A Igreja de Francisco é a do Concílio Vaticano II. Artigo de Massimo Faggioli

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19 Março 2013

Quase paradoxalmente, o papa que fez da "continuidade com a tradição", Bento XVI, um dos mantras da teologia romana oficial, é sucedido hoje pelo Papa Francisco, que não tem medo de mostrar não só as descontinuidades de estilo com o antecessor, mas também as descontinuidades trazidas na Igreja Católica pelo Concílio Vaticano II: lex orandi, lex credendi, ou seja, a própria forma da oração expressa a fé dos crentes.

A opinião é do historiador italiano Massimo Faggioli, professor de história do cristianismo da University of St. Thomas, nos EUA. O artigo foi publicado no sítio HuffPost.it, 19-03-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Entre as palavras-símbolo do novo pontificado, a poucos dias da eleição do Papa Francisco, estão pobreza, bondade, ternura, proteção. Se, nos primeiros encontros públicos, o Papa Bergoglio havia dado a interpretação autêntica da escolha do nome de Francisco – o santo de Assis por uma Igreja e mensageira de paz –, na homilia dessa terça-feira, 19-03-2013, o Papa Francisco enfatizou o tema da ternura como estilo essencial para uma forma de amor, a proteção, difícil de praticar em um mundo que premia o indivíduo e a competição: "Eu gostaria de pedir, por favor, a todos aqueles que ocupam cargos de responsabilidade em âmbito econômico, político ou social, a todos os homens e as mulheres de boa vontade: sejamos 'guardiões' da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de morte e destruição acompanhem o caminho deste nosso mundo!".

A lembrança dos mais fracos e frágeis é franciscano, mas sobretudo evangélico; a definição do poder do papa como serviço faz parte da reconfiguração do ministério petrino que o Papa Francisco anunciou nesses últimos dias: "Não esqueçamos jamais que o verdadeiro poder é o serviço, e que o próprio papa, para exercer o poder, deve entrar sempre mais naquele serviço que tem o seu vértice luminoso na Cruz; deve olhar para o serviço humilde, concreto, rico de fé, de São José e, como ele, abrir os braços para guardar todo o Povo de Deus e acolher, com afeto e ternura, a humanidade inteira, especialmente os mais pobres, os mais fracos, os mais pequeninos, aqueles que Mateus descreve no Juízo final sobre a caridade: quem tem fome, sede, é estrangeiro, está nu, doente, na prisão. Só quem serve com amor sabe proteger".

Até mesmo do ponto de vista do estilo litúrgico, a missa de início do pontificado do Papa Francisco enviou uma série de mensagens inequívocas. É a igreja do Vaticano II, uma Igreja que se remete sem embaraços ao momento fundamental de redefinição da teologia e do catolicismo do qual se celebra o cinquentenário entre 2012 e 2015. Na sua homilia e nos discursos proferidos até hoje, o papa recordou várias vezes o antecessor Bento XVI e João Paulo II. Não mencionou explicitamente o Concílio: mas, para um bispo latino-americano como Bergoglio, o Vaticano II é parte essencial e quase óbvia dessa experiência de Igreja.

A renúncia de Bento XVI, a eleição de um papa latino-americano, as suas palavras sobre a "Igreja pobre para os pobres", a missa em Santa Ana e a saudação aos fiéis na saída da igreja, como fazem os párocos na América, o beijo da paz entre o bispo de Roma e o patriarca ecumênico de Constantinopla: nada disso tudo é pensável sem o Vaticano II. A própria forma da celebração do início do Papa Francisco mostrou, na solenidade de um rito de menos de duas horas, a "nobre simplicidade" de que fala o documento do Vaticano II sobre a reforma da liturgia (a reforma mais importante da Igreja nos últimos 500 anos), a constituição Sacrosanctum Concilium, aprovada em 1963.

Fim do barroquismos, fim das nostalgias, fim das simbologias monárquicas e imperiais: o papa é papa não porque é monarca, mas porque é bispo de Roma. A forma desejada pelo Papa Francisco para a liturgia de início do pontificado transmite uma ideia de Igreja que remonta à Igreja chamada ao Concílio por João XXIII e é uma ideia de Igreja fiel à grande tradição cristã, e não às ideologizações antimodernas dela.

Esse início de pontificado reabre a discussão sobre o papel do papado nas relações ecumênicas entre as Igrejas, nas relações entre as religiões e civilizações. A presença do patriarca de Constantinopla, pela primeira vez na história, na missa de início do ministério do bispo de Roma; a presença de representantes das outras Igrejas, do judaísmo e do Islã, de outras comunidades religiosas; a presença do mundo inteiro na Praça de São Pedro falam ao mesmo tempo de uma Igreja que não pode voltar atrás nas trajetórias iniciadas há 50 anos.

Quase paradoxalmente, o papa que fez da "continuidade com a tradição", Bento XVI, um dos mantras da teologia romana oficial, é sucedido hoje pelo Papa Francisco, que não tem medo de mostrar não só as descontinuidades de estilo com o antecessor, mas também as descontinuidades trazidas na Igreja Católica pelo Concílio Vaticano II: lex orandi, lex credendi, ou seja, a própria forma da oração expressa a fé dos crentes.

Foi o Concílio Vaticano II que reformulou para os tempos modernos a antiga ideia de uma "Igreja serva e pobre" – uma ideia que pouco se adapta à pompa vazia das liturgias imperiais, das quais o Papa Francisco não fez segredo de querer se livrar.

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