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19 Janeiro 2016

Primeiro Papa latino-americano, primeiro Papa jesuíta, primeiro Papa filho de migrantes, primeiro Papa nascido numa megalópole. Bergoglio acrescenta a estas numerosas originalidades aquela de ser o primeiro Pontífice dos últimos setenta anos que não tem, na sua história pessoal e familiar, a sombra da Shoah. Não deve ler a si mesmo como descendência dos perpetradores, como nós europeus.

A opinião é de Alberto Melloni, historiador da Igreja italiano, professor da Universidade de Modena-Reggio Emilia e diretor da Fundação de Ciências Religiosas João XXIII de Bolonha. O artigo foi publicado em La Repubblica, 18-01-2016. A tradução é de Benno Dischinger.

Eix o texto.

Não deve interrogar-se sobre o anti-hebraísmo dos batizados, como ortodoxos, católicos e protestantes daqui. Não deve justificar, como bispo, a lentidão em dar-se conta daquele crime, antes e após 1945, como tantos confrades seus do primeiro mundo. É filho de um mundo diverso e é filho do Concílio encerrado há meio século. Precisamente então, aos 28 de outubro de 1965, um parágrafo da declaração Nostra Aetate virou uma página da história. Após séculos de ódio ou desprezo – antissemita ou anti-judaico, como se queira dizer – o Vaticano II deplorou aquela cultura, “por quem quer que” tivesse sido expressa.

Uma passagem decisiva. Não foi por acaso que o Papa Wojtyla, durante a visita histórica de trinta anos atrás à sinagoga de Roma, leu aquela passagem e acrescentou: “Repito: por quem quer que”. Porque queria sublinhar que o catolicismo romano e o cristianismo europeu aceitavam o peso de uma culpa da qual a Europa havia tomado consciência somente anos após aqueles seis milhões de delitos que chamamos de genocídio.

Privado de complexos diante daquela trave no olho moral europeu, livre de reticências ante a perseguição racial, Francisco teve a possibilidade de ir além e também ontem mostrou como a Igreja pode “fazer-se ao largo”. Não condenou as concessões de quem espera fazer voltar as contas da história, subtraindo raros heroísmos. Não parou naquela primeira milha do diálogo inter-religioso, feito de agrados de baixo preço. E evitou todas as conveniências diplomáticas (também aquela de mencionar o Estado de Israel).

Ao contrário, enquadrou a Shoah, o encontro, a paz naquela visão de Deus e do homem que o hebraísmo ensinou ao mundo: aquele universalismo do humano que permite hoje aos cristãos não só de condenar o terrorismo (coisa tão óbvia que ele sequer pronunciou a palavra), mas de poder dizer que “a violência do homem sobre o homem está em contradição com toda religião digna deste nome e, em particular, com as três grandes religiões monoteístas”.

Porque o Papa Francisco se mensurou e quer mensurar-se com o problema dos problemas que é aquele da Aliança. E sobre isto marca um lance em frente. Francisco fez gestos e disse palavras empenhativas, como aquelas, citadas por Renzo Gattegna, presidente da União das comunidades hebraicas, que estão no documento de 10 de dezembro da Comissão para as relações com o hebraísmo da Santa Sé, da qual é secretário D. Norbert Hoffman. Um texto saído em eloquente retardo com respeito ao aniversário de Nostra Aetate deve ter encontrado resistências não pequenas dentro de alguma congregação romana.

Uma passagem decisiva. Já que ele afirma que confessar a unicidade da salvação em Cristo não exclui, mas até implica aceitar que naquela salvação há verdades como a salvação de Israel, cuja existência “sem uma confissão explícita de Cristo é e permanece sendo um mistério divino insondável”. É como testemunha deste mistério, exemplo a bispos e cristãos não tão corajosos, que o Papa Francisco visitou o Templo.

Alguma parte do hebraísmo ter-se-á desiludido por não ter havido as declarações políticas que solicitavam o arrependimento de lhe ter solicitado de modo demasiado claro. Mas, o grosso do hebraísmo sábio deveria ter captado que a questão teológica com a qual Francisco se apresentou na outra margem do Tibre é aquela crucial.

Também em 1964-65 muitos pensavam que Nostra Aetate não significasse grande coisa; uma mulher lúcida como a premiê israelense Golda Meir pensava que aquele limitar-se ao plano “religioso” prometeria pouco ao seu Estado sob ameaça. E ao invés, foi aquele pouco de conversão e de fraternidade que permitiu o reconhecimento do Estado e o muito de que hoje gozam cristãos e hebreus. Bergoglio, que se mensura com o nó teológico da Aliança, lança outra semente, e parece dizer pouco? O fruto virá e será decisivo para o mundo dilacerado por uma violência que nos torna indiferentes, por uma indiferença que nos torna violentos.

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