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Os seis meses do ''fenômeno Francisco'': uma ''força da natureza''

Da forma como tem sido entendido no século XXI, o papado é realmente um trabalho impossível. Espera-se que um papa seja o CEO de uma organização religiosa global, um peso pesado político, um gigante intelectual e uma estrela midiática, sem falar de um santo vivo. Qualquer uma dessas coisas é o trabalho de uma vida inteira. Somadas, elas são uma receita para a frustração perpétua.

A reportagem é de John L. Allen Jr., publicada no sítio National Catholic Reporter, 13-09-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

No entanto, na sua marca de seis meses, que cai no dia 13 de setembro, o Papa Francisco está atraindo melhores revisões sobre esses cinco pontos do que qualquer um poderia razoavelmente antecipar no dia 13 de março, tanto em termos da magnitude da tarefa, quanto do histórico do cardeal Jorge Mario Bergoglio, de 76 anos, em Buenos Aires, Argentina.

Quando ele saiu para a sacada com vista para a Praça de São Pedro, esse era imediatamente um papa de estreias: o primeiro pontífice do mundo em desenvolvimento, o primeiro da América Latina, o primeiro não europeu em quase 1.300 anos, o primeiro jesuíta e, é claro, o primeiro a assumir o nome de Francisco.

O novo papa encantou o mundo naquela noite ao pedir humildemente que a multidão o abençoasse antes que ele os abençoasse, e ao se referir a si mesmo como "bispo de Roma", ao invés de títulos mais exaltados.

Desde essa estreia memorável, Francisco, uma e outra vez, demonstrou uma capacidade de surpreender.

Ele mergulha despreocupadamente no meio das multidões, para o deleite das massas e para o horror da sua equipe de segurança. Ele fala o que pensa com uma franqueza às vezes surpreendente, como a sua famosa frase "Quem sou eu para julgar?" com relação aos gays. Ele telefona para pessoas inesperadamente, incluindo pessoas comuns que escreveram para ele para partilhar algum conflito pessoal, e se envolve ousadamente nas questões do dia, como a sua recente ofensiva contra os ataques militares na Síria.

Esta semana, Francisco voltou às manchetes duas vezes. Na terça-feira, ele visitou uma entidade em Roma gerida pelo Serviço Jesuíta aos Refugiados, onde ele propôs que conventos e mosteiros não utilizados poderiam ser convertidos em habitação para imigrantes e refugiados. Na quarta-feira, o jornal italiano La Repubblica publicou uma carta do papa na sua primeira página, escrita a um renomado jornalista de esquerda e ateu, assegurando-lhe que a misericórdia de Deus alcança os não crentes também.

Não se engane: Francisco é um fenômeno, uma força da natureza que gerou expectativas, abalou previsões, criou um novo senso de possibilidade, levantou rumores e, em alguns ambientes, elevou as ansiedades, tudo em curto espaço de meio ano.

Embora ele tenha atraído reações, incluindo de políticos anti-imigrantes, tradicionalistas litúrgicos, umas poucas vozes mais militantes no mundo pró-vida e alguns remanescentes da velha guarda vaticana, ele também está desfrutando um nível de aclamação popular e de favor midiático que o papado não via desde o auge dos anos de João Paulo II.

Depois de seis meses da era Francisco, é um bom momento para recapitular o que vimos em cada uma das cinco frentes acima mencionadas.

O papa como CEO

Francisco foi eleito com um mandato de reforma. Os cardeais que impulsionaram esse forasteiro latino-americano ao papado entendiam que estavam votando pela mudança – não no ensino ou na disciplina, mas nos métodos de gestão que eles acreditavam que tinham começado a sair dos trilhos durante os anos do falecido João Paulo II e que descarrilou completamente com Bento XVI, produzindo colapsos como o caso do bispo negacionista e o escândalo dos vazamentos no Vaticano.

Uma e outra vez, os cardeais disseram esperar que o novo pontífice, quem quer que fosse, preparasse um Vaticano que fosse mais eficiente, mais responsável, mais transparente e mais colegial na forma como atua.

Talvez as duas medidas de gestão mais importantes até agora foram a criação de um conselho de oito cardeais de todo o mundo para aconselhar o papa sobre o governo da Igreja universal e a nomeação no dia 31 de agosto do arcebispo italiano Pietro Parolin para servir como secretário de Estado, tradicionalmente "o primeiro-ministro" do papa.

Se o novo conselho sugerir uma ruptura com o passado, um gesto em direção à colegialidade e uma declaração de que o Vaticano deve estar a serviço das Igrejas locais, a nomeação de Parolin tem a ver com a continuidade – se não com os oito anos do cardeal Tarcisio Bertone, que realizou o trabalho com Bento XVI, então com uma época anterior, em que italianos experientes do corpo diplomático do Vaticano eram percebidos como responsáveis por manter os trens em Roma andando no tempo certo.

Além disso, Francisco criou duas comissões, além do conselho de cardeais para refletir sobre a reforma: um para estudar o Instituto para as Obras de Religião, o chamado "banco vaticano", e outro para as estruturas econômicas e administrativas mais amplas do Vaticano.

Embora seja muito cedo para dizer o que esses vários órgãos poderão recomendar, Francisco não é ingênuo e, portanto, ele se dá conta de que a sua mera existência criou expectativas de ação.

Um desafio de gestão extremamente importante diante de qualquer papa é a nomeação dos bispos, porque ele depende deles para implementar a sua visão em nível de varejo. Até hoje, Francisco ainda não fez muitas nomeações emblemáticas, além de nomear o seu próprio sucessor em Buenos Aires, mas tais escolhas estão no horizonte. O cardeal Joachim Meisner, de Colônia, tem 79 anos, enquanto tanto o cardeal Antonio Rouco Varela, de Madri, e Francis George, de Chicago, têm 76 anos, todos além da idade normal de aposentadoria.

Francisco definiu claramente o tipo de bispo que quer. Durante uma conversa de meados de junho com os núncios papais, ou embaixadores, cujo trabalho é recomendar novos bispos ao papa, Francisco disse que quer prelados "próximos do povo, pais e irmãos". Eles devem ser "mansos, pacientes e misericordiosos; que amem a pobreza, interior como liberdade para o Senhor e também exterior, como simplicidade e austeridade de vida", homens que não tenham "uma psicologia de 'príncipes'".

Em termos de estilo, Francisco é decididamente prático. Ele mesmo faz seus telefonemas, coleta contribuições de vários quadrantes e toma ações pessoalmente, em vez de delegá-las a assessores. Quando ele convocou uma reunião no dia 10 de setembro com chefes de dicastérios vaticanos para fazer um balanço dos seus primeiros seis meses, por exemplo, ele mesmo convocou o encontro, ao invés de pedir que a Secretaria de Estado desempenhasse o papel principal.

Da forma como as coisas se desenvolvem, essa forma de fazer as coisas poderia ser uma proposição de alto risco e de alta recompensa. Tomar as rédeas em suas próprias mãos significa que Francisco não tem que se preocupar com os subordinados que ficam no caminho da sua agenda ou com certos boatos que são filtrados antes de chegar até ele. Jogar suas cartas com precaução também significa que a torrente usual de vazamentos no Vaticano secou a ponto de virar uma goteira.

Por outro lado, um papel que os assessores papais têm desempenhado ao longo dos séculos é o de assumir a culpa quando as coisas dão errado. Para um papa que atua como seu próprio chefe de gabinete, essa estratégia de desvio seria mais difícil.

O papa como político

Até agora, Francisco ainda não abriu realmente novos caminhos em termos da substância das preocupações sociais e políticas da Igreja, mas ele demonstrou ter um faro para gestos dramáticos para colocar essas preocupações no centro do palco.

Três questões em particular têm sido soberanas ao longo desses primeiros seis meses: a imigração, a pobreza e a guerra.

No dia 8 de julho, Francisco usou a sua primeira viagem fora de Roma para lançar um forte apelo contra a "globalização da indiferença" pelos imigrantes, visitando a ilha sulina do Mediterrâneo de Lampedusa, um importante ponto de chegada de imigrantes empobrecidos, principalmente da África e do Oriente Médio, que tentam chegar à Europa.

Dentre outras coisas, o papa jogou uma coroa de flores de crisântemos amarelos e brancos ao mar para homenagear as cerca de 20 mil pessoas que morreram fazendo a travessia, implorando que as sociedades de acolhida garantam que a chegada dos migrantes não provoque "novas e ainda mais pesadas formas de escravidão e humilhação".

"Quem é o responsável pelo sangue destes irmãos e irmãs?", perguntou o papa, dizendo que, frequentemente, a resposta é: "Ninguém!".

Embora elogiado em alguns ambientes, a viagem atraiu escárnio em outros. Um linha-dura da imigração na Itália, por exemplo, apontou que o Vaticano exatamente não escancara as suas portas para quem quiser se refugiar no palácio papal.

No dia 25 de julho, durante a sua viagem ao Brasil, Francisco visitou uma notória favela do Rio de Janeiro chamada Varginha, uma parada acrescentada ao seu cronograma especificamente a seu pedido. Ele levantou os mais pobres entre os pobres como um espelho para a consciência global, insistindo que "a medida da grandeza de uma sociedade é dada pelo modo como esta trata os mais necessitados, quem não tem outra coisa senão a sua pobreza".

Francisco não desvia o subtexto político. O Rio de Janeiro adotou uma estratégia de "pacificação" das suas favelas, e Varginha, em particular, ficou conhecida como a Faixa de Gaza da cidade pelos seus confrontos sangrentos entre as várias gangues que disputavam o controle, assim como entre as gangues e a polícia.

"Nenhum esforço de 'pacificação' será duradouro, não haverá harmonia e felicidade para uma sociedade que ignora, que deixa à margem, que abandona na periferia parte de si mesma", disse o papa naquela que foi considerada como uma crítica direta à política do governo.

Mais recentemente, Francisco presidiu uma ofensiva diplomática total do Vaticano contra a ideia dos ataques militares ocidentais contra a Síria.

Ele enviou uma carta com palavras duras ao presidente russo, Vladimir Putin, à frente da cúpula do G20, afirmando que uma solução militar seria "fútil"; convocou um dia de oração e jejum no dia 7 de setembro, presidindo pessoalmente uma celebração de quatro horas na Praça de São Pedro; e, no seu discurso do Ângelus, no dia seguinte, sugeriu sem rodeios que os conflitos como a Síria podem ser atiçados como uma desculpa para alimentar o comércio de armas.

Francisco impulsionou a campanha contra o uso da força de várias maneiras, inclusive usando a sua conta no Twitter para enviar mensagens antiguerra.

O papa como intelectual

Francisco publicou uma carta encíclica, Lumen fidei, no dia 5 de julho, embora, pelo seu próprio reconhecimento, seja principalmente um trabalho de Bento XVI. O papa aposentado começou o texto como a parte final de um tríptico sobre as virtudes teologais, em conjunto com as encíclicas anteriores sobre o amor e a esperança, e como uma carta para o "Ano da Fé" do Vaticano.

Embora os representantes papais nunca disseram isto em voz alta, o toque mais pessoal de Francisco no documento de 90 páginas provavelmente foi dado em uma abertura aos "buscadores" do mundo pós-moderno.

"Na medida em que eles se abrem, de coração sincero, ao amor e se põem a caminho com a luz que conseguem captar, já vivem – sem o saber – no caminho para a fé", diz o texto. "Quem se põe a caminho para praticar o bem já se aproxima de Deus".

Francisco voltou a esse tema em uma carta de meados de setembro a Eugenio Scalfari, um renomado jornalista italiano e antigo representante da esquerda política, que também é um ateu autoprofesso.

Scalfari tinha levantado algumas perguntas para Francisco em um artigo que ele publicou em julho sobre a Lumen fidei, e o papa realmente respondeu-lhe, assegurando-lhe, dentre outras coisas, que a misericórdia de Deus "não tem limites", e que o pecado para um não crente não seria a falta de fé em Deus, mas sim uma falha em obedecer à própria consciência.

Os papas às vezes estimulam o pensamento, tanto pelo seu exemplo, quanto pelas suas próprias contribuições intelectuais, e parece haver quatro áreas em que a hermenêutica do papado de Francisco pode se desdobrar.

A primeira é a eclesiologia, ou a doutrina da Igreja, especialmente em termos de episcopado e de ofício papal. De maneiras grandes e pequenas, Francisco rejeitou muitos dos modos habituais pelos quais os VIPs eclesiásticos se exaltam, e alguns especialistas acreditam que o seu exemplo poderia ter um significado tanto teológico quanto ecumênico.

"Na época feudal, nós desenvolvemos essa noção dos bispos como príncipes", disse o padre capuchinho William Henn, antigo ecumenista que leciona na Universidade Gregoriana de Roma. "Com Francisco, eu acho que outros cristãos podem ver o ministério episcopal mais claramente como um serviço à comunhão e vão se tornar mais abertos a isso".

A segunda área é o ensino social católico, em que, dentre outras coisas, Francisco pode ser o papa que, finalmente, curou a ferida de décadas em torno da teologia da libertação. Gustavo Gutiérrez, o teólogo peruano considerado o pai do movimento, recentemente foi o coautor de um livro com o prefeito doutrinal do Vaticano, o arcebispo alemão Gerhard Müller, que é seu velho amigo, e se encontrou com o Papa Francisco pessoalmente.

A terceira área em que Francisco poderia estimular a reflexão é a teologia litúrgica.

O novo papa tem uma abordagem mais informal e de alguma forma como "baixa Igreja", uma característica que já está tendo um impacto em Roma. Clérigos que se encolerizavam com o que eles percebiam como um crescente preciosismo durante os anos do falecido João Paulo II e de Bento XVI – apresentando-se para uma missa papal, por exemplo, apenas para ouvir que não estavam devidamente vestidos, porque não estavam portando púrpuras e rendas suficientes – relatam que tudo isso acabou em meados de março.

Se Bento XVI incitou a Igreja a recuperar a profundidade cósmica e espiritual da liturgia, Francisco pode estimular uma ênfase renovada nas dimensões de serviço e de comunidade.

Em quarto lugar, Francisco pode inspirar um novo pensamento sobre a teologia dos sacramentos mediante a sua abordagem para a contestada questão dos católicos divorciados e em segunda união.

Se ele se mover na direção de uma maior flexibilidade, isso pode fazer com que a teologia sacramental católica "roube" uma página da teologia sacramental ortodoxa – compreendendo os sacramentos a partir um grau maior, não apenas como expressão de comunhão na fé, mas também como "remédio para a alma doente".

O papa como figura midiática

Se você perguntar a pessoas que conheciam Jorge Mario Bergoglio em Buenos Aires sobre a maior surpresa delas ao vê-lo agora como papa, elas normalmente dirão que é o seu conforto na cena pública.

Durante o seu tempo como arcebispo, Bergoglio era notoriamente adverso à mídia, evitando os holofotes públicos o máximo possível. Os admiradores definiam isso como humildade, enquanto os críticos chamavam-no de "chato" e "cinzento", mas, em todo caso, era um aspecto estabelecido do seu estilo.

Como resultado, vê-lo agora conquistar o mundo totalmente – levando multidões a uma tal loucura no Brasil que elas basicamente sequestraram a sua comitiva motorizada, por exemplo, e correram atrás dele como adolescentes em um show do Justin Bieber – surpreendeu até mesmo os seus amigos mais antigos e seus familiares como uma revelação.

"Ele era próximo das pessoas aqui na Argentina, mas hoje ele parece ainda mais próximo e mais capaz de expressar os seus sentimentos, sinal de que o Espírito Santo o está ajudando", disse Maria Elena Bergoglio, a única irmã viva do papa em uma entrevista em meados de abril com o NCR.

Seja qual for a explicação, os políticos e celebridades provavelmente fariam de tudo para ter a atratividade do papa.

Em julho, a edição italiana da revista Vanity Fair declarou-o como o seu "Homem do Ano", incluindo depoimentos de louvor de lugares improváveis, como Elton John, que chamou o pontífice de "um milagre de humildade na era da vaidade".

Dois pontos sobre a nomeação a "Homem do Ano" são especialmente marcantes: primeiro, ele era papa há apenas cerca de dois meses e meio; e, segundo, o ano ainda não estavam nem na metade. Aparentemente, o cálculo da Vanity Fair foi de que ninguém no resto do calendário de 2013 poderia superar a estreia de Francisco.

Pesquisas mostram fortes índices de aprovação. Uma recente pesquisa na Itália mostrou a popularidade de Francisco em 85%, com repercussões para a Igreja: a porcentagem de italianos que diziam confiar na Igreja era de 63% em comparação com os 46% de janeiro, durante o crepúsculo do papado de Bento XVI.

"Houve uma mudança mundial nas atitudes com relação ao papado desde a eleição de Francisco", disse o veterano vaticanista Marco Politi, colunista do jornal italiano Il Fatto Quotidiano. "Houve uma grande onda de simpatia, não apenas entre os fiéis, mas também entre as pessoas que são muito seculares ou distantes da Igreja".

Para que a palavra "onda" não pareça um exagero, é preciso lembrar que Francisco atraiu uma multidão de mais de 3 milhões a famosa praia de Copacabana no Rio de Janeiro no fim de julho, quebrando o recorde anterior estabelecido pelos Rolling Stones no trecho de areia e surf mais famoso do mundo – e Francisco fez isso na calada do inverno brasileiro, duas vezes.

Resta saber por quanto tempo a celebridade de Francisco vai durar. João Paulo II também foi uma estrela da sua época, mas isso não impediu que uma significativa oposição surgisse ou que escândalos estourassem e, ao menos aos olhos de alguns, arruinassem o seu legado. Há seis meses, no entanto, o novo papa continua sendo uma commodity em alta.

O papa como inspirador-chefe

Embora os papas usem muitos chapéus, do ponto de vista espiritual, a sua responsabilidade mais importante é promover vidas de santidade.

Às vezes, isso envolve dar um "beliscão" no ensino da Igreja ou dizer "não" a trajetórias culturais que pareçam sair do curso, mas, para a maioria das pessoas comuns, tudo isso é secundário à questão central que eles fazem a qualquer líder religioso: essa pessoa é inspiradora?

No plano espiritual, o toque de assinatura de Francisco, até agora, tem sido um forte destaque na misericórdia, expressado em uma ênfase repetida na capacidade infinita de Deus de perdoar.

Em um recente artigo para o jornal italiano Corriere della Sera, Enzo Bianchi, fundador do celebrado mosteiro ecumênico de Bose, ofereceu uma análise estatística das palavras usadas com mais frequência por Francisco desde a sua eleição. Ele constatou que o termo mais comumente usado era "alegria", mais de 100 vezes, seguido de perto por "misericórdia", que o papa usou quase uma centena de vezes.

Francisco fez da misericórdia o coração da sua primeira homilia na igreja paroquial vaticana de Sant'Anna no dia 17 de março, e ele voltou a ela mais tarde naquele dia, no seu primeiro discurso do Ângelus: "Para mim, e eu digo isto com humildade, a mensagem mais forte do Senhor é a misericórdia", disse Francisco.

Essa ênfase flui a partir de uma perspectiva pastoral desenvolvida ao longo de uma vida inteira, que sempre enfatizou a necessidade de que os representantes de Cristo exalem misericórdia e compaixão.

"Somente alguém que encontrou misericórdia, que foi acariciado pela ternura da misericórdia, está feliz e confortável com o Senhor", disse Bergoglio em 2001.

"Eu peço que os teólogos que estão presentes não me entreguem à Inquisição. No entanto, forçando um pouco as coisas, me atrevo a dizer que o lócus privilegiado do encontro é a carícia da misericórdia de Jesus Cristo no meu pecado."

A importância da misericórdia também se expressa no lema que Francisco assumiu como papa: "Miserando atque eligendo", que significa, aproximadamente, "tendo misericórdia e escolhendo".

Dada essa ênfase, Francisco sempre teve uma paixão especial pelo sacramento da reconciliação. Quando visitou a paróquia dos Santos Isabel e Zacarias na periferia norte de Roma, no dia 31 de maio, por exemplo, ele ouviu várias confissões antes de rezar a missa, algo que João Paulo II e Bento XVI não faziam em suas viagens às paróquias romanas.

Isso sugere uma intuição final sobre o que aprendemos sobre Francisco a partir dos seus primeiros seis meses.

Quando o fim finalmente chegar para Francisco, os vaticanologistas e os historiadores provavelmente irão se concentrar se ele fez as reformas que ele foi eleito para fazer, como limpar o banco vaticano.

Políticos e diplomatas irão perguntar se ele moldou a história, virando a página das preocupações da Igreja e moldando a "Igreja pobre e para os pobres" que ele declarou que era o seu sonho. Os representantes midiáticos irão olhar para os seus números de pesquisas e se o novo sopro de vida para a Igreja Católica que a sua eleição parecia anunciar, de fato, levou a alguma coisa.

Todas essas são, à sua maneira, medidas perfeitamente legítimas. No entanto, se imaginarmos como o próprio Francisco poderá avaliar o seu sucesso ou o seu fracasso, ele provavelmente diria isso de forma diferente: ele deixa para trás uma Igreja mais misericordiosa e um mundo mais misericordioso?

Seja qual for a resposta, Francisco provavelmente diria que, ao menos, essa é a pergunta certa a se fazer.

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