O sonho de um Ano Santo diferente. Artigo de Andrea Grillo

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31 Março 2015

No Ano Santo da Misericórdia, a Porta Santa será uma entrada para todos e uma providencial saída para toda rigidez e toda autorreferencialidade eclesial.

A opinião é do teólogo italiano Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu S. Anselmo, de Roma, do Instituto Teológico Marchigiano, de Ancona, e do Instituto de Liturgia Pastoral da Abadia de Santa Giustina, de Pádua. O artigo foi publicado na revista Settimana, n. 13, 29-03-2015. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Parece justamente que o Papa Francisco quis "manter elevada a tensão eclesial" em relação àqueles objetivos que, desde o início – ou mesmo desde "antes do início" do seu pontificado –, ele considerou como absolutamente prioritários. De fato, lemos no fim da pequena página que ele escreveu no dia 9 de março de 2013, quatro dias antes da eleição, esta impressionante "autodefinição":

"Pensando no próximo papa: um homem que, através da contemplação de Jesus Cristo e da adoração de Jesus Cristo, ajude a Igreja a sair de si mesma rumo às periferias existenciais, que a ajude a ser a mãe fecunda que vive 'da doce e reconfortante alegria de evangelizar'."

Na lógica de uma Igreja que "sai de si", que supera a "autorreferencialidade" e que foge da "mundanidade espiritual", enquadra-se o sinal/gesto que caracteriza continuamente o biênio recém-passado de papado: a imprevisibilidade de uma busca por uma "maior misericórdia".

Depois da convocação de um "Sínodo duplo" sobre o tema de uma releitura "misericordiosa" da experiência da família, agora, aproveitando a coincidência entre o fim do percurso sinodal e o aniversário do fim do Concílio Vaticano II, um novo início.

Em vez de "ver", "relançar"

Parece justamente que Francisco, em vez de "ver", "relança". Quase como que indicando que a Igreja, no momento em que cumpre o seu serviço de evangelização, respeita até o fim o "misterium lunae", ou seja, o fato de viver não de luz própria, mas de luz refletida, e relança uma "maior misericórdia" como sua experiência fontal.

Eis, então, que, depois de três anos de percurso sinodal, outro ano, jubilar, para sancionar a "irreversibilidade" de uma virada que os 50 anos desde o Concílio Vaticano II e os dois anos de trabalhos sinodais poderão "saborear" somente em um "ano de festa" inteiro.

Uma eclesiologia de comunhão e uma teologia do tempo encontram-se aqui em profundidade. Vendo bem, tudo isso já estava escrito nas "palavras-chave" que estruturam a Evangelii gaudium, cujo título é literalmente citação de Paulo VI, alegria do evangelho: estas são tomar a iniciativa, envolver-se, acompanhar, frutificar e festejar.

Há quase que uma circularidade nesses cinco verbos, em que o último também é o primeiro, o culmen torna-se e reconhece-se fons da iniciativa e do envolvimento.

Assim, não é de se surpreender que, em uma Igreja que se reconhece "em missão", chamada radicalmente à conversão, disposta estruturalmente à "saída de si", recorra-se a um instrumento tão "clássico" e tão "tradicional" como o Jubileu.

Vendo bem, trata-se, fundamentalmente, de um "relançamento da misericórdia", como experiência teologal que fundamenta toda realidade eclesial. Ela faz sair de si não só a Igreja, mas todo cristão. Ao tornar todos "peregrinos", todos "migrantes", todos necessitados de indulgência, todos convidados à festa do perdão, ela eleva a nível universal a "conversão" como regra mestra da identidade.

"Graça original" antes que "pecado original"

Por esses motivos, criou-se, de modo surpreendente, uma "conjunção" entre a inauguração que, há 50 anos, a Igreja levava a termo, encerrando o Vaticano II, como "primavera da Igreja" e o papado de Francisco, que se abriu durante os quatro anos de aniversários conciliares, e que relança a cada instante uma abordagem "misericordiosa" à história e à realidade. Há, antes e além de todo "pecado original", uma "graça", uma "misericórdia mais original", que tem o primado e a primeira palavra.

Como não notar, com forte contraste, a diferença de texto e de conteúdo entre a memória do Concílio, que o Papa Francisco renova continuamente, no Sínodo a ser realizado e no Ano Santo a ser celebrado, e a memória que Bento XVI fez do Concílio, na noite do dia 12 de outubro de 2012, a partir da janela iluminada do Palácio Apostólico, como 50 anos antes, mas diante de uma praça emudecida com o seu relato quase que apenas sobre o "pecado original", enquanto Francisco anuncia, desde o início do seu ministério como bispo de Roma, uma "graça original", uma "misericórdia mais original".

Nesse "clima" de convicta retomada conciliar, o Ano Santo se torna a "forma" de uma Igreja que se reinterpreta à luz dessa origem recebida como dom, a ser comunicada com estupor e com admiração a todos.

Uma bula diferente?

À luz dessa virada conciliar, 50 anos depois, podemos esperar uma "bula" de convocação do Ano Santo repleta de novidades: por enquanto, sabemos que ela será tornada pública no Domingo in Albis, que uma devoção polonesa prefere chamar de "da Divina Misericórdia".

Teremos, na bula, a linha fundamental de interpretação do Ano Santo no horizonte da misericórdia de Deus, que nos faz "peregrinos", que nos faz "limiar", que nos faz "mudar de vida". E peregrinação, Porta Santa e indulgência são os grandes sinais da tradição jubilar.

Mas, ainda para o Grande Jubileu do ano 2000, o Papa João Paulo II tinha introduzido "outros sinais": a purificação da memória, a caridade e a memória dos mártires. Talvez, poderemos esperar mais uma ampliação dos sinais, uma releitura deles que os aprofunda, em uma linguagem que saiba se livrar daqueles elementos que a história da fé já conseguiu reconhecer como caducos e como contingentes.

A linguagem também deverá mudar

Talvez, justamente essa renovação da misericórdia precise de uma Igreja que esteja disponível para renovar, acima de tudo, a própria linguagem. Não nos esqueçamos, de fato, de que a "linguagem" das indulgências foi formulada na Idade Média, com uma língua que, em um horizonte bem definido, não se envergonhava de falar sobre "lucrar" ou "adquirir" as indulgências.

Seria um sinal de maturidade e de coerência se as inevitáveis "normativas" – escritas necessariamente pelos necessários empregados da Cúria – também soubessem dar um salto de qualidade, sair da autorreferencialidade e acessar um nível de expressão linguística e de experiência eclesial que evite a redução do Jubileu a "ato administrativo", com um inevitável tiro pela culatra da mais clássica "lógica autorreferencial". Esta também seria, inevitavelmente, uma "alfândega pastoral" quase intolerável, ainda mais se conjugada com o magistério iluminado e "em saída" do Papa Francisco.

Estilo, diferença, transparência

A ideia de um Ano Santo da Misericórdia deverá encontrar o seu estilo, a sua diferença e a sua transparência:

a) Estilo de misericórdia vivida: uma Igreja aproximada

A "peregrinação" não será acima de tudo "para Roma", mas "a partir de Roma", se as Igrejas souberem, por ocasião do Ano Santo, inverter a rota.

Nas imagens do "campo de refugiados" ou do '' hospital de campanha", propostas por Francisco como ícones eclesiais, prevalece o doente sobre o pecador. Assim, deverá prevalecer o que a Igreja faz com o doente, em relação com o que a Igreja espera do pecador. Será a Igreja a se aproximar por primeiro.

b) Diferença da matemática das penas: uma Igreja desburocratizada

A recuperação da "indulgência" como festa da resposta da liberdade ao perdão de Deus – sem nenhuma confusão com o dom do perdão no sacramento da penitência – requer uma tradução iluminada e sensível da tradição, com toda a radicalidade devida e com todo o pudor necessário.

Se, às palavras límpidas desses últimos dois anos, tivessem que se acompanhar "gestões de graças ex officio", isso acabaria criando uma desarmonia quase insuportável.

c) Transparência de contato com as vidas reais: uma Igreja apaixonada

Cruzar o limiar, atravessar a porta mudará inevitavelmente de sinal: não será apenas um gesto de "entrada", mas se tornará um gesto de "saída". Porque, no próprio momento em que atesta o dom da misericórdia, a Igreja não anuncia a si mesma, mas o dom recebido: para fazer isso, deve se despojar do poder, fazer-se transparente, acolher a todos e, antes ainda, buscar a todos, apaixonadamente.

No Ano Santo da Misericórdia, a Porta Santa será uma entrada para todos e uma providencial saída para toda rigidez e toda autorreferencialidade eclesial.

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