podem significar uma coisa e, ao mesmo tempo, o seu exato oposto, dependendo daquilo que o leitor deseje ver nelas.

Por um lado, de fato, com a frase sobre a oportunidade de permitir que os casais homossexuais formem “uniões civis” reconhecidas pelo Estado, Francisco, mais uma vez, foi indicado por uma parte significativa da opinião pública como o corajoso modernizador do catolicismo, o herói que desafia os velhos preconceitos da instituição milenar.

Para todos eles, católicos progressistas e ateus devotos liberais, não importa o fato de que, até agora, o papa argentino, dentro da sua organização, enterrou toda possibilidade de conceder às mulheres pelo menos o diaconato, impedido flagrantemente de experimentar a possibilidade de ordenar padres casados, mantido perfeitamente intactos tanto a estrutura organizacional imperial da Igreja quanto o seu papel de monarca absoluto.

Para os fãs de Bergoglio, não importa nem mesmo o fato de que o papa jesuíta declarou no passado que a homossexualidade (às vezes comparada à pedofilia) pode ser adequadamente tratada com a psiquiatria, quando se manifesta antes dos 20 anos, nem que um gay não pode, de modo algum, se tornar padre, e que é necessário limpar os seminários da presença dos homossexuais e libertar toda a Igreja do “lobby gay”.

Tudo isso não freou em um centímetro o entusiasmo dos ultras do papa argentino por uma declaração que, de fato, não muda nada, nem naquela ampla parte do mundo na qual os direitos dos homossexuais de terem uma família já foram felizmente reconhecidos, mesmo sem o consentimento da Igreja Católica, nem naquela que não tem nenhuma intenção de fazer isso e que certamente não se deixará convencer pela frase de uma entrevista.

Passemos para o outro lado, o dos muitos católicos conservadores que no mundo se opõem ao reconhecimento dos direitos aos gays dentro e fora da Igreja. Como eles reagiram às palavras do papa? Por acaso, se desesperaram pela suposta mudança repentina de curso realizada pelo pontífice? Absolutamente não!

Com a exceção de alguns sites reacionários radicais e especialmente dos poucos hierarcas que há muito tempo criticam Francisco em público e sem meias palavras (em primeiro lugar, os cardeais Burke e Müller), o coro dos exegetas católicos (hierarcas e Imprensa oficial clerical) há dias tranquiliza o povo de Deus de que nada mudou, que o papa já havia dito essas coisas sobre as uniões gays outras vezes, que ele se referia à situação argentina e às famílias de origem (nas quais os homossexuais devem ser acolhidos como filhos), que, como declarou o novo cardeal que se tornou o substituto de Becciu à frente da Congregação dos Santos, Marcello Semeraro, o papa “não vai além daquilo que a Igreja sempre disse e reiterou. Francisco não subverte a doutrina, é fiel a ela. Ele sabe muito bem o que diz o Catecismo da Igreja e o compartilha”.

Portanto, se o Catecismo define os atos homossexuais como “contrários à lei natural”, depravados, desordenados e que “não podem, em caso algum, ser aprovados” [n. 2.357] então talvez Francisco quisesse se referir às uniões civis entre pessoas do mesmo sexo como a uma espécie de convivência entre amigos, na qual o sexo não pode ser admitido em caso algum (como ocorre, em vez disso, no caso do casamento heterossexual).

Certamente, o Papa Francisco poderia, se quisesse, esclarecer e afirmar solenemente qual das interpretações oferecidas nesses dias deve ser considerada autêntica, se aquela minimizadora oferecida pelos hierarcas e pela imprensa católica, ou aquela “revolucionária” exaltada pelos ateus devotos liberais.

Melhor ainda, se o papa realmente quisesse mudar a atitude da Igreja em relação à homossexualidade, poderia produzir um documento oficial, no qual, de forma clara, fossem especificadas quais novidades são introduzidas na doutrina.

Com isso, ele daria às suas inovações uma solidez verdadeiramente excepcional e histórica, destinada a perdurar no tempo e a mudar profundamente a vida da Igreja. Mas, se fizesse isso, se superasse o plano de uma frase solta em uma entrevista televisiva, veria esvaziadas todas as magníficas vantagens em termos de consenso imediato que lhe vêm da ambiguidade e da possibilidade de que a sua mensagem seja interpretada pelos seus muitos exegetas do modo que a eles parece mais consonante e conveniente. Para que não se diga que, na sua igreja, onde a coerência está banida, há alguns que não encontram o vestido mais adequado para si mesmos e possam, então, colocar em dúvida a habilidade do grande alfaiate argentino ao desenhá-lo sob medida.

É assim também que nasce um herói universal.

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