O filho do Concílio e a luta contra o clericalismo. Entrevista especial com Andrea Grillo

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05 Junho 2015

"Nas 'estruturas fundantes da vida eclesial', começa a se afirmar uma 'lógica nova': a colegialidade sinodal, o primado da misericórdia, a crítica do clericalismo e a prioridade de uma Igreja pobre são apenas alguns dos sinais dessa passagem, que agora inicia de verdade", analisa o professor. 

Foto: em.com.br
Traduzir a Igreja Católica para o mundo atual. Essa parece ser a principal bandeira do pontificado de Francisco, segundo a leitura de Andrea Grillo. Na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, o teólogo italiano destaca que o Papa demonstra anticlericalismo. Ou seja, quer pensar uma Igreja mais horizontal, sem engessamentos hierárquicos que impõem doutrinas e visões de mundo. Essa colegialidade se manifesta, por exemplo, na importância que dá para discussões nos sínodos. Para Grillo, numa demonstração muito clara dos princípios do Concílio Vaticano II, o pontificado tem “muitos elementos declaradamente anticlericais, que chegam a renovar de modo salutar a tradição Papal e episcopal”.

Essa ideia de trazer a Igreja para o mundo de hoje não é desconsiderar a tradição. Pelo contrário, Grillo vê na tradução o essencial para manter viva a tradição. “A ‘escola conciliar’ demonstra amplamente que há um caminho para poder confirmar a grande tradição católica, assumindo a responsabilidade de uma ‘tradução’ e de uma ‘atualização’ da doutrina e da disciplina”, pontua. Ao longo da entrevista, o teólogo italiano também discute pontos polêmicos, como as críticas que Francisco recebe. Entre elas, o fato de não ser teólogo. O que, para muitos, eleva o poder de setores da Cúria como a Congregação para Doutrina da Fé. “Se há uma coisa clara é que o papel da Congregação para a Doutrina da Fé nunca foi e seguramente nunca poderá ser o de ‘dar estrutura teológica’ aos pontificados”, afirma. “A Congregação não tem o Papa a seu serviço, mas é ela que se coloca a serviço do Papa”, conclui.

Andrea Grillo (foto abaixo) é filósofo e teólogo italiano, leigo, especialista em liturgia e pastoral. Doutor em teologia pelo Instituto de Liturgia Pastoral, de Pádua, é professor do Pontifício Ateneu Santo Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. Também é membro da Associação Teológica Italiana e da Associação dos Professores de Liturgia da Itália.

Confira a entrevista.

Foto:
anticattocomunismo.wordpress.com

IHU On-Line - Como entender o “fenômeno Francisco”?

Andrea Grillo – O simples fato de chamar Francisco de “fenômeno” indica um dado de grande relevância. Por um lado, usa-se essa expressão como que diante da “manifestação de algo maior e inesperado”. É como dizer: “Francisco é um fenômeno”, ou seja, a manifestação de algo verdadeiramente grande, tocante, extraordinário. Eu diria: é a súbita manifestação, justamente na cúpula da Igreja Católica, do Concílio Vaticano II,[1] plenamente implementado, de repente. Esse é realmente um fenômeno muito particular.

No entanto, é preciso dizer que, ao mesmo tempo, fala-se de “fenômeno Francisco”, quase para se distanciar de algo que “se entende pouco”. Se são bispos ou cardeais que falam assim — e os há — porque temos bispos e cardeais analfabetos de Vaticano II. Eles são desprovidos das categorias elementares para “entender” não só Francisco, mas também a Igreja dos últimos 50 anos. Para eles, o pontífice, tendo saído do leito habitual e normativo, fala uma língua quase desconhecida.

Francisco, com a sua aparição no dia 13 de março, pôs em evidência estes dois aspectos: há uma grande parte da Igreja Católica que o descobriu subitamente como um “fenômeno” do qual tinha um “pressentimento”. Mas há um setor da Igreja, muito menos extenso, mas não desprovido de poder, que o considerou desde o início com “ressentimento”. Pressentimento popular e ressentimento hierárquico são “dados” desse biênio de pontificado, dados que não podem ser postos no mesmo plano, mas que devem ser considerados com atenção.

IHU On-Line - Qual é a proposta de Francisco ao propor o sínodo sobre a família? Que respostas a Igreja busca dar às novas configurações familiares da contemporaneidade?

Andrea Grillo – Parece-me que uma característica fundamental do pontificado de Francisco está concentrada em duas palavras, que encontram no Sínodo sobre a família uma imediata e embaraçosa verdade: são dois modos de chamar a Igreja, que a definem como “não autorreferencial” e como “hospital de campanha”. Nessas denominações, a Igreja encontra-se particularmente “posta à prova”, quando se trata de estabelecer uma relação com a família contemporânea. Justamente sobre esse assunto, tão delicado e decisivo, os limites de uma postura autorreferencial e “sectária” da Igreja surgem continuamente. Elaboramos, sobretudo nos últimos 150 anos, uma “doutrina sobre o matrimônio” que nos torna incapazes não só de responder às questões, mas também de formular as perguntas corretas. A prova disso é a contraditoriedade das propostas sobre temas “quentes”, como, por exemplo, a “comunhão dos divorciados recasados”.

Francisco sabe muito bem que uma Igreja não autorreferencial, acima de tudo, deve modificar esses pontos escandalosos da própria disciplina oficial. A “escola conciliar” demonstra amplamente que há um caminho para poder confirmar a grande tradição católica, assumindo a responsabilidade de uma “tradução” e de uma “atualização” da doutrina e da disciplina. Mas, justamente sobre o matrimônio, parece que devem ser montadas as barricadas sobre detalhes disciplinares secundários...

IHU On-Line - Qual é o significado e quais as características da “colegialidade” no pontificado de Francisco?

Andrea Grillo – A colegialidade é a forma ordinária de uma Igreja “não autorreferencial”, porque pressupõe que mesmo apenas para constatar a realidade é preciso uma abordagem “dialógica”. Colegial, como lógica do “primado” na Igreja Católica — que tem, na sua cúpula, não só o Papa, mas também o Colégio Episcopal —, é a indicação de um “método para enfrentar as questões”. Eu diria que é quase “óbvio” que Francisco, vindo de uma tradição abertamente inspirada no Vaticano II, faz dessa grande experiência eclesial o “estilo” não só do seu Papado, mas também do modo pelo qual a Igreja enfrenta as questões do mundo contemporâneo, à luz do Evangelho e da experiência dos homens, segundo a Gaudium et Spes[2] nº 46.

IHU On-Line - Como o Papa Francisco aborda a questão das novas configurações da família?

Andrea Grillo – Parece-me que a essa pergunta não se deva responder segundo uma lógica de “valores”. Aqui eu vejo de maneira indistinta, num curto espaço de tempo, a verdadeira novidade de Francisco em relação aos Papas que o precederam imediatamente. Acima de tudo, pelo fato de não aceitar uma postura apologética do Papado. Por isso, Francisco escreveu que “a realidade é superior à ideia”: isso significa que a família, o amor, a intimidade, a geração não são “ideias claras e distintas” que os homens e as mulheres devem simplesmente “aplicar”, mas são grandes realidades, complexas, em evolução, a partir das quais transparece e através das quais se realiza o amor de Deus.

Não se trata, acima de tudo, de demonizar um inimigo, mesmo quando existam práxis problemáticas. Trata-se de anunciar, sobretudo, a misericórdia e a bênção de Deus. Nisso, Francisco é justamente o primeiro Papa “filho do Vaticano II”. Esse não é um mérito dele, mas é a força da tradição católica, que soube gerar um Papa com essas características, devidas à sua formação, à sua pastoral, à sua linguagem, às suas leituras, que brotaram dos textos e dos gestos conciliares.

IHU On-Line - Qual o significado do sínodo no pontificado de Francisco? No que se diferencia dos outros pontificados?

Andrea Grillo – O Sínodo é a primeira grande realização de um estilo eclesial e de um método de trabalho, que parece ser marcado, ao menos nas intenções que o projetaram, por uma característica: a ausência de clericalismo. Muitas vezes, sobre esse ponto, criou-se certo equívoco. Há alguns, mesmo na Cúria Romana, que confundem o clericalismo com o catolicismo. E que, portanto, com base nesse erro, podem chegar a dizer que existem elementos “anticatólicos” no magistério de Francisco.

Na realidade, há muitos elementos declaradamente anticlericais, que chegam a renovar de modo salutar a tradição Papal e episcopal. Sobretudo na Cúria Romana, mas às vezes também nas periferias eclesiais, há uma certa confusão. Somos tentados a pensar que, para defender a Igreja Católica, é preciso defender a todo o custo a sua postura clerical. E essa atitude distorcida, note-se bem, não diz respeito apenas aos “clérigos”, mas, infelizmente, contagia também os “leigos”.

IHU On-Line - Qual a sua avaliação da primeira etapa do Sínodo no ano passado? Como foi a recepção entre os bispos e como imagina que deva ser na conclusão dessa segunda etapa?

Andrea Grillo – A avaliação da primeira fase do Sínodo é positiva, cheia de aberturas, mesmo que manifeste as dificuldades para “entender a linguagem e o estilo” que o Papa Francisco quis retomar, 50 anos depois, diretamente da experiência conciliar. Digamos a verdade: para muitos, foi um “balde de água fria”. Até mesmo o simples fato de que o Papa, desde o início, tenha pedido a todos “parrésia”,[3] perturbou profundamente todos os defensores do clericalismo formal, para o qual tudo é possível, menos ser sinceros. O aspecto cortesão do Sínodo dos Bispos, que as últimas décadas viram crescer exponencialmente, sofreu um profundo revés e tentou reagir, vingar-se, montar barricadas, escrever livros preventivos, agitar as massas e a “rede”.

Nessas reações, infelizmente, distinguiram-se também “teólogos”, acostumados a serem “chefes de claque” e agora, repentinamente, transformados em “defensores fidei”. São casos em que, na minha opinião, está em jogo tanto a competência teológica quanto a maturidade humana. E me pergunto: como se faz para anunciar realmente a “misericórdia” se nos tornamos cúmplices de uma Igreja que alimenta, em matéria familiar, fingimentos e hipocrisias? Eu acrescento, além disso, uma notícia que literalmente me escandalizou. Soube que um dos maiores responsáveis do Sínodo Extraordinário, quando voltou para a sua diocese, decidiu que o questionário em vista do Sínodo de outubro próximo devia ser preenchido somente por ele. É um sinal do clericalismo secular, duro de matar.

IHU On-Line - Qual o significado do Jubileu da Misericórdia no pontificado de Francisco? E no que está baseado o conceito de misericórdia para Francisco? Por que esse aparece como um dos conceitos centrais de seu pontificado?

Andrea Grillo – O tema da misericórdia, que agora assumiu também a relevância de um “tema jubilar”, é uma espécie de “fio de ouro” do pontificado. Ele é, em grande medida, uma herança do Concílio Vaticano II, como bem atesta a dupla citação que encontramos no início da bula Misericordiae Vultus,[4] em que são cotados os dois discursos “extremos” do Concílio, ou seja, o discurso de abertura, de João XXIII,[5] e o discurso de encerramento, de Paulo VI,[6] em que ambos os pontífices fazem da misericórdia a “cifra” da novidade conciliar, contrapondo o “usar o remédio da misericórdia” ao “abraçar as armas do rigor”.

Certamente, a misericórdia de que fala Francisco não pode ser compreendida na linha da devoção polonesa como “divina misericórdia”, que perde esse horizonte comunitário e conciliar e desliza para um desvio devocional e privado.

IHU On-Line - É possível encontrar um fio condutor nas homilias de Francisco? Como as linhas mestras de seu pontificado aparecem nas homilias?

Andrea Grillo – O fio condutor a ser encontrado nas homilias de Francisco não é tanto em nível de conteúdo — que embora muitas vezes é absolutamente relevante —, mas, acima de tudo, em nível de “forma” e de “estilo”. O próprio fato de que um Papa, todos os dias, às 7h, na missa que concelebra, profira regularmente uma homilia, representa, objetivamente, um fato que abala o restante da Igreja. Mas, também aqui, a chave de leitura é o Concílio Vaticano II, do qual Francisco é filho legítimo e, ao mesmo tempo, natural.

Em relação aos antecessores, Francisco tem uma vantagem sem igual: sendo filho do Concílio, não sente a responsabilidade de ter sido padre no Concílio. Justamente essa responsabilidade pesou tanto sobre os antecessores — pense-se no tormento de Paulo VI, nas hesitações de João Paulo II [7] e nos retrocessos de Bento XVI [8] —, todos os quais eram diretamente “padres” do Concílio. Eles viam o Concílio como seu “filho”, um filho com o qual se preocupavam, enquanto, neste caso, é o Papa que considera o Concílio como pai. E assim, cotidianamente, ele celebra comunitariamente, concelebra e profere a homilia. Quanta distância de Papas acostumados a celebrar privadamente, sem concelebração e sem homilia. Quanto incide sobre a sua pastoral esse “bom hábito”, apreendido do Concílio como leite materno.

IHU On-Line - O senhor defende que “se uma tradição é forte, ela sempre sabe se traduzir em formas novas”. Mas a que se refere especificamente? Como a tradição se traduz em novas formas no pontificado de Francisco?

Andrea Grillo – A tradição, se quiser permanecer viva, deve se traduzir. Ou, melhor, poderíamos dizer que o elemento mais típico de uma tradição é justamente o de “transmitir” não a si mesma, mas o mistério de Deus. Nessa sua função, ela tem a necessidade de nunca se tornar um monólito, a ser colocado em um museu, como uma estátua de mármore. A força de uma tradição reside na sua capacidade de se traduzir em formas sempre novas, cada vez mais adequadas. A tradição não é uma doutrina a ser aprendida ou uma norma a se obedecer, mas uma história para se fazer parte, segundo a liberdade com que o Espírito a move e a inspira.

No reinado de Francisco, a tradução é acima de tudo uma questão de “linguagem” e de “estilo”. A palavra de Francisco é apenas aparentemente “simples”. Digamos, ao contrário, que ela é direta, é imediata, mas também é curada, cinzelada, finamente pensada. São superficiais — ou ressentidos — aqueles que não veem como é acurada a “tomada de palavra” que Francisco repete continuamente, com tato, com tom, com timbre requintado. Linguagem e estilo de um Papa americano. E dois dos máximos especialistas do Concílio Vaticano II — Routhier [9] e O'Malley,[10] ambos americanos — reconhecem que a novidade fundamental desse Concílio está em uma nova linguagem e um novo estilo.

IHU On-Line - Qual deverá ser o papel da Congregação Doutrina da Fé no pontificado de Francisco? Quais as possibilidades de a Congregação desempenhar um papel mais ou menos central no pontificado de Francisco, a partir da crítica de que Francisco tem “pouca estrutura teológica”?

Andrea Grillo – Se há uma coisa clara, que ninguém pode pôr em discussão, é que o papel da Congregação para a Doutrina da Fé — ex-Santo Ofício — nunca foi e seguramente nunca poderá ser o de “dar estrutura teológica” aos pontificados. Se alguém pensasse — em qualquer nível hierárquico — que poderia “reestruturar” o magistério de Francisco, ou de João XXIII, ou de João Paulo I,[11] estaria totalmente fora da tradição e proporia uma tradução dela completamente incorreta e bastante perigosa.

A Congregação não tem o Papa a seu serviço, mas é ela que se coloca a serviço do Papa. Trata-se de um serviço qualificado, com margens também de reserva crítica, mas não se trata, em caso algum, de substituição ou de normalização. Ao contrário, parece-me que a questão deve ser invertida: como Francisco poderá dar “estrutura teológica conciliar” ao serviço oferecido pela Congregação? Em outras palavras, como se poderá evitar que, na Igreja Católica, o consenso sobre o “saber comum e vinculante” seja garantido por procedimentos e por órgãos de concepção pré-moderna? A Congregação, de fato, responde ainda a lógicas que o teólogo Hünermann,[12] há alguns anos, comentando a Notificação a Jon Sobrino,[13] definiu, com razão, como exercício do controle da doutrina segundo as lógicas do Ofício Inquisitorial do século XVI.

Todos os Estados modernos superaram essa configuração pré-moderna, que, ao contrário, resiste na Igreja. Como pensar o “consenso sobre a doutrina” de forma não pré-moderna? Esse é o verdadeiro tema da discussão, sobre a qual o Papa Francisco já começou a trabalhar, sugerindo, por exemplo, que alguns temas doutrinais sejam delegados às Conferências Episcopais. Justamente sobre esse ponto, não por acaso, levantaram-se os defensores de uma configuração pré-moderna, chegando a definir como “anticatólica” tal hipótese. Sobre isso, é preciso abrir um amplo debate, é preciso “sair” de estilos e linguagens velhos e inadequados, e entrar em lógicas novas e vivas.

IHU On-Line - Que leitura Francisco tem do Concílio Vaticano II?

Andrea Grillo – Como antecipei antes, com Francisco, que é o “primeiro Papa filho do Concílio”, o Vaticano II passa da função de “léxico” à função de “cânone”. Podemos dizer que, em muitos aspectos, até agora, o Vaticano II tinha entrado na vida da Igreja, sobretudo, como um “léxico novo”, um modo de falar e de definir, que muitas vezes deixava inalterado o cânone tridentino. Com Francisco, nós vemos o efeito dessa “passagem de léxico a cânone”. Isso significa que, nas “estruturas fundantes da vida eclesial”, começa a se afirmar uma “lógica nova”: a colegialidade sinodal, o primado da misericórdia, a crítica do clericalismo e a prioridade de uma Igreja pobre são apenas alguns dos sinais dessa passagem, que agora inicia de verdade.

Passaram-se 50 anos desde o Concílio. Só depois de duas gerações poderíamos ter, como Papa, um homem que foi formado, pensou, rezou, celebrou, dialogou apenas na lógica do Vaticano II. A irreversibilidade do Vaticano II, para Francisco, é questão de biografia.

IHU On-Line - Como se dá a atualização e a tradução da tradição da Igreja através da “teologia de Francisco”?

Andrea Grillo – Podemos dizer assim: o que distingue Francisco dos predecessores é uma questão sutil, mas decisiva. Para Francisco, a tradução da tradição não é mais uma possibilidade, mas uma necessidade. Até Bento XVI, os Papas puderam pensar que a “tradição” bastava a si mesma e que toda intervenção sobre ela podia comprometê-la. Com Francisco, manifestou-se, de repente, uma consciência muito lúcida do fato de que a tradição vive apenas de traduções.

É óbvio que, traduzindo, pode-se trair. Mas não há alternativa à tradução. Aqui está a novidade. Até Francisco, podia-se pensar que era possível simplesmente “conservá-la”. Com Francisco, ficou claro — 50 anos depois da feliz intuição de João XXIII — que a Igreja não é um museu a se preservar, mas um jardim a se cultivar.

IHU On-Line - Em relação à liturgia, o que mudou do pontificado de Bento XVI para o pontificado de Francisco? Monsenhor Marini,[14] que era o mestre de cerimônias de Bento XVI, continua como o mestre de cerimônias de Francisco. O que isso significa?

Andrea Grillo – Eu não gostaria que nós fôssemos reduzidos a julgar Francisco apenas pelas “nomeações” que ele faz ou não faz. Francisco, em muito menos de dois anos, soube eliminar da liturgia Papal — e, em grande parte, também do discurso sobre a liturgia — toda aquela “patina retrò” que caracterizara o pontificado anterior. E mesmo aqueles que haviam cavalgado aquela moda, mais ou menos oportunistamente, agora se limitam a fazer o seu serviço, segundo as lógicas naturalmente conciliares de Francisco. Esse me parece ser um sinal de bom senso.

Não devemos esperar hoje que o Papa faça algo de espetacular na liturgia. Era ontem que devíamos estar estupefatos e desconcertados com as formas surpreendentes e anticonciliares que gozavam de crédito e de proteção de cima. Talvez nem toda a Cúria Romana entendeu o que está em jogo na liturgia. Não faltaram discursos, mesmo durante esse último biênio, de autoridades litúrgicas, que merecem ser imediatamente esquecidas.

IHU On-Line - Em que aspectos considera que a Sacrosanctum concilium[15] deveria ser renovada?

Andrea Grillo – Concordo com o uso do verbo “renovada”: certamente, a Sacrosanctum Concilium, depois de 50 anos, também precisa ser “renovada”, contanto que não se fale, ao invés, de “reformar”. Reformar a reforma foi um slogan com que se tentou “esquecer e remover o Vaticano II”. Eu acredito que a “renovação” não deve se referir ao texto da Sacrosanctum Concilium, mas ao modo de interpretá-lo e fazê-lo entrar na vida da comunidade.

A Sacrosanctum Concilium propõe à Igreja um novo paradigma de participação nos “ritos e orações” e, em vista dessa participação, projeta uma grande Reforma dos ritos. Mas a Reforma não é o fim, é só o meio. Renovar a Sacrosanctum Concilium significa, hoje, trazer novamente ao primeiro plano não a Reforma, mas o fim da Reforma: ou seja, a iniciação à vida cristã mediante ritos e orações.

IHU On-Line - O pontificado de Francisco tem um programa? Para onde imagina que esteja levando a Igreja?

Andrea Grillo – Rumo àquele objetivo que João XXIII e Paulo VI tinham expressado — na sua linguagem — em termos semelhantes ao discurso que hoje Francisco propõe à Igreja, 50 anos depois. De um lado, valorizando a “pastoral” como tradução da linguagem e do estilo da Igreja. Mas, de outro, também como “melhor inteligência da tradição”, descobrindo o “fio dourado” da misericórdia como chave de leitura da experiência eclesial.

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Andrea Grillo – Tudo aquilo de que eu falei até aqui, ocorreu dentro do aniversário conciliar. Esse primeiro biênio de Papado está entre 2013 e 2015, ou seja, nos anos de aniversário dos 50 anos do Concílio. E justamente na conclusão do Concílio o Papa previu um “relançamento” com o Jubileu da Misericórdia [16]. Isso tem um valor simbólico alto e irreversível: com o Papado de Francisco, o Concílio entra na fase da “normalidade eclesial”. A partir de agora, será normal pensar na vida cristã dos católicos com um Concílio que passa de “léxico” a “cânone”. Com Francisco, isso inicia solenemente, além de todas as hesitações e as contorções que os seus antecessores sentiram e provocaram.

Eu gostaria de repetir: a irreversibilidade do Concílio é questão também “biográfica”. Francisco não deve contar entre os seus méritos o fato de ter nascido justamente em 1938, de ter se formado na Argentina justamente nos anos conciliares e de ter absorvido, desde jovem, o estilo, a linguagem e a visão eclesial enraizada no Vaticano II. Francisco, a partir desses pontos de vista, é a mais clara expressão da virada que o Vaticano II imprimiu na tradição católica: a semente foi lançada há 50 anos, a maturação ocorreu durante esse cinquentenário de “elaboração eclesial”, e o fruto maduro apareceu, de repente, mas não sem bons motivos, no dia 13 de março de 2013.

Por João Vitor Santos e Patricia Fachin / Tradução: Moisés Sbardelotto

Notas:

[1] Concílio Vaticano II: convocado no dia 11-11-1962 pelo Papa João XXIII. Ocorreram quatro sessões, uma em cada ano. Seu encerramento deu-se a 08-12-1965, pelo Papa Paulo VI. A revisão proposta por este Concílio estava centrada na visão da Igreja como uma congregação de fé, substituindo a concepção hierárquica do Concílio anterior, que declarara a infalibilidade Papal. As transformações que introduziu foram no sentido da democratização dos ritos, como a missa rezada em vernáculo, aproximando a Igreja dos fiéis dos diferentes países. Este Concílio encontrou resistência dos setores conservadores da Igreja, defensores da hierarquia e do dogma estrito, e seus frutos foram, aos poucos, esvaziados, retornando a Igreja à estrutura rígida preconizada pelo Concílio Vaticano I. O Instituto Humanitas Unisinos - IHU produziu a edição 297, Karl Rahner e a ruptura do Vaticano II, de 15-06-2009, disponível aqui em , bem como a edição 401, de 03-09-2012, intitulada Concílio Vaticano II. 50 anos depois, disponível aqui, e a edição 425, de 01-07-2013, intitulada O Concílio Vaticano II como evento dialógico. Um olhar a partir de Mikhail Bakhtin e seu Círculo, disponível aqui. Na próxima semana, o IHU realiza o evento O Concílio Vaticano II: 50 anos depois. A Igreja no contexto das transformações tecnocientíficas e socioculturais da contemporaneidade, mais informações aqui. (Nota da IHU On-Line)

[2] Gaudium et Spes: Igreja no mundo atual. Constituição pastoral, a 4ª das Constituições do Concílio do Vaticano II. Trata fundamentalmente das relações entre a Igreja e o mundo onde ela está e atua. Trata-se de um documento importante, pois significou e marcou uma virada da Igreja Católica "de dentro" (debruçada sobre si mesma), "para fora" (voltando-se para as realidades econômicas, políticas e sociais das pessoas no seu contexto). Inicialmente, ela constituía o famoso "esquema 13", assim chamado por ser esse o lugar que ocupava na lista dos documentos estabelecida em 1964. Sofreu várias redações e muitas emendas, acabando por ser votada apenas na quarta e última sessão do Concílio. O Papa Paulo VI, no dia 7 de dezembro de 1965, promulgou esta Constituição. Formada por duas partes, constitui um todo unitário. A primeira parte é mais doutrinária, e a segunda é fundamentalmente pastoral. Sobre a Gaudium et Spes, confira o nº 124 da IHU On-Line, de 22-11-2004, sobre os 40 anos da Lumen Gentium, disponível aqui, intitulada A Igreja: 40 anos de Lumen Gentium. (Nota da IHU On-Line)

[3] Na retórica, parrésia é descrita como franqueza, confiança ou ousadia para falar em público. (Nota da IHU On-Line)

[4] Misericordiae Vultus: bula pontífica que institui o Jubileu Extraordinário da Misericórdia. A íntegra do documento, em português, pode ser lida aqui. (Nota da IHU On-Line)

[5] Papa João XXIII (1881-1963): nascido Angelo Giuseppe Roncalli. Foi Papa de 28-10-1958 até a data da sua morte. Considerado um Papa de transição, depois do longo pontificado de Pio XII, convocou o Concílio Vaticano II. Conhecido como o "Papa Bom", João XXIII foi declarado beato por João Paulo II em 2000. (Nota da IHU On-Line)

[6] Papa Paulo VI: nascido Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, foi o Sumo Pontífice de 21 de junho de 1963 até 1978, ano de sua morte. Sucedeu ao Papa João XXIII, que convocou o Concílio Vaticano II, e decidiu continuar os trabalhos do predecessor. Promoveu melhorias nas relações ecumênicas com os Ortodoxos, Anglicanos e Protestantes, o que resultou em diversos encontros e acordos históricos. (Nota da IHU On-Line)

[7] Papa João Paulo II (1920-2005): Sumo Pontífice da Igreja Católica Apostólica Romana de 16 de outubro de 1978 até a data da sua morte, e sucedeu ao Papa João Paulo I, tornando-se o primeiro Papa não italiano em 450 anos. (Nota da IHU On-Line)

[8] Bento XVI, nascido Joseph Aloisius Ratzinger (1927): foi Papa da Igreja Católica de 19 de abril de 2005 a 28 de fevereiro de 2013, quando oficializou sua abdicação. (Nota da IHU On-Line)

[9] Gilles Routhier (1953): nascido Canadá, é padre e teólogo católico. Especializado na recepção do Concílio Vaticano II, foi professor de Teologia Prática e Eclesiologia no Instituto Católico de Paris e atualmente ensina na Université Laval, do Canadá. Vaticano II: bússola confiável para conduzir a Igreja rumo ao terceiro milênio. Entrevista com Gilles Routhier, publicada na IHU On-Line 401, de 03-09-2012, disponível aqui. (Nota da IHU On-Line)

[10] John W. O’Malley: Considerado um dos historiadores da Igreja mais respeitado e reconhecido dos Estados Unidos é doutor em História pela Universidade de Harvard. Especialista em Concílios, com especial atenção ao Concílio de Trento e ao Concílio Vaticano II, é autor de What happened at Vatican II [O que aconteceu no Vaticano II] (Cambridge, MA: Harvard University Press/Belknap. Press, 2008) e A history of the Popes [Uma história dos Papas] (Lanham, MD: Sheed and Ward, 2006). Leia as entrevistas publicadas pelo IHU: - O Concílio do impulso para a reconciliação. Entrevista com John W. O’Malley, publicada na edição 401, de 03-09-2012, disponível aqui; - "Um outro concílio? Só se for em Manila ou no Rio, não em Roma". Entrevista com John W. O"Malley, publicada nas Notícias do Dia, de 23-01-2010, no sítio IHU, disponível aqui; Entre o amor e o ódio, Deus e o conhecimento. A complexa história jesuítica. Entrevista John W. O’Malley, publicada nas Notícias do Dia, de 23-01-2015, no sítio IHU, disponível aqui. (Nota da IHU On-Line)

[11] João Paulo I (1912-1978): nascido Albino Luciani, foi Papa da Igreja Católica por um mês, entre 26 de agosto de 1978 até a data da sua morte. (Nota da IHU On-Line)

[12] Peter Hünermann (1929): é teólogo, professor emérito da cátedra de teologia dogmática na Universidade de Tübingen, na Alemanha. De suas obras, destacamos Offenbarung Gottes in der Zeit. Prolegomena zur Christologie (Münster, 1989) e Über-Setzung oder Der Glaube an die Kraft des Gotteswortes in unserer Zeit. Predigten zum Kirchenjahr (Münster, 1984). (Nota da IHU On-Line)

[13] Jon Sobrino: teólogo espanhol, jesuíta, que em 27-12-1938 entrou para a Companhia de Jesus e em 1956 e foi ordenado sacerdote em 1969. Desde 1957, pertence à Província da América Central, residindo habitualmente na cidade de San Salvador, em El Salvador, país da América Central, que ele adotou como sua pátria. Licenciado em Filosofia e Letras pela Universidade de St. Louis (Estados Unidos), em 1963, Jon Sobrino obteve o master em Engenharia na mesma Universidade. Sua formação teológica ocorreu no contexto do espírito do Concílio Vaticano II, a realização e aplicação do Vaticano II e da II Conferência Geral do Conselho Episcopal Latino-Americano, em Medellín, em 1968. Doutorou-se em Teologia em 1975, na Hochschule Sankt Georgen de Frankfurt (Alemanha). É doutor honoris causa pela Universidade de Lovain, na Bélgica (1989), e pela Universidade de Santa Clara, na Califórnia (1989). Atualmente, divide seu tempo entre as atividades de professor de Teologia da Universidade Centroamericana, de responsável pelo Centro de Pastoral Dom Oscar Romero, de diretor da Revista Latinoamericana de Teologia e do Informativo “Cartas a las Iglesias”, além de ser membro do comitê editorial da Revista Internacional de Teólogia Concilium. A IHU On-Line produziu uma edição especial, intitulada Teologia da Libertação, no dia 02-04-2007. A edição 214 está disponível aqui. Sobre a censura do Vaticano a Sobrino, confira: Teólogos espanhóis criticam a condenação de Jon Sobrino, disponível aqui, ‘Jon Sobrino, com o tempo, será reabilitado’, afirma Ernesto Cavassa, disponível aqui, Notificação a Jon Sobrino. Teólogos apelam por reforma da Congregação para a Doutrina da Fé, disponível aqui, O caso Jon Sobrino como sintoma. Um artigo de Andrés Torres Queiruga, disponível aqui (Nota da IHU On-Line)

[14] Monsenhor Guido Marini (1965): é um sacerdote católico italiano e atual Mestre das Celebrações Litúrgicas Pontifícias. (Nota da IHU On-Line)

[15] Sacrosanctum Concilium: constituição sobre a Sagrada Liturgia. Foi o primeiro documento aprovado pelo Concílio Vaticano II. Não foi objeto de muita controvérsia, pois a adaptação da liturgia já era frequente em muitíssimas comunidades eclesiais. Poderá mesmo dizer-se que esta constituição foi o primeiro fruto do Concílio, por já estar, em boa parte, a ser levada à prática antes de ter sido discutida e aprovada. O que não significa que o documento de base tenha passado facilmente entre os padres conciliares. Sobre o tema, confira a edição 58 dos Cadernos Teologia Pública, intitulado Igreja Introvertida: Dossiê sobre o Motu Proprio, de autoria de Andrea Grillo e disponível para download aqui. (Nota da IHU On-Line)

[16] Jubileu da Misericórdia (Ano Jubilar): anunciado pelo Papa Francisco em 13 de março de 2015, o “jubileu extraordinário” é centrado na “misericórdia de Deus”. Terá início a 8 de dezembro deste ano e percorrerá todo o ano de 2016. O Ano Jubilar é uma comemoração religiosa da Igreja Católica. A celebração se fundamenta na Bíblia, tanto no Antigo Testamento como no Novo Testamento. (Nota da IHU On-Line)

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O filho do Concílio e a luta contra o clericalismo. Entrevista especial com Andrea Grillo - Instituto Humanitas Unisinos - IHU

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